O desconhecido São José

Hoje, 19 de março, a Igreja Católica relembra um dos seus santos mais populares: São José, o “pai terreno” de Jesus Cristo.

Na Bíblia São José aparece muito pouco. Ignora-se seu passado ou quando ele morreu, apesar de ser razoável supor que ele tenha morrido antes da paixão de Cristo, já que ele não aparece nela, ao contrário de Maria. Mas, nos apócrifos, a história de São José é muito mais rica e detalhada. Se ela é verdadeira ou não, nunca saberemos. Mas vale a pena falar dela.

Apócrifos, para os não-iniciados, são livros que não foram “aprovados” para entrar na Bíblia. Há dezenas, talvez centenas deles. Só de Evangelhos há umas duas dúzias, cada apóstolo “ganhou” o seu (inclusive São Tomé). Cartas ao estilo das epístolas de São Paulo também há várias, inclusive uma atribuída a São Clemente, que teria sido o terceiro sucessor de Pedro em Roma e cujo fato de seu escrito não ter entrado na Bíblia já derruba por si só a tese de “conspiração” na elaboração da Bíblia que a gente lê muito nos círculos esotéricos por aí. A história toda da formação do cânon (lista de livros aprovados) bíblico é cheia de idas e voltas, com livros sendo retirados aos “45 do segundo tempo” como o Apocalipse de Pedro (sim, existia outro Apocalipse), mas explicar tudo isso agora fugiria do tema do tópico. Então vamos voltar à vaca fria e falar de São José.

O apócrifo que mais nos fala do lado desconhecido de São José é “A História de José conforme narrada por Jesus a seus apóstolos”. É um texto surgido no Egito (provavelmente em Alexandria) no século IV, em que Jesus em pessoa conta a história de José para seus discípulos.

No curto texto, revela-se que José era viúvo. Teve seis filhos com sua primeira esposa. Há até os nomes deles: Judas, Josetos, Tiago (que seria discípulo depois), Simão, Lísia e Lídia. Enquanto José enviuvava, Maria servia como criada no Templo, pois assim haviam prometido seus pais, estéreis, antes dela nascer. Vendo que Maria já era uma “mocinha” os chefes do Templo resolveram dá-la em casamento a alguém da mesmo tribo que ela (como era costume na época) antes que “o pior acontecesse” (em outras palavras, antes que alguém transasse com ela).

Bem, José era da mesmo tribo (de Judá, conforme as profecias do Antigo Testamento) que Maria. No sorteio, ele acabou “ganhando” Maria. Antes do casamento se consumar, porém, o anjo apareceu para ela, que ficou grávida do Espírito Santo. Foi por isso que São José pensou em repudiá-la, pois temia se acusado de ter “consumado” a união antes do casamento formal.

Dá para perceber que quem escreveu o texto estava preocupado em esclarecer alguns pontos obscuros da história “oficial”, explicando-a nos mínimos detalhes. O resto da história é bem semelhante ao que está na Bíblia, com José fugindo para o Egito para escapar da perseguição de Herodes, e tudo mais. Mas o final é bem diferente.

Pelo apócrifo, José morreu com 111 anos (!) depois da volta dele e de Maria do Egito para Nazaré. A descrição da sua morte é muito detalhada, que chega a ser difícil acreditar que quem a escreveu não estava presente, ou que tenha uma imaginação muito fértil. Há a data da sua morte (26 de Epep) e algumas passagens estranhas, como quando ele já estava doente e “estava em seu leito, foi tomado de uma grande agitação. Gemeu forte, bateu palmas três vezes e, fora de si, pôs-se a gritar..” e aí segue-se uma oração. Estranho, não ?

Outra passagem estranha: a chegada da morte, narrada em primeira pessoa por Jesus: “Pus-me a olhar para o sul e vi a morte dirigir-se a nossa casa. Vinha seguida de Amenti,que é seu satélite, e do Diabo, a quem acompanhava uma multidão de esbirros vestidos de fogo, cujas bocas vomitavam fumaça e enxofre.”

Coisas extraordinárias continuavam acontecendo. Jesus reza sobre o corpo agonizante de José e então: “Quando eu disse amém, Maria, minha mãe, respondeu na língua falada pelos habitantes do céu. No mesmo instante Micael, Gabriel e anjos, em coro, vindos do céu, voaram sobre o corpo de meu pai José.”

A coisa continua mais estranha ainda. José agonizava, mas a Morte havia reconhecido Jesus e tinha medo de entrar na casa para “fazer o serviço”. Jesus então sai para conversar com a “véia da foice”:  “Ó tu, que vens do Meio-dia, entra rapidamente e cumpre o que ordenou-te meu Pai. Porém, guarda José como a menina dos teus olhos, posto que é meu pai segundo a carne..”

Finalmente então José morre, e sua alma é levada pelos arcanjos Gabriel e Micael (o que a Morte estava fazendo lá então ?) e o apócrifo termina com uma discussão entre Jesus e os apóstolos acerca do pecado original. É uma história bem fantasiosa, principalmente no fim, já que a história de Maria servindo no Templo antes do casamento com José aparece também em outros apócrifos. Fico imaginando a dor de cabeça do teólogos para encaixar algumas coisas expostas nesse apócrifo com o resto da Bíblia, caso ele tivesse entrado no Cânon. Bem, deve ser por isso mesmo que não entrou, não é mesmo ?

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Publicado em Religião
5 comentários em “O desconhecido São José
  1. Toogood disse:

    “São José pensou em repudiá-la, pois temia se acusado de ter “consumado” a união antes do casamento formal.”

    Ou seja, estava com medo que pensassem que ele comeu a sobremesa antes do almoço com a sogra.

  2. Rafael Cruz disse:

    Que ótimo blog você tem, meu camarada! Belo visual e excelente conteúdo. Já o linkei em meus blogs. Saudações pasárgadas!

  3. Adrina disse:

    Muito bom, Henderson!

  4. [...] por um apócrifo (livro não selecionado para entrar na Bíblia) você conhece? Não? Então clica aqui e veja esse texto que eu escrevi a alguns anos sobre o assunto no meu outro [...]

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