A doença inglesa do suor, ou sudor anglicus, foi uma doença terrível. Entre 1485 e 1551 matou cerca de três milhões de pessoas, de acordo com Sthepen J. Spignesi em seu livro “As 100 maiores catástrofes da humanidade”.

A epidemia do sudor anglicus varreu a Inglaterra por cinco vezes, sempre no verão. Depois da primeira epidemia em 1485 ela voltou em 1508, 1517, 1528 e 1551. A doença do suor matava em 24 horas, as vezes até em 3 horas. O relato feito pelo italiano Polydore Vergílio em 1485, um dos primeiros conhecidos da doença, é assustador:

“Em 1485 uma nova doença atingiu todo o reino…uma pestilência de fato horrível…repentinamente um suor fatal ataca o corpo, devastando-o com dores na cabeça  e no estômago agravadas pela terrível sensação de calor. Em decorrência disso, os pacientes retiravam tudo o que os cobria; se estivessem vestidos, arrancavam as roupas, os sedentos bebiam água, outros sofriam dessa febre fétida provocada pelo suor, que exalava um odor insuportável…todos morriam imediatamente ou pouco tempo depois do suor começar; de tal modo, que um em cada centena escapava”.

O relato do médico real John Caius, feito em 1552, logo após a última epidemia, é mais técnico, mas nem por isso menos assombroso;

“Primeiro a dor nas costas e nos ombros, dor nas extremidades, como braços e pernas, com ardor ou espasmo, como se apresentava em alguns pacientes. No segundo momento apareciam as dores no fígado e nas proximidades do estômago. Na terceira fase surgia uma dor de cabeça acompanhada de insanidade. Na quarta, o sofrimento do coração…pacientes respirando aceleradamente e com dificuldade…com a voz ofegante e lamuriosa…não resistiam mais do que um dia.”

A misteriosa doença do suor não escolhia as suas vítimas. Matou, em 1533, os dois filhos do Duque de Suffolk, Charles Brandon, membro da família real. O primeiro surto da doença adiou a coroação de Henrique VII em 1485, reduziu à metade a população de cidades como Oxford e Cambridge, além de paralisar Londres. A situação era desesperadora a cada novo surto da doença. “Ninguém pensava em seus afazeres diários, as mulheres enchiam as ruas de lamentações e preces e os sinos dobravam por finados dias e noites” escreveu ninguém menos que Martinho Lutero, que contraiu o sudor anglicus em 1529, quando a epidemia mais severa da doença se espalhou pelo norte da Europa. Porém, Lutero sobreviveu, só vindo a morrer em 1546, de infarto.

Lutero teve sorte. Todos os tratamentos eram inúteis. Tentando desesperadamente salvar seus entes queridos, muitas pessoas chegaram à conclusão que para salvar um paciente era necessário faze-lo suar ainda mais, para “expulsar” a doença. Tão logo alguém apresentava qualquer um dos sintomas, era imediatamente envolto em roupas, mantas e cobertores. Pouco tempo depois, acometido de febre e com um suor fétido exalando do seu corpo, o pobre paciente morria e as famílias acreditavam que isso tinha acontecido porque o “tratamento” havia sido iniciado tarde demais.

Depois de 1551 a doença inglesa desapareceu tão misteriosamente quanto havia se iniciado. O que seria então o famigerado sudor anglicus e porque desapareceu tão repentinamente ?

A resposta teria que esperar até 20 de fevereiro de 1997 quando os médicos britânicos Guy Thwaites, Mark Taviner e Vanya Grant publicaram um artigo no New England Journal of Medicine em que chegaram à conclusão de que o sudor anglicus era uma forma de hantavírus contraída pela ingestão de fezes de ratos. Assim como na Peste Negra e ainda hoje em dia com a leptospirose, mais uma vez os roedores da família muridae foram os portadores da morte. Hoje existem catalogados cerca de vinte tipos de hantavírus no mundo. Talvez algum deles seja o famigerado sudor anglicus, depois de muitas mutações. Ou não. A doença inglesa do suor pode estar latente, escondida, esperando para atacar de novo. Pelo sim, pelo não, é bom chamar um dedetizador para matar os ratos da sua casa. E manter um estoque de Rexona também, claro.