O sonho

Era a quinta manhã seguida que Nathalia acordava depois de ter o mesmo sonho. Era um sonho esquisito. Ela estava de pé no topo de uma pequena colina. A pouca distância havia uma grande construção quadrada. Era um castelo, e dos grandes. Nathalia ficava ali, parada, cheia de medo, observando o castelo. Sentia vontade de ir até lá, mas o medo a paralisava. E então o sonho acabava e ela acordava suada e apreensiva.

“Isso tem que acabar. Ou eu entro nesse castelo no sonho ou vou procurar um médico” pensou Nathalia, antes de se levantar e ir tomar banho para ir para escola.


A lua cheia brilhava em um céu estrelado. Rajadas de vento cortavam a noite, amenizando o calor sufocante. Tudo estava quieto. Nada se mexia.

Nathalia se encheu de coragem e desceu a colina quase correndo. De repente se viu defronte ao castelo. Havia luzes lá dentro. Uma pequena ponte conduzia até à entrada. Resoluta, ela venceu o medo e caminhou até lá.

Ela respira fundo. “Hoje não. Hoje eu não vou desistir. Eu vou entrar”.pensou. E seguiu caminhando. Atravessou a ponte. Nunca tinha chegado tão longe. Mais alguns passos e ela estaria dentro do castelo. Parou para descansar. Suas pernas pesavam como chumbo, apesar dela ter andado somente alguns metros. Tomou coragem, e apreensiva, entrou no castelo.

Assim que ela atravessou o umbral, todo o medo que ela estava sentindo desapareceu, como se tivesse sido arrancado num passe de mágica. Em lugar do medo, uma grande paz a invadiu. Seguiu caminhando, como se já tivesse estado ali antes. Ela sabia aonde ir. Só não sabia como, nem porque. Mas seguiu caminhando. Chegou até a um amplo pátio de pedra. E o que viu lá a fez perder a respiração.

Dezenas, talvez centenas, de pessoas estavam lá. Vestidas todas de branco. E só então ela percebeu que também estava vestida assim. Estavam todos sentados em cadeiras de espaldar alto. Enquanto andava entre as pessoas sentadas, notou que havia alguns lugares vagos. Subitamente, parou. Olhou para o lado. Havia uma cadeira com o seu nome escrito. Ela sentou-se.

Aquele silêncio a estava incomodando. Ninguém falava nada, apesar dos olhares curiosos que eram dirigidos a cada pessoa que chegava e tomava o seu lugar. Ela olhou para o lado. Uma garota ruiva, olhos castanhos e sardas se sentava à sua direita. Deviam ter a mesma idade. A garota retribuiu seu olhar, e Nathalia percebeu que a ela também não estava entendendo nada. Do lado esquerdo estava sentado um jovem alto, negro e de cabelos curtos. Ele olhava fixamente para frente, e parecia tenso. Então ela também olhou para frente.

Havia um grande palco, ou tablado, e nada mais. Uma mesa ocupava o centro, com algumas cadeiras atrás. Não havia ninguém lá. Apesar disso, todos continuavam no mais absoluto silêncio.

Aos poucos, o número de cadeiras vagas foi diminuindo. Pessoas de várias etnias estavam chegando. Negros, asiáticos, índios. Nathalia achou que todos pareciam ser jovens como ela. Sentiu vontade de falar, de conversar com a garota ruiva do lado, mas o silêncio era tão profundo que ela sentia que ele não devia ser quebrado.

O tempo passou, mas Nathalia não soube precisar se foi muito ou pouco. Ainda havia algumas cadeiras vagas, mas já fazia algum tempo que não chegava mais ninguém. O silêncio continuava. E então ele foi quebrado. Era uma voz possante, porém calma. Ecoou pelas paredes do pátio, como se mil alto-falantes a estivessem reproduzindo.

“Caros escolhidos. Estamos muito felizes que estejam aqui. Infelizmente, alguns ainda não entenderam o chamado. E nós só poderemos começar nossa missão quando todos estiverem presentes. Rezem, meus filhos e filhas, para que todos os escolhidos atendam ao chamado. E não tenham medo. O Altíssimo está com vocês, não temam, não desanimem. Ele os fortalecerá e os sustentará com a mão direita de sua justeza. Vão em paz, e que o Senhor Deus os acompanhem”.

Então Nathalia acordou, e não sentia mais medo.


O sonho continuava, sempre igual, todas as noites. E sempre acabava do mesmo jeito. Ainda havia cadeiras vazias. Alguns escolhidos ainda não tinham entendido o chamado.

Nathalia havia se habituado aos sonhos. Distraía-se observando as pessoas que chegavam. Tinha contado, como pode, as cadeiras que existiam naquele pátio. Se ela não tinha errado nas contas, havia 144 cadeiras, em 24 fileiras de seis cadeiras. Pessoas das mais variadas origens ocupavam essas cadeiras. Do lado da ruivinha sentava-se uma loira, alta, magra e altiva, com lindos olhos claros, que parecia sempre estar assustada. Seguindo a sua fileira, ao lado do negro que ela tinha visto da primeira vez, um outro negro, de longos cabelos no estilo rastafari, que olhava para todos os lados sem parar, como se estivesse louco para sair correndo daquele lugar, e um jovem de traços indígenas, miúdo e magro, que sempre parecia estar se divertindo com alguma piada que só ele tinha entendido.

Estava sendo legal até agora, pensou Nathalia. Era melhor do que sonhar com o crush, pelo menos. Ela só gostaria que a missão fosse revelada logo. Então, depois da sua oração habitual, adormeceu.


Já estavam no castelo a a algum tempo. Nathalia distraia-se olhando as pessoas que chegavam. A cadeira em frente a sua nunca tinha sido ocupada, e ela imaginava quem poderia ser a pessoa a quem ela estava destinada. Um rapaz alto passou pela sua fileira. Nathalia olhou para ele, e não o reconheceu. Deveria ser a primeira vez dele, pois ele parecia assustado e confuso. Ela lhe deu um sorriso de encorajamento, e ele foi se sentar bem a sua frente, na cadeira que estava sempre vazia.

“Que bom, um a menos que está faltando” – pensou ela. De repente, ela teve a sensação de que o pátio estava mais cheio do que costume. Parecia que havia mais pessoas dessa vez. Ou seria só impressão? Ela tentou contar as cadeiras que faltavam. Na fileira ao lado sempre tinha um lugar vago. Que hoje estava ocupado. A mesma coisa na fileira de trás, onde uma jovem de traços orientais se sentava, com um olhar curioso, num lugar que antes ficava vazio. Seria hoje o grande dia?

Nathalia olhou para os rostos agora familiares dos jovens da sua fileira e viu que todos tinham percebido o que estava acontecendo. A ruiva ao seu lado chegou a segurar a sua mão. Ela tremia.

Aos poucos a inquietação foi se espalhando entre todos. Era como se uma corrente elétrica estivesse percorrendo o local. Todos pareciam excitados. Alguns chegaram a se levantar dos seus lugares para poder ver melhor. E então, pela primeira vez, eles quebraram o silêncio do lugar. O burburinho, discreto no início, começou a aumentar. Já não havia mais dúvidas. Pela primeira vez, todos os escolhidos estavam presentes. Mas algo estranho estava acontecendo. Ao invés da babel de línguas que era de se esperar, todos pareciam estar se entendendo perfeitamente, como se falassem a mesma língua.

De repente, uma estranha luz iluminou a penumbra do pátio. Nathalia conseguiu enxergar algumas portas que não tinha visto antes. Estavam atrás do palco, ou tablado, e de repente se abriram, todas ao mesmo tempo. Homens e mulheres, todos vestidos de branco, entraram foram se postar nas cadeiras que ficavam atrás da mesa que ela tinha visto no primeiro dia.

