Diz a lenda que era uma vez, no Iêmen, um homem chamado Omar foi condenado a morrer no deserto. Enquanto vagava, sedento e com fome, ele teve uma visão. Encontrou um pé de café, comeu seus frutos e teve forças para retornar até sua cidade, onde sua fuga da morte foi considerada um milagre e um sinal que o café era uma bebida divina.
Daí para o café se tornar a bebida predileta dos muçulmanos foi um pulo. Mas foi um pulo meio polêmico.
Como você, meu caro leitor, minha prezada leitora, deve saber é que o Islã proíbe bebidas alcoólicas. Mas o Alcorão em nenhum momento se refere a “bebida alcoólica” mas a “bebida intoxicante”. Aí começou uma disputa entre os sábios muçulmanos para saber se o café era lícito ou não. A bebida chegou a ser proibida em alguns momentos, mas venceu a corrente que defendia que o café devia ser liberado. Um dos argumentos mais fortes foi de que o café deixava a pessoa alerta, pronta para “louvar a Alá”, ao contrário das bebidas alcoólicas.
O próximo salto do café seria em direção à Europa cristã. Os primeiros cafés surgiram no começo do século XVII e até a decada de 60 desse século já tinham se espalhado por Inglaterra, França e Países Baixos, com enorme sucesso. Mas houve muita controvérsia no começo.
Os principais opositores do café eram, é óbvio, os donos de tavernas. Eles acusavam o café de ter “gosto e sabor de fuligem” e que provocava esterilidade.
Já os defensores do café usavam argumentos parecidos com os muçulmanos. O café mantinha a pessoa alerta, curava a bebedeira (um mito que continua até hoje) e era muito mais adequada que as bebidas alcoólicas numa época em que se valorizavam as novas descobertas científicas e exploratórias.
Não podendo conter o avassalador poder do café, os comerciantes de bebidas apelaram para a religião. Começaram a ligar o café ao Islã e a dizer que a bebida tinha sido a punição divina aos muçulmanos por eles terem banido a bebida sagrada dos cristãos, que era o vinho.
A controvérsia chegou a tal ponto que o Papa foi chamado a opinar sobre o assunto. Era ou não lícito tomar uma bebida vinda do Islã ?
Na época estava ocupando o trono de Pedro o Papa Clemente VIII. Italiano, tido como severo e disciplinador, Clemente VIII tinha, entre outras coisas, selado a paz entre a França e a Espanha, reeditado o Index Librorum Prohibitorum (lista de livros proibidos aos católicos, extinta durante o Concílio Vaticano II) e mandado queimar Giordano Bruno na fogueira. Nada mal, hein ?
Com um Papa linha-dura como esse as chances do café não pareciam muito promissoras. Mas o pontífice pediu para provar a bebida antes de dar um veredicto. E não é que o café amoleceu o coração duro de Clemente VIII ? Sua Santidade ficou encantado com a bebida e liberou o seu consumo por todos os cristãos.
Com a aprovação papal o café deslanchou de vez. Antes do final do século XVII os cafés se contavam às centenas em Londres, Paris e Amsterdam. Aos poucos a Europa passou a consumir cada vez menos bebida alcoólica e nos elegantes cafés era possível encontrar a nata dos cientistas e filósofos da época discutindo suas teorias e descobertas. Foi inclusive num café em Londres em 1683 que o arquiteto Christopher Wren, o biólogo Robert Hooke e o astrônomo Edmond Halley fizeram uma famosa aposta que resultou na publicação do famoso Principia de Isaac Newton. Mas isso é uma outra história, da qual eu já escrevi aqui.
O resto da história já é conhecido. As mudas de café foram contrabandeadas para o Brasil, que se tornou o maior produtor do mundo. Os cafeicultores se tornaram poderosos, ajudaram a derrubar o Império e dominaram a cena política brasileira no começo do Século XX. Será que se Clemente VIII soubesse disso tudo teria aprovado o consumo do café ?





Divertido e interessante.
Ahhhh, legal, ilegal, aprovado por fulano, ou repreendido por beltrano, sem café eu não vivo, meeeeesmo.
O gozado, não sei se já sentiram, mas quando o café é muito forte, além de te deixar tremendo inteiro (por ser um estimulante), ainda deixa uma sensação de estar um pouco bêbado. A euforia aumenta consideravelmente, o que causa essa semelhança à uma bebida fraca. Fraca XD
Mas é um bom slogan para um pó de café: “Aprovado pelo Papa” XD
[...] pela Europa, principalmente nos países de clima mais frio. Não fosse a chegada do café – que precisou até de autorização do Papa para se estabelecer – e a revolução científica do Século das Luzes podia ter morrido afogada num copo de [...]