O advogado do diabo – parte 2

Notas importantes

Para correta compreensão deste texto, é recomendável – para não dizer imprescindível – a leitura da primeira parte do mesmo, disponível logo abaixo ou então clicando aqui.

Esse texto também não é sobre o filme estrelado por Keanu Reeves e Al Pacino.

Fim da notas importantes

Dana de Teffé era uma tcheca que teve, para dizer o mínimo, uma vida agitada. Ainda adolescente, perdeu os pais e a irmã na Segunda Guerra Mundial e fugiu para a Itália, onde seu primeiro marido também foi morto. Fugiu de novo para a Espanha, onde esteve casada por quatro anos. Depois da guerra, já separada, mudou-se para o México onde se casou pela terceira vez. Dois anos depois já estava separada outra vez e desembarcou no Brasil, onde se casou pela quarta vez e se separou pela terceira.

Tida como belíssima, culta, falando seis idiomas, Dana de Teffé gostava de coisas caras e requintadas. Sua última separação havia lhe rendido várias jóias e um apartamento no Rio de Janeiro, mas ela não podia viver de renda para sempre então teve vários empregos a partir de 1958.

Quando Dana se separou de seu último esposo, quem cuidou dos tramites burocráticos da separação foi ninguém menos que Leopoldo Heitor, o advogado do diabo. Nascia aí uma amizade que provaria ser fatal para Dana.

Depois do crime do Sacopã, Leopoldo Heitor havia ficado famoso. Seu nome voltou a freqüentar as manchetes em 1957 quando foi julgado e condenado a dois anos de prisão por estelionato num caso envolvendo a Receita Federal. Leopoldo e a mulher fugiram para a Argentina onde ficaram até 1960 quando a sentença contra ele foi anulada.

Em 29 de junho de 1961 Dana de Teffé partia do Rio de Janeiro com destino a São Paulo onde, supostamente, ia se empregar na Olivetti. Com ela, de carro, seguiu ninguém menos do que Leopoldo Heitor. Começava aí uma história que se desenrolaria por mais de dez anos, sem que ninguém saiba realmente o que aconteceu.

Leopoldo Heitor voltou no dia seguinte com um ferimento na perna e uma história mirabolante: Dana havia encontrado um velho amigo da família dela em São Paulo e ele tinha lhe dito que sua mãe ainda estava viva. Dana havia partido então para a Europa ao encontro da mãe não sem antes, claro, deixar uma procuração (que depois se provou ser falsificada) para que Leopoldo Heitor vendesse todos os seus bens para custear a viagem.

Cinco meses depois da viagem, Leopoldo Heitor já havia vendido todos os bens de Dana, inclusive o apartamento do Rio de Janeiro, por preços bem abaixo do mercado. Ele apresenta claros sinais de enriquecimento, o que levantou as suspeitas de amigos de Dana e de Oscar Stevenson, advogado que havia sido amigo e sócio de Leopoldo Heitor.

A polícia, alertada por Stevenson, começou a investigar o sumiço de Dana de Teffé. A influente revista “O Cruzeiro” (a Veja da época) também entrou no caso e descobriu que não havia registro da saída de Dana do país e nem emprego algum para ela na Olivetti. A farsa de Leopoldo Heitor começava a cair.

Preso sem mandato e supostamente torturado em 1962, Leopoldo Heitor contou uma história mirabolante: ao parar para consertar o carro na Via Dutra, trocou tiros com dois assaltantes, sendo Dana atingida mortalmente por uma bala perdida. Mesmo ferido, ele disse ter voltado ao Rio de Janeiro, onde mandou se desfazer do corpo com medo da repercussão negativa que ele traria.

Porém uma testemunha, de nome Chico, empregado de Leopoldo Heitor no seu sítio em Rio Claro, desmentiu o patrão e disse que ele havia enterrado o corpo de Dana no tal sítio. Uma ossada chegou a ser encontrada num local indicado por Chico, mas era de um cavalo. Chico, talvez a mando de Leopoldo Heitor, mudava detalhes da história a cada novo depoimento. Mesmo com toda a confusão, e sem nenhum corpo para provar, Leopoldo Heitor foi formalmente indiciado como o assassino de Dana de Teffé.

