Unidos venceremos, divididos…

No nosso mundo moderno, ou se você preferir, na nossa sociedade atual, a Igreja Católica Apostólica Romana é vista pela maioria como uma entidade atrasada, retrograda e anacrônica. Isso se deve em grande parte a posição conservadora da Santa Sé em temas como o sacerdócio feminino, os métodos contraceptivos e o homossexualismo, entre outros.

Bem, mas tem grupos na Igreja Católica que acham justamente o contrário, que a Santa Sé anda liberal demais ! Esses tradicionalistas, representados no Brasil principalmente pela Opus Dei e pela TFP, mas não só por eles, andaram “saindo do armário” nos últimos tempos por conta da polêmica em torno da campanha presidencial de Dilma Roussef. Para mim, o fato desses tradicionalistas estarem colocando as manguinhas de fora tem muito a ver com a subida de Bento XVI ao Trono de Pedro. E isso pode significar um novo cisma na igreja romana. Acompanhem meu raciocínio. Não vai doer, prometo.

A Igreja Católica começou a se modernizar com a realização do Concílio Vaticano II, que aconteceu entre 1962 e 1965. Foi uma modernização ao modo dos católicos, lenta e gradual. Entre outras coisas, foram abolidos o Index Librorum Prohibitorum e a Inquisição, foi mudada a missa tridentina (que vigorava desde 1570!) publicado um novo catecismo e adotadas posições mais conciliatórias entre a Igreja e outras confissões cristãs e até não cristãs, o que deu animo aos movimentos ecumênicos. Surfando na onda dessas reformas, movimentos mais “liberais” como a Renovação Carismática Católica (RCC) surgiram e hoje são muito populares em alguns países, o Brasil incluído, para desespero dos tradicionalistas, que tiveram que “ir para o armário” por um tempo e atuar mais nos bastidores.

Mas a Santa Sé sempre foi muito cautelosa, tentando agradar os dois grupos sempre que possível. Essa dualidade foi marcante principalmente no papado de João Paulo II . Enquanto ele mandava o Leonardo Boff calar a boca (literalmente) e arrasava os liberais da Teologia da Libertação, ao mesmo tempo apoiava a RCC. Quando  canonizou o fundador da Opus Dei, agradou os cardeais da prelazia (que trabalham muito bem nos bastidores) mas também deu um duro golpe ao expulsar quatro bispos tradicionalistas. Ou seja, uma no cravo, outra na ferradura. Mas Bento XVI está claramente indo para o lado dos tradicionalistas. Senão, vejamos:

Bento XVI autorizou a volta da missa tridentina. A missa tridentina é rezada em latim, com o padre de costas para o público (e de frente para Deus, dizem seus defensores). A hóstia na eucaristia é dada diretamente na boca do fiel, pois para os tradicionalistas a hóstia na mão é um pecado mais grave do que bater na mãe por causa de mistura, além de outras diferenças com relação à missa “moderna”. Claro que isso não vale para toda a igreja. É necessário que seja feito um pedido ao bispo responsável. Mas isso foi motivo de regozijo para os tradicionalistas, é claro.

O atual ocupante do Trono de Pedro também suspendeu a excomunhão feita por João Paulo II dos quatro integrantes da Fraternidade São Pio X, inclusive um que havia duvidado do holocausto judeu em uma entrevista. Lembrando que no rito da antiga missa tridentina havia uma trecho em que se recomendava orar pelos “pérfidos judeus” mas essa expressão foi abolida em 1959, antes do Concílio Vaticano II, e ainda está valendo.

E, por último, Bento XVI vai nomear novos cardeais no final desse mês. A maioria são cardeais eleitores, ou seja, tem idade para votar e serem votados para Papa. Entre os escolhidos está o Arcebispo de Aparecida que esteve envolvido no imbróglio da distribuição dos panfletos anti-Dilma durante a campanha. Os tradicionalistas comemoraram a maioria das indicações. E até algumas das ausências também.

Esses são só três exemplos de como Bento XVI está se movendo, lentamente como convém à Igreja Católica, para mais perto dos tradicionalistas do que a Santa Sé esteve nos últimos 40 anos. Claro que uma reação dos “liberais” é esperada. Não é a toa que a estrela da RCC em terras tupiniquins, o padre Marcelo Rossi, renovou o seu repertório, tornando-o mais “clássico” mas mesmo assim anda meio sumido, tendo ficado de fora da visita que Bento XVI fez ao Brasil. Assim como os tradicionalistas nos anos pós-concílio, agora é hora dos liberais se esconderem. Ou…chutarem o balde.

Tradicionalistas jamais deixariam a Igreja Católica, nem se um liberal assumisse o papado, o que é cada vez mais improvável em se tratando do perfil dos novos cardeais que Bento XVI vai colocando aos poucos na igreja. Mas os liberais estão perigosamente próximos das práticas pentecostais. E pentecostais são cismáticos por natureza. Então, some dois mais dois, meu caro leitor, minha prezada leitora.

Enquanto isso, eu só consigo lembrar daquele ditado: unidos venceremos, divididos cairemos.

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2 comentários sobre “Unidos venceremos, divididos…

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