Não foi preciso dar a ordem, todos imediatamente se levantaram, e o burburinho cessou. A expectativa estava no ar, tão palpável que quase dava para vê-la.

No centro da mesa, um velho alto e de longo bigode levantou-se e começou a falar. Ele não usava microfone, nem tampouco existia qualquer sistema de som no pátio, mas sua voz soou limpa e clara, e todos perceberam que era dele a voz que encerrava o sonho, todas as noites.

“Sejam todos bem-vindos! Quis o Senhor Altíssimo que hoje fosse o dia escolhido para a reunião daqueles que Ele escolheu. Vamos bendizer a Deus e celebra-Lo por tudo o que ele fez por nós! Bom é bendizer e cantar o seu Nome. “Deus tenha piedade de nós e nos abençoe! Faça brilhar a sua face entre nós, para que sobre a Terra se conheça o teu caminho, e a tua salvação entre todos os povos. Que os povos te rendam graças, todos juntos! Amém !”

O “amém” em resposta foi tão forte e uníssono que os pelos dos braços de Nathalia se arrepiaram instantaneamente. Ela também começou a tremer.

Após essa oração, o homem ficou em silêncio por alguns instantes. Em seguida, sorriu.

“Eu sei que alguns de vocês devem ter me reconhecido, mas para os que não conseguiram, eu sou Melquisedec, rei de Salém. E estes – disse, fazendo um gesto que abrangia o resto dos presentes na mesa – serão seus mestres, que os guiarão na difícil missão que vocês tem pela frente”.

Então sua expressão mudou. O sorriso desapareceu. Seu tom de voz mudou.

“Estamos vivendo um tempo final. A humanidade tem cometido muitos crimes, e se afastado do reto caminho do Senhor. Está chegando a hora da colheita, e os ceifeiros já estão a caminho”.

“Mas o Senhor tem uma misericórdia e bondade infinitas. Ele resolveu dar a humanidade uma nova chance de se redimir e aplacar a sua ira. Foi para isso que vocês foram escolhidos. Vocês são a última esperança da humanidade para evitar o Apocalipse, e que as hordas do Inferno prevaleçam por sobre a criação de Deus”.

Um “Oh” de surpresa encheu o pátio. O burburinho recomeçou, e Nathalia sentiu que suas pernas tinham virado gelatina. Melquisedec fez um gesto impaciente e todos se calaram.

“Não tenham medo. Sintam-se honrados por terem sido escolhidos. Grande é a missão de vocês, mas o Altíssimo não os teria escolhido se não tivesse certeza de que vocês podem cumpri-la. Não temam, pois a mão do Senhor está sobre vocês”.

“A partir de amanhã vocês serão divididos por grupos, cada qual com um mestre, que darão melhores detalhes de como vocês vão cumprir a sua missão. Perseverem na oração, e confiem em Deus, pois somente com Sua força vocês conseguirão terminar a missão que lhes foi confiada”.

“Se estiverem ao lado de Deus, vocês triunfarão, e seus nomes serão contados entre os amigos de Deus. Se falharem, as portas do Inferno prevalecerão”.

“Vão em paz, meus filhos e filhas. Que o Senhor os acompanhem e guiem os seus passos”.

O sonho acabou, e Nathalia acordou. A missão havia sido revelada. Ela tinha que ajudar a impedir o Apocalipse. “Que droga, eu só queria ir para a faculdade de psicologia” pensou ela, e levantou emburrada para tomar banho.

O enterro

Astolfo respirou fundo. Ele não precisava, porque estava morto a 95 anos, mas há momentos em que até um fantasma quase centenário necessita fazer isso.

Esse era um desses momentos. Pelo rodizio, era a vez de Astolfo receber o mais novo recém-chegado ao campo santo. Quase sempre era um momento difícil. A maior parte dos novos defuntos tinha dificuldades em perceber o óbvio: que eles estavam mortos e que aquela seria a sua nova “vida eterna”.

Já dava para enxergar ao longe o féretro chegando. Vinham pelo portão leste. Quando Astolfo era vivo, aquele era um fundo de vale onde corria um simpático riacho. Mas hoje em dia havia confinado o curso d’água num leito de cimento e construído uma avenida por cima. Idiotas, pensou Astolfo. No riacho pelo menos dava para nadar.

O cortejo era pequeno, tinha umas vinte pessoas, no máximo. Pareciam estar com pressa. Astolfo procurou o novo defunto entre elas. Geralmente os novos fantasmas acompanhavam seus próprios enterros. Faziam o maior escândalo, tentavam falar com os vivos, choravam. Era patético. Mas Astolfo não localizou nenhum fantasma.

Chamou sem demora Perebas, o gato, e o mandou procurar na capela mortuária em frente ao cemitério. Talvez o novo fantasma tivesse ficado para trás. Isso era um problema. Se ele não estivesse no cemitério até o momento do sepultamento, viraria uma alma penada, que nunca teria paz até ser exorcizada e desaparecer para sempre.

Fantasmas não podem andar livremente entre os vivos e ficavam confinados ao cemitério. A exceção era o primeiro de novembro. Astolfo sempre usava esse dia para assombrar o seu trineto, Astolfo IV, que vivia como um nababo na mansão que ele construíra com muito esforço. Sempre dava certo. Na semana seguinte o túmulo de Astolfo estava pintado e com uma enorme coroa de flores.

Os coveiros estavam trabalhando rápido. Nem havia acontecido a tradicional despedida aos pés do tumulo, o que Astolfo achou muito estranho. Antes que o gato pudesse voltar o corpo já tinha sido enterrado e o pequeno grupo tinha se disperso. Nem sinal do novo fantasma.

Bem, não é mais problema meu, pensou Astolfo, e nesse momento o fantasma de Emengarda se materializou ao lado dele. Astolfo não gostava dela em vida, e passara a detestá-la após a morte. Tinha certeza que ela havia morrido uma semana depois dele só para poder infernizar a sua pós-vida o mais rapidamente possível. Respirou fundo de novo.

– Onde está o novato ? – quis saber ela.

– Não veio com o corpo – resmungou Astolfo.

– Já verificou na capela ?

– Claro que sim, irmãzinha – e a última palavra foi dita com o maior desprezo que um fantasma quase centenário pode ter.

– E se ele tiver sido enterrado vivo ?

– Isso não acontece mais hoje em dia – respondeu Astolfo, enquanto pensava se devia infernizar a vida do seu trineto para ele mudar seu tumulo de cemitério.

– Vou verificar – e antes que Astolfo pudesse dizer algo ela despareceu na terra.

Invadir o tumulo de outra pessoa era considerada a maior grosseria que um fantasma pode fazer. Só mesmo Emengarda para fazer isso, pensou Astolfo enquanto imaginava como faria para descobrir qual é o melhor cemitério da cidade.

– Astolfo, tem uma coisa esquisita lá. Desce para ver – Emengarda já tinha voltado.

– Eu não vou fazer isso – respondeu Astolfo, resolutamente.

– Astolfo de Melo Proença ! Desce lá agora ou…

– Ou o que ?

-Eu chamo a nossa mãe !

-Você não ouse perturbar o descanso da nossa mãe. Ela não sai do tumulo desde…você sabe.

Emengarda sabia. O enterro de um sobrinho-bisneto de somente três anos havia confinado a mãe deles ao tumulo pelos últimos cinquenta anos. Se arrependeu da ameaça na hora.

-Se quiser saber porque o novato não apareceu desce lá – disse Emengarda, e desapareceu.

Astolfo respirou profundamente. Ele estava respirando profundamente vezes demais para um fantasma que não precisava respirar profundamente.

Olhou para os lados para ver se ninguém estava olhando. Desceu.

O caixão estava cheio de pedras.

