Quando se pensa em diários de pessoas que viveram períodos de guerra, o primeiro nome que se vem a cabeça é da judia Anne Frank, que passou 25 meses escondida dos nazistas mas que acabou capturada e morreu num campo de concentração.
Mas o famoso “Diário de Anne Frank” não é o único de sua categoria. Há outros diários de pessoas que passaram por situações de guerra e deixaram registros históricos para a posteridade. Vamos ver três exemplos.
Em 1914 a Primeira Guerra Mundial começava e a alemã de 12 anos Piete Kuhr, por sugestão de sua mãe, resolveu iniciar um diário. Suas primeiras passagens são de empolgação com a guerra: os soldados marchando, as músicas sendo cantadas, o otimismo com uma guerra rápida.
“Queria tanto ir com eles ! Não quero ficar para trás e ser criança ! Tenho tanta pena dos soldados e dos cavalos” – Piete Kuhr, 06/08/1914
Mas a guerra não foi assim tão rápida. Os soldados começaram a voltar feridos da guerra. A fome começou a apertar em toda a parte. No final da guerra, já com 15 anos, Piete trabalhava como voluntária em um abrigo para crianças órfãs pela guerra. Em sua última anotação no diário, depois de acabada a guerra, Piete diz que esse seria o último diário de guerra que ela escreveria na vida. Infelizmente estava errada. Ela se casaria com um judeu austríaco e teria que fugir do país na Segunda Guerra Mundial. Piete mudou de nome para Jo Mihaly e se tornou dançarina e escritora. Faleceu em 1989.
A União Soviética foi o país que mais perdeu vidas humanas na Segunda Guerra Mundial. Nina Kosterina era uma moscovita de 15 anos quando começou seu diário em 1936. Seu pai era do Partido e ela freqüentava a Juventude Comunista. Ferrenha defensora dos ideais socialistas, antes da invasão do país pelos nazistas o diário de Nina é um diário normal de uma adolescente e seus conflitos típicos da idade – ela e a melhor amiga estavam apaixoandas pelo mesmo rapaz. Mesmo com os tios e depois o pai presos acusados de “traidores da pátria” Nina continua a ter fé no regime socialista e em seus dirigentes.
Quando os nazistas estavam a poucos quilômetros de Moscou, Nina se mostra muito deprimida com a destruição da cidade. Com seu pai preso, sua mãe e irmã evacuadas para longe e sem notícias do namorado que havia se alistado logo nos primeiros dias da invasão, ela toma uma decisão súbita: se alista no exército.
“O futuro é sombrio e ameaçador…mas eu irei de encontro a esse futuro, está decidido…” – Nina Kosterina, 01/09/1941
Nina fez da última entrada do seu diário um testamento, deixando seus pertences para a amiga Lena e para o namorado Gricha, que ela não sabia que já tinha morrido. Se alistou no exército em novembro de 1941. Um mês depois estava morta, ajudando a defender a cidade que tanto amava. Tinha somente 20 anos.
Na Polônia, Clara Schwarz foi quem teve a experiência mais parecida com a de Anne Frank. Judia como ela, Clara tinha 15 anos quando começou seu diário em 1942. A perseguição aos judeus estava entrando no seu auge naqueles dias. À semelhança de Anne Frank, Clara, sua família e alguns amigos se esconderam em um porão de uma família alemã que concordou em ajudá-los. Nesse ponto seu diário se parece muito com o de Anne, ao narrar as dificuldades de ficar escondida por um longo tempo em um lugar insalubre.
“As pessoas podem viver 100 anos sem jamais passar pelo que temos de suportar durante um único dia. A ficção mais sensacional não traz tantas aventuras quanto as que nos aconteceram no último ano.” – Clara Schwarz, 12/01/1944
Mas no caso de Clara as coisas ficaram piores ainda quando anfitrião que as escondia foi obrigado a acolher soldados nazistas em sua própria casa. A situação ficou crítica, mas o rápido avanço das tropas soviéticas obrigou os nazistas a recuarem. Ao contrário de Anne Frank, Clara sobreviveu a experiência de passar quase 3 anos escondida num porão. Ela vive desde 1957 nos Estados Unidos. Tem dois filhos e cinco netos.
Se você se interessou pelo assunto, meu caro leitor, minha nobre leitora, sugiro a leitura do livro Vozes Roubadas. Organizado por Zlata Filipovic – considerada a “Anne Frank de Saravejo”, ela escreveu um diário sobre a Guerra da Bósnia – e Melanie Challenger, o livro trás trechos de 14 diários de crianças e adolescentes desde a Primeira Guerra Mundial até a Guerra do Golfo. Leitura altamente recomendada.





Acho muito estranho toda a vez que assisto ou leio algo sobre as guerras. Talvez porque tenhamos nascido no Brasil, ou simplesmente porque eu nasci tantos anos após a Guerra, mas para mim é duro conseguir lembrar que tudo é verdade. Que coisas como essas aconteceram num mundo que é dito civilizado, e principalmente que foram realizadas por seres humanos que são “racionais”.
E pensar que isso ainda continua acontecendo e que cada vez mais elas se aproximam de nós!
Gostei da dica literária.