Nesses maravilhosos tempos de internet, blogs e e-books, pode parecer estranho, mas algumas pessoas ainda existem insistem em escrever textos que depois serão impressos e se transformarão em algo chamado “livro”.

Hoje em dia, com a impressão on-demand, qualquer um que escreva mais ou menos dentro da norma culta (ou que possa pagar bons revisores) e que tenha uns trocados no bolso pode publicar um livro sem muito esforço.

O que move essas pessoas ? A “materialidade” da coisa, o orgulho de ter o nome impresso numa capa de livro, a chance de ser “descoberto” por uma grande editora ou somente a realização de um sonho ? Não importam os motivos, mas a verdade é que é tão fácil publicar um livro hoje em dia que parece que qualquer um pode fazê-lo. Ledo engano.

Publicar é fácil. Escrever é que são elas. E, com a experiência acumulada de já ter começado pelo menos uma dúzia de “best-sellers” nas últimas duas décadas – e não ter terminado nenhum – eu apresento hoje no Depokafe algumas dicas de como NÃO escrever um livro. Afinal, bons blogs sobre literatura e que podem ajudá-lo a escrever um (bom?) livro são o Lendo.org ou o Alessandro Martins. Aqui é o Depokafé mesmo.

Primeiro: não faça um roteiro. Uma idéia na cabeça e um teclado na mão são suficientes para você começar um bom livro. Não vai ser suficiente para você acabá-lo, a menos que você esteja disposto a ser motivo de piadas. E isso nos leva a nossa segunda dica:

Faça um roteiro ruim. Pior do que não ter um roteiro não é, mas ter um roteiro ruim é um desastre. Quanto mais tempo você gasta com o roteiro, menos você vai sofrer depois. Mas a maior parte dos aspirantes a escritores pula esse “pequeno detalhe” e já sai logo escrevendo meia dúzia de capítulos, antes de se perder completamente e apagar tudo.

Não seguir o roteiro. Partindo do pressuposto que você tem um roteiro, seja ele bom ou ruim, não segui-lo é o melhor caminho para o fracasso. Inventar uma reviravolta no meio do livro e mandar o roteiro a merda às favas pode acontecer com um gênio da literatura, mas você é um amador. Então não invente, ou deixe isso para o final.

Ter mais personagens do que você consegue controlar. Eu chamo isso de síndrome-da-enganação. Você lota o seu livro de personagens, na ilusão que você vai confundir o leitor e ninguém vai sacar que o mordomo é quem matou o Coronel Mostarda com o candelabro na cozinha. Mas você não esta enganando ninguém e, o que é o pior, deixa um monte de personagens inúteis “soltos” na trama.

Outra coisa que acontece com frequência é o autor se empolgar e encher o livro de personagens e depois não saber o que fazer com eles. Aconteceu comigo na minha última tentativa de escrever um livro: eu tinha 144 (!!!) personagens que eram do mesmo grupo de “escolhidos” (sim, era um épico) da minha personagem principal. Resolvi matar a maior parte deles e deixar só o “núcleo” com a personagem principal e seus quatro amigos. Resultado: o livro virou uma carnificina e não andou mais.

Idealizar demais seus personagens: outro erro comum. Você idealiza demais um personagem. Pode ser a mocinha sofredora ou o herói invencível, você transforma o seu personagem em algo que só se encontra…nos livros. Aquela mocinha que deixa o amor da sua vida de lado porque está sendo chantageada pelo vilão ou aquele herói ilibado que ajuda desde velinhas a atravessarem a rua até descobrir a cura da AIDS não colam mais. As pessoas que gostam deste tipo de personagem assistem novela, não lêem livros.

Deixar seus personagens tomarem conta do livro: Pode parecer frescura de (pseudo-)escritor, mas tem ocasiões que você simplesmente não consegue fazer os seus personagens agirem como você quer. Eles criam personalidade própria. Aí o personagem fica artificial, idealizado, chato, ou tudo isso junto.  Desse ponto em diante não tem jeito, a não ser matar a sua personagem. Como você não vai conseguir, o melhor a fazer é desistir logo e partir para o próximo “best seller”.

Mostrar seus escritos aos amigos: Esse é o pior dos erros. Seus amigos, seus familiares e colegas de trabalho NÃO devem ler seu livro antes de pronto. Porque eles só vão elogiá-lo, o que fará com que seu ego se inflame e você se considere o novo Luis Fernando Verissimo. Elogios rasgados (e na maior parte falsos) não são o que você precisa enquanto está escrevendo um livro. Se possível, imprima seu projeto de livro e mande para seu pior inimigo. Se você não tem um pior inimigo arrume um com urgência, é essencial. A possibilidade dele nem ler o que você escreveu é grande, mas se o fizer as críticas dele vão fazer você escrever bem melhor na próxima tentativa.

E isso nos leva à última dica: Achar que vai ser fácil. Afinal, você é um grande leitor, tirava as melhores notas na escola, talvez até tenha feito ou esteja fazendo Letras ou algo do tipo. Você tem uma idéia genial, seus amigos elogiam seus textos. Vai ser moleza. Nada que algumas madrugadas escrevendo no PC, com o MSN ligado e o fone de ouvido tocando sua música favorita não resolvam, certo ? ERRADO. Vai dar trabalho. Você vai reeescrever o mesmo capítulo umas dez vezes. O revisor vai jogar por terra a doce ilusão de que você escrevia corretamente. Você vai desistir e depois começar tudo de novo, e de novo, e de novo…

Claro que esse não é um guia definitivo. Posso, e devo, ter esquecido muita coisa. Mas é um bom começo. É só não cometer os mesmos erros que eu apontei aqui. Afinal, o verdadeiro sábio é aquele que aprende com os erros dos outros, não é mesmo ?