-Malditos fraudadores de seguro !

A espiã

Assim que entrou no apartamento ela jogou a bengala e o óculos escuro num canto e desabou no sofá. Estava exausta. Aquele disfarce de pianista cega tinha sido um erro. A Central gostava desses planos elaborados. Teria sido mais fácil se disfarçar como uma simples garçonete.

Talvez o erro tivesse sido entrar para a Central, pensou ela, mas depois afastou esse pensamento. Era divertido na maior parte do tempo. Como aquela vez no Marrocos, onde passara seis meses como agente de viagens ou no Brasil, como vendedora de biscoito na praia.

Ah, o Brasil. As praias, o calor, o sacolé de uva. Um dia ainda passaria férias lá.

Como se eu tivesse férias, pensou ela, enquanto tirava os sapatos. Não havia férias na Central. E nem plano de aposentadoria. Pelo menos o salário era bom. E a minha família está viva e bem. Suspirou.

Soltou os longos e belos cabelos loiros. Estavam fedendo a fumaça de tabaco, assim como suas roupas, e ela fez uma careta. Era melhor tomar um banho antes de fazer o relatório para a Central. Nem havia muito a reportar, o alvo não apareceu no bar pela terceira noite seguida, o que era muito incomum. Bom, pelo isso dava para colocar no relatório.

Se despiu e só então deu falta do seu relógio de pulso. Devia ter perdido, ou então ter sido roubada. Ia ter que fazer um formulário 13-B para reportar a perda, já que tinha sido enviado pela Central. Ela odiava o formulário 13-B. Burocratas malditos.

Entrou no chuveiro e procurou esquecer o formulário 13-B, a taverna esfumaçada e o disfarce incomodo. Relaxou. Do apartamento vizinho vinham sons que ela conhecia bem. A vizinha enxerida do 319 estava transando de novo. Antes da missão acabar eu tenho que dar um jeito naquela loira aguada, pensou ela.


A pianista cega polonesa Janel Kowalski foi encontrada morta ontem em seu apartamento, informou a autoridade policial do trigésimo distrito. O corpo da artista, desaparecida a uma semana, foi encontrado no banheiro do seu apartamento. A suspeita é que ela tenha sofrido um acidente doméstico enquanto se banhava depois da sua última apresentação no Toogood and Sons Bar. A embaixada polonesa foi avisada e está cuidando dos tramites legais para o traslado do corpo.


Serguei tinha uma má notícia para dar para o seu chefe, e odiava isso. O chefe também odiava, e isso era um problema, porque quando ficava de mau humor o homem gostava de fazer a vida de todos ao seu redor o mais miserável possível. Respirou fundo, bateu na porta e entrou.

O chefe parecia de bom humor, ou entendiado, nunca dava para ter certeza. Serguei deu seu melhor sorriso falso e resolveu ir direito ao ponto.

-Senhor, tenho novas informações sobre a morte da agente 32 em Londres mês passado.

-Ótimo. O chefe tentou sorrir, mas como não estava muito acostumado a fazer isso o máximo que ele conseguiu foi uma careta indistinta. Descobriram quem a matou ?

-Não senhor, é que…

-Como não ??? Está na cara que o MI6 descobriu o disfarce dela e…

-O corpo encontrado no apartamento não era dela, senhor. Era de uma civil inglesa chamada Emma que morava no apartamento ao lado.


Numa praia do sudeste do Brasil uma bela mulher de curtos cabelos negros e olhos azuis fez um gesto com a mão e num sotaque carregado pediu ao vendedor um sacolé de uva. Se refastelou na sua cadeira de praia e suspirou com a felicidade que só aqueles que não vão ter quer preencher nunca mais um formulário 13-B conhecem.

Fabrício

No final de uma ruazinha de trezentos metros num bairro tranquilo ficava a casa da família Silva e Souza. Era uma casa comum, com dois quartos e uma garagem grande, num bairro periférico repleto de outra casas bem parecidas.

Naqueles dias, a reservada família Silva e Souza era composta pelo pai, um comerciante quase cinquentão que estava perdendo os cabelos, a mãe professora de artes, um pouco mais nova e fumante e Fabrício, o filho do casal.

Fabrício era um garoto (na época não se usava o termo pré-adolescente ainda) de doze anos absolutamente comum. Altura mediana para a idade, cabelos e olhos pretos, gostava de futebol, de andar de bicicleta e tirava notas entre sete e oito na escola. Não era popular, nem CDF. Simplesmente não chamava a atenção de ninguém.

Depois de mais um dia absolutamente comum e rotineiro, a família Silva e Souza foi dormir cedo, como sempre. Bem alimentados, felizes e com planos para o dia seguinte.

Dois dias depois, alertados pelos professores de Fabrício, os policias entraram na simpática casinha dos Silva e Souza no final daquela rua tranquila e a encontraram vazia. Não vazia figurativamente falando, mas na prática mesmo. Tudo havia sido retirado da casa, incluindo móveis, eletrodomésticos e até as cortinas da janela.

Atônitos, os policiais foram ouvir os vizinhos. Ninguém havia notado nada de diferente, nem tinha visto nenhum caminhão de mudança. Era o começo do mistério.

As investigações se voltaram então para a parte financeira. Os Silva e Souza deveriam ter sumido para não pagarem as suas dívidas. Uma devassa minuciosa foi feita em todas as contas, da empresa e da família. Não havia débitos impagáveis. Pelo contrário, tudo estava indo muito bem.

Sem opções, a polícia se voltou para a imprensa. Policiais foram até a TV pedindo por informações da família. Os jornais e os programas de rádio cobriram o caso diuturnamente por semanas. Nada funcionou. Ninguém ligou. Ninguém sabia de nada.

Vinte anos depois, dois advogados se apertaram as mãos e depois foram beber juntos. O imbróglio judicial sobre as propriedades da família Silva e Souza finalmente tinha sido resolvido. A agora depreciada casinha que pertenceu à família foi a leilão e acabou arrematada por um bom preço pela família Pereira.

Os Pereira eram bem diferentes dos Silva e Souza. O pai tinha cerca de trinta anos, de porte atlético e jovial. A mãe tinha dez anos a mais e era uma dona de casa dedicada que fazia excelentes tortas. O filho, de sete anos e lindos cabelos negros, por uma incrível coincidência, também se chamava Fabrício.

Os Pereira reformaram a casinha e viveram cinco felizes anos no final daquela ruazinha de trezentos metros. Eram a alegria do bairro, sempre organizando festas e participando dos eventos da comunidade.

Uma certa noite, numa sexta-feira como muitas outras, os Pereira foram dormir felizes depois de um excelente jantar com os Camargo da casa em frente. E foi a última vez que eles, seus móveis, eletrodomésticos e cortinas foram vistos por alguém.

As extensas investigações também não deram em nada. Advogados foram contratados.

Muitos anos depois, os próximos donos daquela casa no final da rua foram os Medina. O sexagenário e culto casal tinha um filho, Fabrício, de onze anos e penetrantes olhos negros.

Ele sabia que tinha só mais um ano nesse plano de existência.

O desaparecido

Era o dia 10 de janeiro de 1942 quando Edmundo desapareceu.

Se não fosse o seu lamentável desaparecimento, aquele teria sido um dia bom para Edmundo. Era o seu tão aguardado décimo terceiro aniversário e sua mãe tinha feito a sua comida favorita: frango com quiabo.

As testemunhas diriam depois que a última vez que viram Edmundo foi naquela tarde, quando ele desceu a ladeira da sua casa e virou à direita na praça do mercado, com as moedas que havia ganho da madrinha tilintando no bolso da sua calça curta. Estava feliz indo comprar um refrigerante na venda do português.

Era o dia 12 de janeiro de 1942 quando Letícia informou à polícia o desaparecimento do seu filho.

