No meu post dessa semana na série “Cidades do Mundo” eu falei brevemente sobre a Igreja Ortodoxa Etíope e igrejas não calcedonianas. Esse é um assunto meio complexo, então vou tentar explicar nesse post o que afinal são igrejas não calcedonianas. Tentarei ser o mais simples possível. Me desejem sorte.
Os primeiros tempos do cristianismo foram bem mais agitados do que se supõe. Com o cristianismo crescendo e se tornando a religião oficial de Roma, as divergências de opinião entre os mais diversos grupos foram se sucedendo. Foi uma época importante, em que a base das crenças dos bilhões de cristãos de hoje foram lançadas.
Para tentar resolver essas divergências, foram convocados vários concílios, reuniões de bispos de todo o mundo para discutir e determinar o que, exatamente, os cristãos deviam acreditar ou não. Mas nem sempre o resultado do concílio agradava todo mundo. Por exemplo: depois do Concílio de Éfeso, em 431, Maria foi considerada “Mãe de Deus” e não somente “Mãe de Cristo”. Alguns cristãos de Antioquia, um centro religioso importante na época, não aceitaram essa decisão, foram perseguidos e tiveram que se mudar para a Assíria, hoje parte do Irã e Iraque. Eles formaram o que hoje é a Igreja Assíria do Oriente, uma igreja separada de todas as outras denominações cristãs e que tem cerca de 1 milhão de fiéis.
Logo após o Concílio de Éfeso, a próxima grande divergência a ser resolvida era sobre a natureza de Cristo. Havia os que defendiam que Jesus somente “parecia ser humano”. Outros ainda diziam que Jesus era só um homem que havia sido possuído pelo “Espírito de Deus”. Outros mais defendiam que Jesus era humano e divino ao mesmo tempo, e houve até quem defendesse que Jesus tinha um corpo humano e uma mente divina.
Essa controvérsia estava pondo em risco a unidade dos cristãos. Muito papiro e tinta foi gasto com cada lado defendendo a sua posição, até que a situação ficou tensa demais. Em 449 um segundo concílio em Éfeso tentou resolver a questão, mas a reunião não acabou bem. Os enviados do Papa Leão I não foram ouvidos e o bispo de Constantinopla, Flaviano, foi morto por seus adversários após a reunião. O impasse ficou pior quando o Papa Leão I não reconheceu as decisões do concílio, chamando-o de “Sínodo dos Ladrões”. Para resolver de vez essa querela, o imperador bizantino Marciano convocou um novo concílio em Calcedônia, uma cidade da Ásia Menor.
Realizado em pouco menos de um mês – de oito de outubro a primeiro de novembro – de 451, o concílio contou com 350 bispos. Dessa vez os enviados papais puderam ser ouvidos e a reunião transcorreu normalmente. No final, ficou decidido que “em Cristo há duas naturezas, cada uma mantendo as suas próprias propriedades, e unidas numa substância e, em uma única pessoa“.
Essa decisão não agradou muita gente. Eles defendiam que na “pessoa una de Jesus Cristo, Divindade e Humanidade estão unidas em uma única ou singular natureza, as duas estão unidas sem separação, sem confusão e sem alteração”.
Pode parecer uma divergência sem importância, mas não foi. As tentativas de reconciliar os dois lados não deram em nada. Assim, se separaram do resto do cristianismo a Igreja Ortodoxa Copta do Egito, que também era responsável por Eritréia e Etiópia, que se separaram dela recentemente, além da Igreja Apostólica Armênia (a mais antiga igreja cristã nacional do mundo, fundada em 301), a Igreja Ortodoxa Síria e a Igreja Ortodoxa Indiana. Essas Igrejas são autocéfalas, ou seja, cada uma tem seu próprio líder, mas mantém relações de amizade entre si.
Atualmente há 79 milhões de fiéis não calcedonianos no mundo. O relacionamento com outras igrejas cristãs tem melhorado muito. Os dois últimos patriarcas coptas – que também usam o título de Papa, mais especificamente Papa de Alexandria e Patriarca da Predicação de São Marcos e de toda a África – visitaram os Papas em Roma. O patriarca da Igreja Ortodoxa Etíope fez o mesmo e até convidou Bento XVI para conhecer a Arca da Aliança. Como eu disse na quarta, bem que ele podia aceitar. Seria histórico.