Enquanto aguarda julgamento, Leopoldo Heitor foi preso, mas fugiu em 05 de outubro de 1962, sendo recapturado 15 dias depois no Mato Grosso. Em novembro daquele mesmo ano ele foi ouvido pelo juiz e contou mais uma versão para o desaparecimento de Dana de Teffé: ela havia sido seqüestrada e levada para a Europa com um nome falso, por isso não havia registro da sua saída. Enquanto aguardava a sentença, Leopoldo Heitor fugiu de novo. Julgado a revelia em 16 de janeiro de 1953, foi condenado a 35 anos de prisão. Em agosto, foi encontrado na fronteira com o Uruguai e preso novamente.

De volta ao Rio de Janeiro, Leopoldo Heitor recorreu e conseguiu duas vitórias importantes: o direito de fazer a própria defesa e que o julgamento do caso ocorreria através de jurí popular em Rio Claro, onde ele era muito popular.

Enquanto isso a polícia tentava desesperadamente encontrar o corpo de Dana de Teffé, mas sem sucesso. Nas escavações no sítio de Leopoldo Heitor, o máximo que conseguiram encontrar, em um chiqueiro, foi uma mão, que não pode ser identificada.

Fazendo a sua própria defesa diante dos “compadres” de Rio Claro, o brilhante advogado que era Leopoldo Heitor conseguiu a sua absolvição. Ele acabou sendo julgado três vezes, sempre em Rio Claro, nos anos 1965, 1969 e 1971, sendo absolvido em todas elas.

Quatro meses depois do último julgamento, a polícia foi informada por um ex-empregado de Leopoldo Heitor onde estaria enterrado o corpo de Dana de Teffé. Com, finalmente, um corpo para exibir, a polícia tentou reabrir o caso, mas o STF negou o recurso em 1974. O advogado do diabo safou-se mais uma vez.

O suposto corpo de Dana de Teffé ficou exposto, num protesto contra a ineficiência do sistema judiciário brasileiro, em um caixão de vidro no museu da Polícia Militar do Rio de Janeiro até a década de 90, quando Nilo Batista mandou enterra-lo.

Já o advogado do diabo continuaria exercendo sua profissão até 2001, quando faleceu, vitima de infarto. Casou-se três vezes, sendo uma vez com uma ex-miss Paraná e teve dez filhos ao todo. O consenso geral é que ele ajudou a mandar uma pessoa inocente para a cadeia e matou Dana de Teffé para roubar seus bens. Mas, como ninguém nunca conseguiu provar nada, nunca foi condenado. John Milton (o personagem de Al Pacino no filme Advogado do Diabo) com certeza se orgulharia dele.

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Publicado em História
20 comentários em “O advogado do diabo – parte 2
  1. Robson disse:

    Está faltando um livro sobre isso, não acha?

  2. Henderson disse:

    A Globo lançou um livro chamado “Crimes que abalaram o Brasil” com base nos programas do Linha Direta – Justiça e esse caso consta entre eles. Específico sobre esse caso eu não conheço nenhum livro, infelizmente.

  3. Klauss disse:

    Eu conheço a família e nesse texto existe muita coisa leviana e que não diz a verdade que ninguém pode dizer! Existe um livro chamado “Lastro de chumbo” e nele a versão é oficial do acusado e de uma pessoa neutra. Bem verdade é que nada foi esclarecido, por isso a imaginação do povo, da impensa e dos inimigos do Dr. Leopoldo fazem desse lastimável episódio uma fofoca de beira de cozinha!!!

  4. Eduardo Alagoano disse:

    Lendo o livro “Crimes que abalaram o Brasil”, citado acima pelo amigo Henderson e artigos da época, publicados pricipalmente pela revista “O Cruzeiro”, vide http://www.memoriaviva.com.br, entendo que há mais que meros indícios de que o tenente Bandeira foi mesmo o autor do famoso “crime do Sacopã”.

    Pelo que se pode inferir ao se ler a matéria publicada em “O Cruzeiro”, o deputado federal alagoano, Tenório Cavalcante, político da baixada fluminense, utilizou-se do caso para “fazer média” com os militares da época.

    Para esse fim, o deputado federal, que parece também ter sido um inteligente e sagaz advogado, conseguiu livrar o tenente Bandeira, apresentando um outro suposto autor do Crime do Sacopã.