Os policias prontamente subiram o morro e interrogaram várias pessoas sobre o desaparecimento do garoto. Não encontraram nenhum indício de crime. A ocorrência teria morrido ali mesmo se não fosse Astolfo, o jornalista.

Era o dia 13 de janeiro de 1942 quando Astolfo publicou uma matéria no jornal local classificando o desparecimento de Edmundo como “misterioso” e fazendo um perfil pouco elogioso da sua mãe.

Letícia era uma jovem viúva. Seu marido, segurança da fábrica de móveis, um homem forte e honrado, havia sido encontrado morto na sua cama seis meses antes do desaparecimento de Edmundo. Duas tragédias em tão pouco espaço de tempo deveriam suscitar suspeitas sobre o envolvimento de Letícia, escreveu Astolfo.

A opinião pública reagiu muito mal depois da matéria de Astolfo. Letícia era apontada, à boca pequena, com a responsável pelo desparecimento do seu filho. O burburinho cresceu até o ponto das autoridades não poderem mais ignorar a situação.

Era o dia 17 de janeiro de 1942 quando a polícia prendeu Letícia.

A jovem viúva e mãe foi interrogada duramente por várias horas na delegacia. Ao final do depoimento o delegado Everton declarou à imprensa que havia “fortes indícios” da participação de Letícia no desparecimento do filho e que ele pediria ao juiz a exumação do cadáver de seu falecido marido para esclarecer as “verdadeiras circunstâncias” da sua morte. A suspeita permaneceria presa “para mais interrogatórios” concluiu o policial.

O jornal que Astolfo trabalhava nunca vendeu tanto como na edição do dia 18 de janeiro de 1942.

Era o dia 25 de janeiro de 1942 quando o dr. Roberto ingressou com um habeas corpus no Fórum local em favor de Letícia. O juiz o deferiu no mesmo dia. Letícia foi solta.

O dr. Roberto era um jovem advogado recém formado na capital. Filho do segundo maior comerciante de secos e molhados da cidade, havia retornado a pouco tempo ao município, onde pretendia exercer a sua profissão. Era tido pelas moças casadoiras como um dos melhores partidos da cidade.

O povo da cidade reagiu indignado à soltura de Letícia. Todos tinham certeza da sua culpa. As mais mirabolantes histórias já circulavam sobre como ela tinha matado o próprio marido e depois, o filho. O jornalista Astolfo nunca trabalhou tanto como naqueles dias de fim de janeiro, publicando uma matéria atrás da outra sobre o assunto.

Era o dia 12 de fevereiro de 1942 quando dr. Roberto e Letícia foram vistos na estação de trens pegando o expresso para a capital juntos. Não faltou quem reparasse que os dois estavam de mãos dadas e que Letícia tinha uma bela e nova aliança no seu dedo. Eles nunca mais voltaram à cidade, nem quando o pai do dr. Roberto o deserdou.

A fuga do casal suscitou o maior burburinho que a cidade já tinha visto desde a sua fundação a cinquenta anos atrás. Cada um tinha sua teoria a respeito, não faltavam testemunhas que juravam terem informações que ninguém mais tinha e os que afirmavam categoricamente que sempre souberam que Letícia não prestava.

Com o tempo a versão que se tornou mais aceita foi de que Letícia envenenara o marido pobre e depois sacrificara o próprio filho num ritual de amarração mágica para conseguir o amor do abastado dr. Roberto. Devidamente enfeitiçado, o advogado a libertara da prisão e os dois fugiram juntos.

Era o dia 10 de janeiro de 1962 quando Edmundo reapareceu. Ele ainda tinha tinha treze anos e o bolso cheio de moedas.

O garoto

Se, ao invés de ser uma bola flamejante de gás a milhares de quilômetros de distância, o Sol fosse um ser dotado de sentimentos, ele teria ficado surpreso ao iluminar aquela cidadezinha no começo de agosto de um certo ano, a muito, muito tempo atrás.

Por que algo havia mudado. Um bebe havia nascido pouco antes da aurora. Seu nome era Talisson, e em nada era diferente de outros bebes. Era gordinho, cabeludo e com cara de joelho, como costumam ser os filhotes de humanos quando nascem.

Mas coisas extraordinárias começaram a acontecer naquela cidadezinha depois do nascimento do Talisson. Eram tão incomuns que passaram despercebidas.

Na mesma manhã do nascimento de Talisson, o respeitado administrador do hospital local morreu engasgado com uma jujuba. Sua morte foi muito comentada e lamentada. Ele viraria, alguns meses depois, até nome de rua.

A homenagem seria cancelada se todos soubessem que ele era pedófilo.

Meses depois Talisson foi levado à pia batismal, na igreja matriz da cidadezinha. Naquela noite, um coroinha que tinha participado da cerimônia morreu afogado na piscina da casa dos pais. Ele sabia nadar muito bem.

As almas dos gatos filhotes que ele tinha afogado naquela mesma piscina comemoraram efusivamente.

Quando entrou na creche aos dois anos Talisson foi recebido por Beatriz, uma cuidadora simpática, amável e inteligente. Ele a adorou e foi no seu colo sem protestar.

Beatriz amanheceu morta na manhã seguinte, com uma baba sanguinolenta escorrendo da boca. Sua única filha foi morar com a avó e ficou feliz porque a partir de então não apanhava mais de cinto todas as noites.

Talisson, é claro, nem desconfiava do que acontecia a seu redor. E nem aqueles que conviviam com ele. Afinal, morria gente todos os dias, não é mesmo ?

O menino cresceu, em estatura e personalidade. Era tido como muito adulto para sua idade. Pouco ligava para brincadeiras e raramente sorria. Tinha uma rapidez de raciocínio impressionante e de vez em quando dizia umas palavras difíceis que sua mãe, uma pobre operária inculta, não sabia onde, ou com quem, ele tinha aprendido.

Aos dez anos Talisson foi acometido de uma terrível moléstia. Febre altíssima e delírio persistiram por uma semana, e até os médicos já tinham perdido a esperança de salvá-lo quando, subitamente, ele se recuperou tão rápida e completamente que algumas enfermeiras chegaram a falar em milagre.

Mas alguma coisa havia mudado em Talisson. Ele agora sabia qual era a sua missão.

Na semana seguinte após a sua dramática recuperação, Tallison deixou a escola no horário habitual e, aos invés de se dirigir diretamente para casa, virou a esquerda na avenida principal e foi até a Botica do Euclides. Era horário de almoço e o farmacêutico estava sozinho no seu estabelecimento.

-O que você quer, garoto ?

-Eu sou o anjo da vingança. Por teus pecados, agora morrerás.

Quem encontrou o corpo de Euclides foi sua esposa, quando foi levar-lhe o almoço. O médico assinou o atestado de óbito como infarto. Seu velório e enterro foram muito concorridos. Entre aqueles que lamentaram a sua morte estavam algumas mulheres que tinham feito um aborto com ele.

E assim, nos meses e anos seguintes, morreram a professora masoquista, o vereador que gostava de sentar crianças no seu colo e o comerciante que tinha caixas cheias de fotos impróprias. E ninguém percebeu nada.

Bem, na verdade, alguém percebeu. Alice, a mãe de Tallison. Ah, as mães. Elas sabem. Elas sempre sabem, mesmo que não saibam bem o que sabem.

Alice vai percebido algo diferente nos olhos do seu filho. Havia notado que as vezes ele se ausentava, ou se atrasava e que quando voltava estava retraído e distante. Alice achava que era alguma consequência da febre que o garoto havia tido. Muito religiosa, multiplicava as ladainhas, os salve-rainhas e os terços que rezava todas as noites, entre lágrimas, para que o filho se recuperasse.

