Padres inventores

Depois que o padre Zezinho começou a cantar em 1967, os padres brasileiros resolveram dar asas a sua veia musical. O espalhafatoso Marcelo Rossi anda meio sumido, mas fez muito sucesso, até no cinema. No lugar dele a Igreja Católica põe suas fichas hoje em dia no mais contido Fábio de Melo, que, além do mais, está antenado com os “novos tempos”: tem blog e até twitter.

Mas, antes deles, três padres brasileiros se destacaram, não como cantores, mas como inventores. Sim, padres inventores. E não estou falando do Adelir de Carli, que inventou um novo jeito de morrer, amarrado a balões. Vamos ver quem foram eles.

Bartolomeu de Gusmão, o verdadeiro padre voador

Nascido em Santos em 1685, Bartolomeu de Gusmão era inventor antes mesmo de ser padre. Em 1707 ele conseguiu uma patente de um “invento para fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar”. Foi a primeira patente concedida a um brasileiro na história.

Depois de ordenado padre, Bartolomeu de Gusmão foi para Portugal onde, em 1709, patenteou um “instrumento para se andar pelo ar”, que ficou conhecido como passarola. Era o primeiro balão. Em agosto daquele ano ele fez cinco demonstrações com modelos reduzidos da sua invenção. Duas pegaram fogo, mas as outras foram um sucesso. Entre as testemunhas das demonstrações aeronáuticas do intrépido padre esteve até o futuro papa Inocêncio XIII.

Mas a passarola de Bartolomeu de Gusmão não fez muito sucesso, não empolgando ninguém, e ele desistiu de construir um balão que pudesse carregar uma pessoa. O padre então viajou pela Europa, arrumou confusão com a Inquisição, teve que fugir para a Espanha, supostamente se converteu ao judaísmo e morreu aos 38 anos em Toledo, na Espanha. Parte dos restos mortais dele está hoje em São Paulo, na Catedral Metropolitana.

Francisco João de Azevedo e a máquina de escrever

O padre Francisco João de Azevedo também era um homem de múltiplos talentos. Nascido em João Pessoa em 1814, seus conterrâneos dizem que ele planejava inventar “um veículo terrestre movimentado inteiramente pela força do vento e que se destinava a servir de transporte entre Olinda e Recife” além de “um engenho para aproveitar o movimento das ondas do mar, aplicando-o na própria marcha do navio”.

Esses inventos não foram construídos, ou se foram se perderam. Mas Padre Francisco comprovadamente inventou uma máquina de escrever. Ela foi apresentada em 1861 numa feira tecnológica na Paraíba. Era um móvel pequeno, de jacarandá, parecendo um “piano pequenino, com um teclado contendo quatorze teclas” de acordo com a descrição do catálogo da feira. Tinha um pedal que servia para mudar a linha do papel e foi indicada para representar o Brasil na Exposição Mundial de Londres em 1862. Mas não chegou a embarcar, porque era muito grande e não havia espaço para ela no navio. Assim como o Padre Landell de Moura, que vamos ver abaixo, padre Francisco também sofreu com a falta de apoio do governo brasileiro para a sua invenção.

Pior do que isso, há suspeitas que o americano Christopher Sholes, através de um agente seu patrício que estava no Brasil naquela época, teve acesso aos desenhos do Padre Francisco e copiado descaradamente a máquina de escrever brasileira. Sholes fez um acordo de comercialização com a Remington, que transformou sua máquina de escrever na primeira a ter sucesso comercial, teria somente mudado a disposição das teclas, inventando o padrão QWERTY que usamos até hoje em nossos teclados.

Desiludido com a falta de apoio a sua invenção, padre Francisco se voltou para o ensino e foi professor de geometria e álgebra até a sua morte, em 1880. Se a sua máquina de escrever tivesse sido exposta em Londres sua história seria com certeza bem mais conhecida, e talvez o Brasil tivesse se tornado um grande produtor/exportador de máquinas de escrever.

Landell de Moura, o inventor do rádio

Como eu escrevi num post que dediquei exclusivamente ao padre Landell de Moura, é difícil dizer quem inventou o que primeiro. Mas não há duvidas que ele esteve na “linha de frente” das pesquisas que levaram à criação do rádio.

Entre 1893 e 1894, em Campinas, onde exercia o sacerdócio, padre Landell fez experiências com a transmissão de voz a distância, mas seus inventos foram destruídos pelos seus próprios paroquianos. Isso o colocaria em igualdade com Nikola Tesla e a frente de Marconi na corrida para inventar o rádio. Mas ele só voltou a testar em 1900 e só conseguiu uma patente americana em 1904. Aí já era tarde demais. Marconi já tinha feito sua bem sucedida experiência de transmissão entre a Inglaterra e o Canadá e tinha patentes de tudo desde 1896.

Endividado, Landell de Moura voltou ao Brasil e tentou vender seu invento para a Marinha brasileira, para usar na comunicação entre os barcos, mas os almirantes o consideraram “meio maluco” porque ele dizia que podia transmitir voz até para “outros planetas” e o Governo vetou a compra. Desiludido, ele voltou para a terra natal, o Rio Grande do Sul, onde se dedicou ao sacerdócio.

Landell de Moura também era um homem de várias invenções. Entre seus escritos, de acordo com um livro sobre ele, foram encontrados rascunhos do que seria um tubo de raios catódicos. Sim, se tivesse tido apoio, o padre gaúcho poderia ter inventado a televisão ! Ele também teria descoberto a bioeletrografia (mais conhecida como fotografia kirlian) e consta que tinha uma “estranha caixa de metal” com o qual conversava com ninguém menos que Marconi.

Mas o potencial de Landell também não se realizou e ele morreu esquecido em 1928 em Porto Alegre. No centenário da concessão da sua patente sua invenção foi reconstruída com sucesso provando que ele estava no caminho certo. Pena que não teve apoio. Depois reclamam que o Brasil nunca ganha um prêmio Nobel e ninguém saber porque…

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Publicado em História
2 comentários em “Padres inventores
  1. CARLOS AUGUSTO SANTOS disse:

    Landell de Moura – Centenário da concessão de patente de qual invenção?

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