De volta à ilha – parte 3

Era a terceira aspirina do dia, e nem tinha chegado a hora do almoço. Onesíforo estava pagando o preço pela noite passada em claro lendo o conteúdo da caixa que seu avô lhe dera.

A história estava fragmentada em muitos pedaços, mas depois de um tempo ele havia conseguido chegar a uma cronologia que considerara adequada. Era uma história fantástica, mas seria verdadeira ? Onesíforo precisava conversar com seu avô o mais rápido possível, mas tinha obrigações a cumprir na mercearia. O movimento estava bom, era a alta temporada do turismo.

Seria possível que tudo o que estava lá fosse verdade, pensava consigo mesmo Onesíforo ? A história começava nos tempos que a vila tinha sido fundada, ainda na época do tataravô do seu tataravô. O curandeiro da vila engravidara uma moça menor de idade e tinha sido expulso.  Antes de se fixar na ilha, ele jurara vingança. A garota morreria no parto, e na semana seguinte uma estranha praga grassara na vilas. Muitos morreram, começando pelas mulheres e crianças. Desesperados, os habitantes enviaram uma barca até a ilha com presentes e uma oferenda humana, que não ficou bem claro o que era. A peste terminou, mas a ofensa ainda não tinha sido esquecida. Ela voltaria em quatro gerações, declarou o curandeiro. E foi assim que a vila ganhou o nome de Vila das Lágrimas.

E ela voltou mesmo, na época do tataravô de Onesíforo. Uma tempestade isolara a vila, mas um grupo valente de cidadãos atravessara a floresta e conseguira ajuda na cidade. Infelizmente a maior parte da população da comunidade morreu de peste. Uma nova oferenda foi enviada para a ilha, mas o texto era muito vago sobre o que teria sido essa oferenda. Foi nessa época  que a vila mudou de nome para Vila Nova Esperança e prosperou nos anos seguintes.

Agora ia acontecer de novo, assegurara o seu avô. A morte da equipe de filmagem que tinha ido a ilha teria sido só o início. Quanto mais Onesíforo pensava nisso, mais incomodado ficava. Precisava fazer alguma coisa. A primeira seria conversar de novo com o seu avô.

Almoçou uma moqueca de peixe que em outros dias teria sido excelente, e decidiu que não podia esperar. Pediu para um empregado ir até sua casa e chamar sua filha Priscila para ficar no caixa enquanto ele ia até a casa do avô. O garoto voltou dizendo que ela não estava em casa. Ele se enfureceu. De certa estava na casa daquele Aquila, o namoradinho dela. Deixou a mercearia só com o empregado e foi procura-la. Não, ela não tinha até lá. E nem na casa das melhores amigas.

Desesperado, Onesíforo voltou para casa. Podia ser que Priscila já tivesse retornado. Mas a única coisa que Onesíforo encontrou foi um bilhete. Priscila tinha ido a ilha. E pedia que ninguém a seguisse, que ela resolveria tudo. Ele olhou para a ilha, e no mesmo momento começou a chover. Uma chuva forte, de pingos grossos, muito vento. E então ele soube que nunca mais veria a filha.

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