Tallison se apiedou daquela que havia sido escolhida para ser sua mãe terrena. Ela já havia sofrido tanto ! E então ele passou a dar mais atenção a ela, a tratando com gentileza e bondade, e nesses momentos parecia quase um garoto normal, para grande alegria de Alice.

Mas, ao se aproximar dos doze anos, Tallison sabia que sua missão estava chegando ao fim. Naquela noite, na véspera do seu aniversário, ele foi ao seu quarto e orou para Aquele do Alto confirmasse a sua missão.

Confirmação recebida. Tallison suspirou e pulou a janela pela última vez. Quando retornou Alice ainda estava confeitando o bolo para seu aniversário no dia seguinte.

-Ouça-me mulher, que o tempo é curto. Em poucos minutos deixarei essa terra e voltarei Àquele que me enviou.

-O que você está dizendo, Tallison, meu filho ?

-Tallison é o nome que tu me destes, mulher. Sou Raguel, o anjo da vingança do Senhor. E então, por um segundo, ele se mostrou em toda a sua glória para Alice.

Foi demais para a pobre mulher. Suas pernas desmoronaram e ela caiu de joelhos, e tremia.

-Nada temas, mulher, porque fui enviada a ti por Aquele que está no alto. Os céus receberam suas preces. Tu, que quando eras abusada e seviciada oravas ao Altíssimo, pedindo justiça, agora a recebeu. Aquele que a maltratava encontrou a morte, e antes deles seus comparsas.  Ainda hoje a alma dele será recebida no inferno por uma legião de demônios, e seu sofrimento será eterno.

Após dizer isso, Raguel a abençoou e desapareceu num clarão de luz. Alice ainda ficou muito tempo ajoelhada no chão gelado daquela cozinha humilde, meditando sobre o que havia acontecido.

Quando se levantou, sabia que tinha que se preparar para o velório do seu pai.

O coveiro

Era um típico cemitério de cidade pequena. Os muros caiados eram baixos e os portões pintados de azul berrante. No interior não havia qualquer resquício do que chamamos de “paisagismo”, só uma sucessão deprimente de túmulos, entremeados por uma ou outra capela tumular, dispostos em ruas irregulares pavimentadas com tijolos nus. Uma ou outra árvore aparecia de vez em quando, dispostas ao acaso e sem nenhum planejamento.

Apesar disso, aquele era o lugar favorito de Aristênio. Ele era o coveiro do local há pouco mais de um ano, depois que seu antecessor morrera cavando uma sepultura ao sol do meio dia. Tinha sido loucura se candidatar àquele emprego, haviam dito os amigos de Aristênio, mas ele deu de ombros. Era um trabalho que alguém tinha que fazer.

Você não devia ter aceitado esse emprego, Aristênio.

Não podia-se dizer que Aristênio era um homem bonito e feliz. A primeira impressão quando alguém olhava para ele é que havia algo errado. O que, exatamente, ninguém sabia dizer, pois ele parecia uma pessoa comum. Não era alto, nem baixo. Era magro, mas não de aspecto famélico. A barba era rala e o cabelo estava começando a abandonar o topo da sua cabeça, apesar de ter somente trinta e poucos anos. Era solteiro e todos o conheciam como uma pessoa reservada e de poucos amigos.

Você deveria ter ido a mais churrascos, Aristênio.

Naquela quarta-feira específica Aristênio não tinha nenhum velório a acompanhar e nenhuma cova para abrir. A cidade era pequena e nem morria gente todo dia, o que fazia daquele um emprego bem monótono as vezes. Por isso Aristênio pegou a sua enxada e se dirigiu a parte mais antiga do campo santo, disposto a capinar e remover as ervas daninhas que vicejavam no local. Ele nem sabia, mas era um funcionário proativo.

Você devia ter continuado a fumar seu cigarrinho debaixo da árvore, Aristênio.

A parte mais antiga do cemitério era quadrangular e ficava à esquerda da entrada principal. Era composta na maior parte de túmulos decrépitos, que a muito não viam uma visita ou uma manutenção. Alguns estavam bem arruinados, e se discutia na Câmara Municipal se deveriam ser removidos para abrir espaço para novos defuntos. Um homem mais meditativo teria aproveitado esse momento para refletir sobre a trivialidade da vida humana, mas Aristênio era mais prático do que pensativo, e ele somente pôs mãos à obra sem demora.

A manhã toda havia se passado e Aristênio tinha feito a maior parte do trabalho. Parou para comer um lanche ali mesmo, no meio das lápides. Ele havia sido instruído a não fazer isso, mas o fiscal da prefeitura quase nunca aparecia e nem havia nenhum visitante naquele horário quente. Sentou-se no meio fio e passou a comer seu pão com feijão e banana sem maiores preocupações.

As regras foram feitas para ser cumpridas, Aristênio.

Quando acabou de comer a atenção de Aristênio repousou no túmulo imediatamente a sua frente. Estava mais bem cuidado do que qualquer outro naquela área do cemitério. Era um túmulo bem simples, revestido de azulejos brancos e limpos. Ele se aproximou e olhou as datas na lápide. Era uma criança de sete anos sepultada ali, chamada Maria Amélia. A data do sepultamento informava que ela havia morrido a mais de setenta anos atrás, quando aquela cidadezinha era só uma pequena vila no meio do mato.

A curiosidade matou o gato, Aristênio.

O entorno da sepultura de Maria Amélia estava limpo. Alguém claramente ainda a visitava. Algum parente piedoso, pensou Aristênio, apoiado na sua enxada, antes  que seu espírito prático o dominasse e passasse para o túmulo seguinte. Mas, ao seu virar no exíguo espaço entre os dois túmulos, a sua enxada bateu no lado da sepultura da menina. Um azulejo rachou ao meio e se quebrou.

Agora você se encrencou, Aristênio. Se encrencou para valer.

O que aconteceu a partir do meio dia daquela quarta-feira entrou no campo da lenda popular. Várias versões surgiram, cada uma mais cheia de detalhes do que a outra.

A versão mais aceita é que Aristênio entrou numa fase de azar depois daquele dia. Tudo começou a dar errado. O cabo da enxada quebrou, Aristênio torceu o pé, deslocou o ombro e teve que trabalhar mesmo doente pois não havia outro coveiro e três pessoas tinham morrido no mesmo dia, o que não acontecia desde…bem, nunca tinha acontecido antes.

E não tinha se passado nem uma semana daquela quarta-feira. Pobre Aristênio.

E os pesadelos ? Aristênio teve muitos pesadelos, todas as noites. Mal fechava os olhos e os seres mais terríveis e maléficos apareciam nos seus sonhos. Quinze dias depois daquela quarta-feira, ele já não conseguia mais dormir.

Pobre Aristênio. Estava enlouquecendo. E nem sabia porque.

Ele procurou uma benzedeira, um preto velho e um médico, nessa ordem. Acabou tomando uma garrafada e uns remédios, mas não adiantou nada. Passou a não conseguir segurar mais nada no estômago, nem água. Começou a emagrecer a olhos vistos. De magro, Aristênio passou rapidamente a esquelético.

E só tinham se passado três semanas depois daquela quarta-feira. Coitado do Aristênio.

Na quarta semana Aristênio passou a não sair mais de casa. Nem quando ameaçaram demiti-lo, nem quando lhe ofereceram um aumento, nem quando sua mãe foi até lá, nem quando o vizinho policial ameaçou arrombar a sua porta.

As portas da casa de Aristênio eram sólidas. Ah, Aristênio, Aristênio…eu não preciso de portas.

Quando, um mês depois daquela quarta-feira, o encanador que havia sido promovido a contragosto como coveiro temporário abriu o cemitério pela manhã, não estava preparado para o que viu.

