Lido: Aqueles cães malditos de Arquelau

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Esse livro ganhou o prêmio Jabuti. Você deve pensar: nossa, então é um best-seller ! Não é. Eu não conheço ninguém mais que o tenha lido, e mesmo no Skoob, um ninho de bibliófilos, ele tem escassos 43 leitores.

O que é uma pena. O livro é muito bom. Ambientado na Itália nos anos 60, é narrado em primeira pessoa por Emílio, um psiquiatra que juntamente com a sua turma de amigos, que incluem psicólogos, historiadores da arte e estudantes de literatura antiga, tem uma paixão “neurótico-deliquencial” por qualquer coisa que tenha informação escrita e organizam expedições de fim de semana atrás de textos antigos e boa comida.

E é numa dessas expedições que eles encontram a casa de um misterioso “bispo vermelho” que viveu na Idade Média e sobre quem nada se sabe. Num golpe de sorte, eles descobrem alguns escritos dele, e aí a busca pela sua identidade torna-se o tema principal do livro.

A chave para achar a identidade do “bispo vermelho” é um escrito dele que versa sobre Eurípides, o famoso dramaturgo grego. A partir da tradução que Emílio faz da obra é que a busca pelo misterioso personagem se desenrola, com a participação dos amigos dele. Se você não sabe nada sobre Eurípides, não se desespere. Depois de ler esse livro você saberá tudo sobre ele.

Entre uma pesquisa e outra, os personagens comem. E comem um bocado. E o autor aproveita as discussões filosóficas a mesa para explicar alguns conceitos interessantes, como quando faz uma relação interessante entre a elaboração de uma nova forma de preparar um faisão e a epistemologia. Conselho: não leia esse livro com fome. Ela vai aumentar.

Mas o melhor mesmo está reservado para o final. Eu não tenho outra palavra para descrever esse final que não seja estupendo. É um final de certa forma surpreendente, mas coerente com o resto do livro e escrito com rara sensibilidade. Vale a pena ler o livro só pelo seu final, tenho certeza.

Só mais uma observação sobre esse livro: é por causa dele que esse blog se chama Depokafé. Para ser mais específico, por causa desse trecho:

Lorenzo só apareceu no Galilei dois dias depois, na hora do café. Deu um beijo sonoro na face de Luciana, porque naquela manhã “estava parecida com a Sibila Délfica”, pendurou-se no ombro de Abelardo e resumiu sua expedição a Asti: “Meus caros, fui, vi e venci !”

“Sabemos, por enquanto, que você foi” disse Beatrice.

“Mulher de pouca fé ! Vi coisas espetaculares !”

É um trecho besta, eu sei, mas não sei porque eu gostei dele e passei a usar a expressão “de pouca fé” para tudo. Quando fui criar o blog, não tinha outro nome que eu pudesse escolher… Alegre

Veredito: Um excelente livro, com uma trama intelectual e um final primoroso. Nota dez, e ainda é pouco.

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6 comentários em “Lido: Aqueles cães malditos de Arquelau
  1. naomi disse:

    foi pra minha lista de “quero ler”. vou procurar na próxima incursão à biblioteca. ;)

  2. [...] muito importante para mim. É por causa dele que esse blog se chama Depokafé, como expliquei num breve comentário que publiquei aqui mesmo no blog. Basicamente é a história de Emilio e seus amigos que tem “uma paixão [...]

  3. [...] livros que eu gosto são narrados em terceira pessoa, com a exceção, que só confirma a regra, do segundo melhor livro que eu já li. Uma outra exceção honrosa é Os rostos de Lenora, de Daltro Conrad, onde na verdade são três [...]

  4. [...] de “Aqueles cães malditos de Arquelau” que deu nome a esse blog, mas aí eu lembrei que já fiz isso quando comentei o livro ano passado. Pensei, e pensei, e pensei, porque tinha que ser um trecho que fosse “entendível” por [...]

  5. […] literário eu gostaria de ser e eu respondi Emilio Donatelli, o narrador e personagem principal de Aqueles cães malditos de Arquelau de Isaias […]

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