    Por sua vez, a testemunha tazida por Leopoldo Heitor apresentou detalhes verossímeis, tais como um defeito que o veículo apresentava no câmbio e trechos de um diálogo muito coerente que teve com a vítima, quando viajou com esta de São Paulo para o Rio de Janeiro no dia do crime.

    Pena que não se pode ter acesso aos autos do processo.

    Aproveito para sugerir que se disponibilize o conteúdo dos autos de forma digital, pois se trata de um caso bastante interessante para aqueles que se interessam por criminologia.

  5. Rudolf Shermman disse:

    Ja conhecia a história, pois meu Professor de Direito o Dr. Rubinelli já havia comentado em sala de aula.
    Parabéns pelo trabalho.

  6. Mel Gama disse:

    Há muito venho procurado sobre o julgamento do Leopoldo Heitor que foi televisionado. Meu pai, Romualdo Gama Filho, faleceu há 30 anos – minha mãe sempre me dizia que ele (leopoldo) havia sido condenado pelo meu pai e o promotor na época viria a ser, mais tarde, meu professor de Direito Penal – César Augusto Farias. Meu pai foi juiz em Rio Claro por isso não compreendo qdo diz que as 3 vezes que ele foi julgado, foi absolvido… :/
    Infelizmente, tanto meu pai qto minha mãe já não estão mais aqui para esclarecer. Resta a mim buscar, se eu assim quiser…

  7. Alessandro disse:

    Isso só mostra que nossa justiça era ainda mais imcompetente e falha naquela época, mesmo com a certeza de que o tal advogado matou a Dana, não conseguiram colocar o cara na cadeia, o cara da 3 versões para o mesmo crime e nada se faz…triste!! Estamos com 2 casos novos de repercussao no momento e 1 deles até agora nao existe o corpo para que se comprove a morte, mas espero que depois de algumas decadas algo tenha melhorado e dessa vez mesmo que não haja um corpo, se faça o óbvio e os culpados paguem muito caro!! AHH…vc realmente conhece bem a familia Klaus, deve ser um membro dela, só pode.

  8. Aldo Fonseca disse:

    Esse crime serviu de fomento para impunidades que o Brasil não consegue se livrar, principalmente em crimes contra as mulheres. Só o fato de Leopoldo Heitor ter dado três versões para o desaparecimento de Dana de Teffé, seviria para que ele fosse condenado a pena máxima. Mas isso não aconteceu por culpa das pessoas que participaram como juri em Rio Claro. De quem é a culpa? É da justiça ou das pessoas brasileiras que encaram essas coisas com preconceitos e fantasias absurdas?

  9. João Tomaz da Silva disse:

    A impressão que dá é que tudo isto é ficção. É brincadeira os tribunos da época acreditarem em tanta lorota. Só faltou o advogado do diabo processar dana de tefé por falsa comunicação de crime, via cosmos.
    não vale a pena escrever mais. é gastar boa vela com mau defunto.

  10. Juciene disse:

    É incrível como ainda hoje existe crimes semelhantes e que justiça cheia de tecnologias e táticas , ainda não consegue desvendar.

  11. JOÃO ALBERTO NOGUEIRA DE CASTRO disse:

    É de se lamentar o fato de, no contexto das discussões sobre o desaparecimento e morte de Dana de Teffé, ainda encontrarmos pessoas que advogam a inocência de Leopoldo Heitor. No meu entender isso reflete, e muito bem, que ainda há no Brasil os defessores de criminosos sem escrúpulos. Temos notícias de advogados que recusam causas (e dinheiro) por não pretenderem defender criminosos ordinários. Mas, também, sabemos da existência daqueles defensores chamados “de beira de delegacia” que, por qualquer tostão, se metem na suja lama por onde vagueiam os inescrupulozos, fazendo do Direito não um instrumento para o aperfeiçoamento da justiça e da sociedade brasileira, mas um meio eficaz de proliferação da indecência do crime que, internacionalmente, impõe uma nódoa sobre o nome da grande nação brasileira. O Brasil ainda é o país onde só os pobres se apertam nos espaços sujos e insalubres das cadeias e presídos. No âmbito da elite e de sua vassalagem, no entanto, é que se encontram, aqueles indivíduos capazes de até “endeusar” um virulento assassino.