O corpo de Aristênio estava nu e caído meio que de lado, numa posição estranha, ao lado de um túmulo muito antigo de uma criança. Nas suas mãos crispadas o legista encontrou dois pedaços de azulejo branco.

Você não devia ter sido tão descuidado, Aristênio.

Passada a comoção da sua morte, hoje quase ninguém visita o túmulo de Aristênio. O mato já começa a tomar conta do entorno. O novo coveiro não é tão diligente.

Não se preocupe, Aristênio. Uma hora ele vai se distrair também. Vamos brincar ?

O anjo

A muito, mas muito tempo atrás mesmo – confie em mim, foi a muitos anos atrás – uma cidadezinha do interior começava a acordar para mais um dia. O sol nascia preguiçosamente nas montanhas, os galos cantavam nos quintais, os empregados já estavam de pé nas casas. Em nada parecia que aquele dia específico, cuja data precisa caiu nas areias do esquecimento, fosse ser diferente dos outros dias modorrentos naquela cidadezinha.

Foi quando se ouviu uma grande explosão. As casas balançaram, e pelo menos uma desabou.  Muros caídos, árvores com galhos partidos, animais fugindo dos quintais, tudo acontecendo ao mesmo tempo. A população se assustou, todos saíram de casa, e o pânico se instalou.

Quem dominou a situação foi o padre local. O velho sacerdote, trajado de batina, reuniu a todos na praça da cidade e os acalmou. Com certeza, o que havia acontecido era obra de Deus, disse ele. A prova era que a igreja, o templo do Senhor, não havia sofrido um único arranhão. Exortou todos a se arrependerem, porque o acontecido só poderia ser um lembrete dos céus para que não pecassem mais.

Ainda falava o padre quando um grupo de três homens a cavalo irrompeu na praça. Havia um grande incêndio num trecho de mata na estrada da saída velha da cidade, disseram eles.

A população da cidadezinha se mobilizou imediatamente. Já a muitos meses não chovia por lá. Um incêndio poderia facilmente chegar até as casas e destruí-las. E todos trabalharam juntos para debelar o incêndio, do menor até o maior, do prefeito ao oleiro, do juiz ao sapateiro, todos dando até o última grama de sua força para acabar com o fogaréu.

Ao final do dia estavam todos famintos, cansados e sujos de fuligem, mas o incêndio tinha sido controlado. E mulheres piedosas fizeram comida, e jantaram todos na praça da cidade, iluminada como acontecia nos dias de quermesse, e foram dormir com o corpo cansado e o coração contente.

Na manhã seguinte, num sítio que não havia sido atingido pelo fogo na estrada da saída velha, um estranho personagem foi avistado por um sitiante. Era um jovem homem totalmente nu. Era branco, mas muito branco mesmo. Mais do que aqueles europeus esquisitos que tinham passado por ali a alguns anos atrás, indo para as minas. Tinha olhos azuis e cabelo tão loiro que parecia branco também.

Quando foi abordado o jovem estava calmo, mas não disse uma palavra. Parecia incapaz de formular qualquer som, mas dava mostras que entendia pelo menos um pouco do que lhe diziam. Intrigado, o sitiante cobriu o homem com algumas roupas, que ele vestiu sem protestar, e o levou até o padre.

O velho sacerdote se mostrou assombrado com tão inusitada figura. Tentou falar com ele em latim, mas o jovem não respondia. O aspergiu com água benta, e ele não demonstrou incomodo. Lhe mostrou um crucifixo, e então ele reagiu: ajoelhou-se piedosamente.

Evidentemente se tratava de um cristão, concluiu o padre. Devemos acolhê-lo, disse ele ao sitiante, e arrumou para o estranho jovem um quarto na sua casa paroquial. Serviu-lhe comida, e ele comeu frugalmente, mas recusou vinho e cerveja.

A notícia da chegada de tão inusitada figura correu a cidade mais rápido do que o fogo no dia anterior, e tantos queriam vê-lo que o padre acabou levando o jovem até a praça da cidade para que todos pudessem observá-lo. Mais uma vez ele demonstrou calma e não se assustou com a multidão inquisidora, observando todos com vívido interesse.

O delegado se prontificou a, no dia seguinte – já corria alto a tarde – enviar alguém até a cidade vizinha para saber se algum jovem de boa família de lá tinha sumido. Estava evidente para o policial que aquele só poderia ser o filho de uma família abastada, pois estava bem cuidado e não tinha calos nas mãos. Aquele não era o filho de um trabalhador, e sua conclusão foi apoiada por todos.

Mal caiu a noite e começou a chover na cidadezinha. Foi uma chuva leve, constante e sem vento e raios. Durou toda a noite, e dela muito se alegraram os sitiantes, porque a seca já durava muitos meses. Assim que o sol se levantou naquela manhã feliz o delegado partiu a cavalo, disposto a encontrar a origem do estranho albino.

O delegado demorou uma semana para voltar. Tinha estado em todas as cidades da região contou ele, ao regressar. Ninguém tinha dado falta de um jovem naqueles lugares. Era um mistério de onde tinha vindo o rapaz.

Aquela semana tinha sido boa para a cidadezinha. O clima parecia ótimo: o sol não castigava tanto ao meio dia, as noites eram frescas, as vacas davam mais leite, a plantação vicejava com rapidez, os passarinhos faziam a cada dia uma sinfonia mais bela. Estava tudo correndo bem para quase todos.

A exceção era Paulo, o alienado. Ele era o louco do local. Muitos diziam que tinha sido mal parido, pois a parteira tinha demorado a concluir seu trabalho. Como era filho de um poderoso comerciante, a parteira caiu em desgraça e teve que abandonar a cidade por causa das críticas, não sem antes jogar uma maldição em todos.

Vivia Paulo pelas ruas da cidade, algumas vezes nu, fazendo suas necessidades nos quintais, assustando as crianças e dizendo coisas sem sentido. Porém, desde que o estranho albino chegara na cidade se tornara mais agitado. Passava seus dias em frente praça da igreja, berrando para todos que passavam palavras incompreensíveis, mas que pareciam o latim que o padre usava na missa.

Hoc est autem Angelus Domini. Fuge! – gritava ele, e quando o albino saia da casa do padre ele fugia sem demora e se escondia, ninguém sabia onde.

Passaram-se os dias, não sabemos quantos, porque as fontes são imprecisas nesse ponto, quando chegou à cidadezinha um comerciante vindo do município vizinho. Encontrou a cidade totalmente deserta, como se tivesse sido abandonada às pressas. As casas estavam abertas, havia comida na mesa de algumas delas, e até os currais e galinheiros estavam vazios.

Rodou  o comerciante por toda a cidade, e notou em vários lugares manchas escuras, como se uma pequena e intensa fogueira tivesse ali queimado. Assombrado, o homem esporeou o seu cavalo em direção à saída da cidade, quando encontrou finalmente uma alma viva e estacou.

Era um homem maltrapilho, semi-vestido e sujo, que caminhava vagarosamente pelo lado da estrada. Quando viu o comerciante, não suplicou uma esmola ou comida, somente disse:

-Eu disse a eles que era o anjo da morte ! Eu disse ! Mas ninguém me ouviu ! Ninguém me ouviu. A culpa não é minha! – e desatou a chorar desconsoladamente.

O tempo passou, a natureza cobriu a cidadezinha e hoje da moderna rodovia dá para ver somente alguns restos de construção embrenhados no meio da mata. A memória dos acontecimentos permaneceu, e todos na região evitam entrar lá. Os poucos que aventuraram a ir relatam que viram uma estranha figura, quase nua, que repete sempre a mesma coisa, em meio à lágrimas:

-Eu avisei ! Eu avisei ! A culpa não é minha ! Não é minha !

