Já ensinam os nossos professores que a História costuma se repetir com uma frequencia assustadora. Pois bem, está acontecendo de novo, bem debaixo dos nossos narizes virtuais.

No começo do século passado o Rio de Janeiro, então capital federal, era uma cidade cheia de cortiços e com uma coleta de lixo insuficiente. Os casos de tuberculose, sarampo, tifo, hanseníase, febre amarela, varíola e peste bubônica estavam chegando a números alarmantes quando o presidente Rodrigues Alves, o prefeito Pereira Passos e o médico Oswaldo Cruz resolveram fazer alguma coisa.

Pereira Passos ordenou a demolição compulsória dos cortiços, o que levou a população pobre a buscar moradias nos então desabitados morros cariocas, o que pode ser considerado o começo da favelização da cidade.

Já o médico Oswaldo Cruz era um gênio. Estava atualizado com as mais novas técnicas terapeuticas da época – a vacina era uma delas – mas não tinha muito senso político, apesar de ter sido indicado depois prefeito de Petrópolis. Ele conseguiu aprovar uma lei para a vacinação obrigatória contra a varíola, mas não informou bem a população sobre como seria feita a vacinação.

Correram então boatos que a vacina teria que ser aplicada nas “partes íntimas” e que as mulheres teriam que ficar nuas em frente aos vacinadores. A população pobre, que já estava puta da vida com a demolição dos cortiços, acabou se revoltando. Durante seis dias, de 10 a 16 de novembro de 1904, lojas foram depredadas, bondes foram incendiados, confrontos com a polícia aconteceram. Ao final da balburdia, havia 50 mortos e 110 feridos. Os líderes da revolta acabaram presos e foram deportados para aquele estado brasileiro que tem a sua existência contestada. No fim a História daria razão a Oswaldo Cruz. Pacificada a revolta, a população foi vacinada e o número de mortos pela varíola caiu drasticamente.

Agora corta para o século XXI. Mais de 100 anos depois, o governo brasileiro começa uma campanha para vacinação em massa da população contra a rubéola. Mas está cometendo os mesmos erros do passado.

Ninguém explicou até agora porque um monte de dinheiro público está sendo usado para imunizar a população contra a rubéola se ela é uma doença inócua, se não há uma epidemia – são somente 17 casos em bebês de menos de um ano – e porque quem já foi vacinado ou já teve a doença também tem que tomar a vacina.

Essa desinformação toda está gerando uma nova revolta da vacina. Nada de bondes incendiados dessa vez. A revolta está acontecendo no ciberespaço.

Além de um e-mail estar circulando por aí, vários blogs já estão se posicionando contra a vacinação. Informações desencontradas já estão circulando. O pastor neo pentecostal Julio Severo está inclusive levantando a hipótese de que a vacina contra a rubéola estaria sendo aplicada para esterilizar a população. Ele se vale da conhecida antipatia de grupos cristãos – um dos raros casos em que católicos e neo pentecostais concordam – contra o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, considerado “inimigo da fé” por ser a favor da legalização do aborto.

E então a história se repete. Os motivos do governo são nobres – ou pelos menos parecem ser – mas ele não informa bem a população, que acha que essa campanha só está servindo para jogar o dinheiro dos nossos impostos pela janela. Some a isso a arrogância de alguns vacinadores, que querem praticamente te obrigar a tomar a vacina (eu me recusei veementemente e quase fui linchado) e os boatos absurdos como o do Julio Severo (que interesse o governo teria em diminuir a população do país ?) e a revolta virtual da vacina está instalada na blogosfera nacional. Que consequencias ela  terá ? Será que um dia ela irá constar dos ciber-livros de História do futuro ? Quem viver, verá.