  12. acho que as pessoas deveriam pesquisar mais sobre direito penal e a prova pericial. Porque se não ha corpo de delito, não ha o crime. é o que ocorreu no caso do Leopoldo Heitor, e os jurados decidiram conforme a prova exixtente nos autos, isto é, ausencia do corpo de delito; o cadaver. Mas dpois disso, quantos outros crimes ficaram impunes, com os assassinos conhecidos, e impunes, pelo poder financeiro, e as facilidades que a realidade oferece. não vamos crucificar o Leopoldo Heitor, que descanse em paz.

  13. Ingrid disse:

    Igualzinho ao caso Bruno.. tanto tempo depois.
    Lamentável ! :’(

  14. carlos josias disse:

    Nenhum parente a vitima deixou ? Se houve um corpo em exposição não poderia hoje se fazer um teste de DNA ? Impressionante o número de crimes não resolvidos ! O ditado de que ´o crime não compensa` e de que `não existe crime perfeito` é falso !?

  15. Leopoldo heitor não era “grande advogado”, apenas mediano, como tantos outros .
    Inicialmente foi processado, não por homicidio, mas por latrocinio, crime de competencia do juiz singular, e foi condenado. Anulou, sustentando que a competencia era do Tribunal do júri, e foi seguidamente absolvido (um dos julgamentos foi anulado pq emissora de televisão filmou os jurados na sala secreta). Contribuiu para a absolvição a desastrada atuação do delegado que, sem mandado, o sequestrou e obrigou a assinar uma confissão, repudiada depois. E, claro, a inexistência de cadáver, sendo que, na época, não havia exame de DNA para vestígios como os ossos de mão também ilegalmente recolhdos(ou “plantados’) no sítio, sob os auspícios de “O Cruzeiro” …

  16. Livia Stevenson disse:

    Sou neta do Falecido Professor Oscar Stevenson,sempre ouvi muitas estorias ligadas a Dana,posso afirmar que meu avo fez de tudo p/ encontrarem o corpo da Dana . Na decada de 80 o filho do Leopoldo Heitor estava noivo e parece que houve uma briga aonde a noiva se protegeu com uma faca e o matou no corredor do edifio aonde ela morava. Ouvi tantas outras estorias mas essa me impressionou com tantos fatos corretos.

  17. breno araujo disse:

    perai, esse nao foi o goleiro Bruno do flamengo?

  18. Carla disse:

    gostaria muito de saber aonde o ”suposto corpo” de dana de teffé foi enterrado , poderia mudar a minha vida dependendo do que poderia descobrir será que alguem sabe ?

  19. cecilio teixeira disse:

    não existe absolvição por falta do corpo da vitima. Imagine o ladrão de uma galinha quie comeu o produto do furto, Ate na época da revolução francesa Jean vaujan pagou 19 anos por um pão de 50 grs. No caso Bruno certamente a inspiração foi o filme: tomates verdes fritos. vale a penar ver esse filme. Também no no caso do livro de victor hugo – os miseráveis – historia do acima condenado a 19 anos tamb´me o pão sumiu conforme ensinou Lavosier.

  20. LUIZ CARLOS SANFELICE disse:

    Tanto o livro “Lastro de Chumbo” quanto o livro “Do Inferno Verde à Cortina de Ferro”, ambos brilhantemente escritos pelo culto Dr. Leopoldo Heitor de Andrade Mendes, narram fatos verdadeiros e épicos da vida desse advogado, filho de um Juiz de Direito e da nobilíssima Senhora, dona Julieta, exemplo autêntico da tradicional e honrada ‘família mineira’. Pessoalmente por tudo quanto me foi dado ver, ler, saber e ouvir, no Rio, em São Paulo, em Barra Mansa, na Fazenda da Grama e em Rio Claro, desde 1958 até os dias de hoje, Heitor não só não condenou um inocente (caso Bandeira) como não matou a Dana de Teffé. De qualquer modo, como disse o Papa Francisco, “quem sou eu para julga-lo” por essas acusações. O que sei, vi e constato desde então, é que todos os que o constituiram como profissional, gostaram do serviço obtido, e entre os 10 filhos que ele teve, todos foram bem criados, educados, nada nunca lhes faltou, são todos formados e tem orgulho de ter tido um pai bom, familiar e competente. O resto são especulações cinematográficas nunca provadas mas que, concordo, daria um bom roteiro.
    Porto Alegre, 21 de janeiro de 2014.
    Luiz Carlos Sanfelice
    CI/RG 11.804.218-SSP/SP
    OAB/RS nº 5476

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