A árvore

Hércules ficou surpreso quando foi procurado por um advogado que informou que ele havia herdado uma chácara do seu tio-avô Adalberto. Ele nem lembrava que tinha um tio-avô, muito menos que ele tinha uma chácara numa cidadezinha do interior, e nem que ele era o único herdeiro.

Ele devia ter vendido a chácara.

Na sua primeira visita ao local, Hércules ficou ainda mais surpreso. A chácara estava muito bem cuidada. A casa, em estilo colonial, era enorme. O terreno estava limpo e era relativamente grande. Havia água, eletricidade e um caseiro que morava com a família num casebre nos fundos, o “seu” Sebastião, um negro retinto, já um tanto idoso e falador.

Alguns meses se passaram e na segunda visita Hércules estava acompanhado de um arquiteto. Olharam tudo, tiraram fotos, mediram, conversaram, sempre observados por Sebastião, que os ciceroneava, e seu filho, com cara de quem não estava entendendo nada.

Ele não deveria ter voltado.

Quando chegaram nos fundos da casa, o que mais se destacava era uma velha e enorme árvore bem no meio do pátio. Já tinha visto dias melhores, mas ainda estava, teimosamente, de pé.

-Aqui nos fundos eu pensei em fazer um estacionamento. Mas vamos ter que remover essa árvore velha – disse o arquiteto.

-Sem problemas… – começou Hércules.

-A árvore não pode ser derrubada não.

Quem tinha falado era o até então mudo Sebastião. Hércules ficou tão surpreso quanto ficaria se tivesse sido informado que o arquiteto era um alienígena vindo de Betelguese.

-Seu Sebastião, obrigado pelo seu palpite, mas… – começou ele, com a melhor educação que pode arranjar.

-A árvore não pode ser derrubada. Se o sinhô fizé isso, uma terrível maldição vai cair nesse lugar.

-Eu não acredito nas suas mandingas, velho – Hércules estava irritado.

-Não é mandinga, nem macumba de Tião não. A árvore é amaldiçoada, sinhô.

-O que você tá dizendo, homem ?

-Que era nessa árvore que o Coroné Francisco, avô do senhor seu tio Adalberto – que Deus o guarde ! – enforcava os escravos desobedientes. As almas deles vivem na árvore. Ela não pode ser derrubada ! – Sebastião estava assustado, e tremia.

Hércules estava, mais uma vez, surpreso. Ele era do tipo que ficava facilmente surpreso mesmo. Emudeceu, sem saber o que dizer. Foi o arquiteto quem quebrou o gelo.

-Nós podemos manter a árvore, fazer uma área de lazer aqui e o estacionamento ali na esquerda. Construímos um novo acesso por ali e…

Mas Hércules tinha se recuperado.

-Não precisa. Mantenha o seu projeto original. Não acredito nas suas maldições, velho. A árvore será retirada, disse, olhando nos olhos de Sebastião.

Hércules viu o choque e a decepção nos olhos do homem mais velho. Por um instante, um mísero segundo, sentiu pena daquele velho negro.

Sebastião baixou a cabeça e, pedindo licença, se retirou para o seu casebre, acompanhado pelo filho. A visita do arquiteto continuou por mais um tempo e depois os dois foram embora, cheios de planos e ideias mirabolantes.

Que nunca iam se concretizar.

Muitos mais meses se passaram e quando Hércules e o arquiteto voltaram, estavam acompanhados de alguns trabalhadores para a fase inicial da obra. Hércules, que não se cansava de ficar surpreso, ficou de novo: o estado do local era deplorável, cheio de mato, sujeira e com um trecho da cerca derrubado.

Hércules foi furibundo até o casebre de Sebastião, disposto a demiti-lo por negligência, mas não o encontrou. Ele não estava em lugar nenhum da propriedade. Ficou evidente que ele havia abandonado o seu posto sem avisar ninguém.

Furioso, Hércules deu ordens para que o casebre fosse o primeiro a ser derrubado. “E deem  também um jeito naquela árvore nos fundos, quero ela no chão antes da parada para o almoço” – completou ele.

– Derrubem tudo agora!!! – ordenou Hércules, antes de embarcar no carro de volta à cidade. Ele tinha umas certas propinas para pagar, fazendo assim que certos funcionários da prefeitura ignorassem algumas violações do código de zoneamento da cidade que a obra dele na chácara ia cometer.

Os empregados pegaram suas ferramentas e foram ao trabalho.

Pela última vez.

Depois de se desincumbir da triste tarefa de molhar a mão daqueles aspones, Hércules ligou para o celular do arquiteto. Nenhuma resposta, mas ele não se abalou. O sinal era bem ruim na chácara mesmo. Procurou o melhor – na verdade, o menos pior – lugar da cidadezinha para comer e pediu um lauto almoço, que comeu preguiçosamente.

Depois da refeição, ligou de novo para o arquiteto. Sem resposta outra vez. Pegou o carro e voltou para a chácara. Foi a última vez que alguém viu Hércules com vida.

Quem deu o alerta foi um vizinho da chácara, alguns dias depois. Corpos destroçados foram encontrados nos fundos da casa. O massacre havia sido brutal. Os corpos estavam tão despedaçados que foi impossível, no início, saber a quantas pessoas eles pertenciam. Se não sabia quem tinha cometido aquele crime, a polícia pelo menos sabia como tinha sido feito: usando as próprias ferramentas dos trabalhadores.

A autópsia, feita por legistas da capital, encontrou nove corpos completos.

A cabeça de Hércules não foi encontrada. E nunca será.

Ele não devia ter duvidado do meu pai.

O diário

Tinha sido uma bela mansão campestre, aquela. A fachada ainda estava preservada, apesar de muito maltratada pelo tempo. O interior tinha as marcas do abandono de décadas, mas também deixava antever que um incêndio havia consumido a parte anterior da residência.

A chácara onde estava a mansão também deveria ter sido encantadora. Um canal, agora seco, trazia água do rio próximo para uma represa que, outrora, deveria ter formado um belo lago artificial. Os restos de um enorme jardim e o que fora um pomar mostravam um paisagismo cuidadoso. Deveria ter sido um belo local para se viver.

Daria muito trabalho reformá-la para que tivesse um aspecto parecido com o original, como queria seu novo dono. Mas esse era o meu trabalho, e eu ganharia um bom dinheiro por ele, o que compensaria as idas e vindas da capital até aquela cidadezinha decrépita.

Meu espírito prático arrancou-me dos meus devaneios e me pôs em ação. Após essa rápida primeira inspeção, rumei até a cidade, disposto a contratar alguns peões para começar sem demora a limpeza do terreno.

Não consegui contratar ninguém. Todos pareciam felizes pelo salário que eu oferecia, mas quando eu dizia onde o trabalho seria realizado, as pessoas desconversavam e davam as mais ridículas desculpas para rejeitar a oferta. Gastei todo o dia nessa busca inútil. Algo de estranho estava acontecendo, e decidi conversar com o novo dono do local.

Ele me recebeu na sua grande e horrenda casa no centro da cidadezinha. Perto da beleza, mesmo arruinada, da mansão onde eu estivera, aquela caixa de concreto amorfa em que ele vivia me pareceu ainda mais deprimente. Fui direto ao ponto, então ele me contou a história do abandono da mansão.

A casa havia sido construída para ser o o lar de um jovem casal que, após faustuosas  núpcias, lá foram residir, me contou ele. Eram filhos das famílias mais importantes e ricas do local, e viveram lá alguns anos em um doce idílio. Até que um dia eles dispensaram todos os empregados e, naquela mesma noite, o local ardeu em chamas. Os corpos nunca foram encontrados, e a polícia encerrara o caso como incêndio acidental. Mas na cidade circulava o boato que eles haviam se suicidado. Não faltavam relatos daqueles que juravam que haviam visto seus fantasmas, ou ouvido gritos e música emanarem do local. O local passara de um herdeiro a outro, nenhum deles disposto a reformar a casa, até que fora colocada em leilão para cobrir uma dívida do último proprietário.

Eu era cético demais para acreditar em fantasmas. Tomei tudo por uma crendice local, típica das mentes simplórias dos habitantes dessas cidadezinhas do interior. Saí de lá disposto a conseguir operários em outro local, nem que fosse na capital, para me desincumbir da minha tarefa.

Na semana seguinte voltei acompanhado de alguns homens que arrebanhara na capital. Os deixei com a incumbência de demolir o que restara do telhado da mansão e limpar o entulho acumulado em seu interior e rumei até a cidade para lhes conseguir pouso e alimentação. Acabei demorando mais do que esperava nessa tarefa e voltei só às duas horas. Encontrei os peões abrigados do sol sob uma grossa árvore no que teria sido o pomar. Achei que estavam aguardando o almoço e distribui sem demora as marmitas que comprara na cidade.

Me sentei para comer com eles, pensando escutar suas costumeiras brincadeiras e piadas grosseiras, mas os homens estavam calados e taciturnos, como se estivessem assustados. Terminei de comer rapidamente e chamei o mestre de obras de lado para averiguar o que havia acontecido. Ele era um homem duro, pele curtida pelo sol, dedos grossos e modos brutos. Estava reticente no começo, mas depois me contou o que havia acontecido.

Coisas estranhas haviam acontecido dentro da mansão, me disse ele. Ferramentas desapareciam e depois apareciam em outro local. Um homem, encarapitado no telhado, havia sentido uma força o puxando para baixo e quase caiu lá do alto. Vários juraram ter visto vultos e se sentido sendo observados. A opinião unanime entre eles era de que a casa era amaldiçoada ou assombrada de alguma forma.

Aquele homem duro e simplório me contou isso tudo meio que envergonhado. Assim que ouvi o seu relato juntei todos os homens e os lembrei da excelente diária que estava lhes pagando. Prometi dobrá-la se até o final do dia certas tarefas fossem completadas. Falei que não existiam fantasmas e nada disso, que eles só estavam impressionados pela mansão abandonada.

Meu discurso foi bem recebido e os homens voltaram ao trabalho. Da minha parte peguei as plantas do local e as estendi na caçamba da caminhonete, planejando as ações do dia seguinte. Tinha transcorrido cerca de uma hora quando o mestre de obras me procurou com um objeto nas mãos. Havia sido encontrado no fundo da mansão, debaixo do que restara do assoalho de um dos quartos queimados.

Era uma caixa retangular de metal, decorada com motivos florais. Deveria ter sido muito bonita quando era nova e brilhante. Era leve e uma sacudida deixou antever que havia algum objeto dentro dela.  Estava fechada por um delicado cadeado tão enferrujado que parecia incrível que ainda não tivesse se decomposto. Na hora não dei atenção ao achado e o guardei no carro, disposto a entregá-lo para o dono do local no dia seguinte.

O resto da tarde transcorreu sem problemas, para grande alívio de todos. Quando o sol se pôs levei os homens até a pensão que havia contratado e lhes comprei uma caixa de cervejas. Da minha parte fui até o hotel em que estava registrado, disposto a  tomar um banho e me jogar na cama sem demora. Sentia-me muito cansado, quase esgotado.

Segui meu plano a risca e me deitei com um suspiro de alívio na desconfortável cama do hotel. Mas, apesar de muito cansado, não conseguia dormir. Meu pensamento se fixou naquela bela caixa, que havia trazido comigo, por precaução, para o quarto. Quanto mais tentava dormir, mais pensava nela. Vendo ser inútil continuar me virando na cama, peguei a caixa. Não precisei forçar muito o desgastado cadeado e a caixa se abriu. Dentro, havia somente um pequeno caderno de capa aveludada. Quando o peguei nas mãos soube, não sei como, que havia tristeza ali.

As primeiras páginas já deixaram claro que era o diário de Ana Francisca, a esposa do casal que habitara originalmente a mansão. A letra era pequena e delicada e o tom era meloso e romântico, como só os amores jovens sabem ser. A jovem nubente iniciara o diário no dia do casamento, e se derramava em elogios frequentes ao seu esposo, Fabrício. A narrativa era açucarada demais para o meu gosto e pulei várias páginas de descrições enfadonhas de bailes e piqueniques no lago. Mas, perto do final, alguns trechos me chamaram a atenção.

09/05/1959, sábado

Ontem a noite Fabrício recebeu uma espiritualista que havia conhecido na sua última viagem. A princípio achei graça da mulherzinha e do seu jeito empoado e pomposo de falar. Mas quando ela começou a sessão espírita e a nossa grossa mesa de carvalho começou a se mexer na minha frente, minha incredulidade se transformou em medo. Antes de ir embora ela ficou um bom tempo com Fabrício na biblioteca. Vou pedir para ele não trazê-la mais aqui.

17/05/1959, domingo

Os últimos dias tem sido de muito sofrimento. Fabrício não sai mais da biblioteca, enfurnado lá o dia todo com seus livros ocultistas. Ordena que suas refeições sejam servidas no aposento e não sai sequer para passear comigo. A noite passada, quando foi dormir, implorei a ele que parasse com seus estudos ocultistas e me desse mais atenção. Ele se irritou e pediu no meio da madrugada que Cosme montasse para ele uma cama de campanha na biblioteca. Isso me deixou muito desgostosa, mas não quero contrariá-lo.

25/05/1959, segunda-feira

A meu pedido, os pais de Fabrício estiveram aqui em casa hoje. Ele mal os recebeu. Está com o aspecto magro e deixou de barbear-se. Seu pai discutiu violentamente com ele, os gritos foram ouvidos até no alojamento dos empregados. Ao final, meu sogro saiu dizendo que ia tomar providências para que Fabrício fosse enviado sem demora para uma casa de repouso. Meu pobre marido enlouqueceu, disse ele, mas há de se recuperar. Chorei o dia todo pelo nosso infortúnio.

26/05/1959, terça-feira

Hoje pela manhã Fabrício me chamou até a biblioteca. Estava barbeado e de bom humor, e fiquei esperançosa que havia recuperado suas faculdades mentais. Conversamos longamente e ele me mandou anotar um mantra e repeti-lo três vezes, de hora em hora. Achei estranho, mas fiz sua vontade. A língua é esquisita, mas não tive dificuldade em repetir. As palavras são:

Olukhulu Inkosi Esihogweni, kufumana umphefumlo wam. Kuzisa zakho ezingcwele umlilo kwaye kubatshisa kum !

28/05/1959, quinta-feira

Dispensamos todos os empregados, com um mês de salário pago. O grande ritual será essa noite. Mal posso esperar !

Olukhulu Inkosi Esihogweni, kufumana umphefumlo wam. Kuzisa zakho ezingcwele umlilo kwaye kubatshisa kum !

Então era isso. O incêndio da mansão tinha sido só um ritual mágico que dera muito errado. Pobres jovens ! Repeti aquelas palavras, que tinham causado tanta destruição e elas me pareceram esquisitas, mas ao mesmo tempo era fácil de pronunciá-las, como se fosse uma língua ancestral a muito tempo esquecida que eu estivesse relembrando. Esgotado de cansaço, guardei o diário e dormi.

Meu corpo, assim como o dos jovens amantes, jamais será encontrado, pois o fogo de Olukhulu irá consumi-lo por completo. Se você está lendo esse relato, é porque encontrou a caixa que eu enterrei na mansão. Repita as palavras e você se juntará a nós !

Olukhulu Inkosi Esihogweni, kufumana umphefumlo wam. Kuzisa zakho ezingcwele umlilo kwaye kubatshisa kum !