A casa

Desde criança, sempre que Celeste passava em frente aquela casa, se sentia mal. Como se algo de muito ruim estivesse para acontecer, ou acontecendo, ou tivesse acontecido ali.

Não era uma casa diferente das outras do seu bairro. Pequena, nos fundos do terreno, com uma área de brasilit na frente, algum mato e um cachorro latindo. Alguém morava ali, alguns diziam que era uma velha, outros que era um casal, mas ela nunca via ninguém além do cachorro.

Na adolescência Celeste flertou por um tempo com a magia e o espiritismo, e ela achou que sabia o que estava de errado na casa que, naquela época, tinha sido ampliada e ganhado uma simpática floreira junto ao muro: era tudo obra de espíritos obsessores. Ela chegou a pensar em fazer um ritual lá, se o dono concordasse, é claro, mas ela tinha medo do cachorro e nunca tentou nada.

Celeste se transformou numa jovem adulta e tinha recém se convertido ao neopentecostalismo. Mas a sensação ao passar em frente da casa, que agora tinha uma nova janela vermelha no que deveria ser a sala, era a mesma, senão pior. Só podia ser coisa de demônios, é claro. Enviados do capiroto, do pé-rachado, do inimigo, para atrapalharem a sua vida. Por isso que aquele cachorro latia tanto. Devia ver os demônios.

Quando se casou, Celeste deixou o bairro, mas voltou alguns anos depois com dois filhos, uma cicatriz de cesárea, uma bala alojada na bacia e agnóstica. Com dois bacuris para criar, não tinha muito tempo para pensar em casas, mas evitava sempre que podia passar em frente àquela, que tinha sido reformada de novo: trocaram a grade, e agora ficava mais fácil para o cachorro latir em qualquer um que passasse na rua.

Mais alguns anos se passaram e Celeste era agora uma quase balzaquiana estressada andando pelo bairro quando passou em frente aquela casa, que tinha sido pintada de um verde abacate horrível. O cachorro, como sempre, estava latindo furiosamente mas, saindo pelo portão, estava uma velinha encurvada.

Era a primeira vez que ela via alguém naquela casa ! A velinha parecia inofensiva. Estava trajando uma saia longa e tinha um coque bem arrumado percebeu Celeste, enquanto andava cautelosamente atrás dela. Quando chegaram no cruzamento ela se adiantou e ajudou a velinha atravessar a rua.

-Bom dia, meu nome é Celeste, e o seu ?

-Bom dia, filha. Eu me chamo Celestina.

-A senhora mora naquela casa verde?

-Sim, filha, desde 1981.

-A senhora vai achar graça, mas eu tinha medo da casa da senhora quando era mais jovem.

-Ah é ? Porque, minha filha?

-Não sei, era uma sensação esquisita. E tem aquele cachorro preto que não para de latir e…

-Cachorro ?? Eu nunca tive cachorro, minha filha. Sou alérgica.

E então Celeste compreendeu tudo.

O ônibus

Todas as semanas quando entrava naquele ônibus ela sentia algo esquisito. Era uma sensação indefinida, que ela não saberia explicar com palavras, um misto de arrepio que subia pela espinha e uma sensação de que algo estava muito, muito errado.

Naquela sexta-feira em particular a sensação estava mais forte, a ponto de deixá-la desconfortável. Enquanto as outras pessoas assumiam os seus lugares, ela ficava cada vez mais aflita. Chegou a cogitar descer antes do embarque. Mas não podia fazer isso. Não havia outro horário, e ela estava com saudades da família. Apertou com força o pingente no seu pescoço com a imagem de São Bento, rezando uma prece muda.

Quando o ônibus saiu da rodoviária o desconforto dela já tinha quase virado desespero. Conforme o veículo avançava depressa para a rodovia, ela tentou se acalmar observando os outros passageiros.

Já tinha um tempo que ela dava apelidos aos passageiros, velhos conhecidos seus de outras sextas-feiras. Hoje, do seu lado ia A Faladeira, uma senhora de seus trinta anos que passava metade da viagem no celular falando com, ela suspeitava, o próprio marido. Ou talvez fosse o amante. Mas hoje ela estava quieta.

Do outro lado do corredor estava o Zé Canceroso, um senhor dos seus sessenta anos que ficava ao lado do ônibus fumando um cigarro atrás do outro e que só embarcava no último minuto. Mas hoje ele não estava fedendo fumaça.

Do lado dele estava A Alienada, uma adolescente com cara de entojada que ficava o tempo todo no celular. Mas hoje ela estava…lendo um livro ! Tinha uma coisa errada. Uma coisa muito errada. Tudo estava muito…incomum.

Conforme os quilômetros foram passando o desespero dela foi se materializando num suor gelado escorrendo pela nuca. Se levantou e foi para o final do ônibus pegar uma água. Passou pela Dorminhoca, que estava bem acordada conversando com o Bonitinho, parecendo não reparar na espinha gigante que tinha brotado na testa dele.

Voltou para o seu lugar tremendo. Mal conseguiu abrir o copo de água. Ainda faltava mais de uma hora para a primeira parada. Fechou os olhos, como se o gesto pudesse afastar os seus temores e acalmar o seu coração disparado.

Então o ônibus parou. Ele nunca parava antes da rodoviária. Ela abriu os olhos. Tinha alguém vestido de preto entrando. Do outro lado da estrada ela conseguiu visualizar uma placa: Cemitério São João Batista. Seu estômago se revirou, o gosto de bile chegou na garganta.

Ela se levantou tão rápido que quase tropeçou nas próprias pernas. O medo lhe deu uma velocidade sobrenatural e no segundo seguinte estava brigando com o motorista que não queria deixar ela descer ali. Quando os outros passageiros começaram a xingar e reclamar que a briga estava atrasando a viagem, ele abriu a porta relutante e ela desceu, decidida a chegar até ao posto de gasolina que tinha visto alguns quilômetros antes. Depois veria o que fazer.

Alguns dias depois o legista estava examinando o corpo de uma jovem mulher, bonita mesmo na lividez da morte, quando notou uma medalinha de São Bento no pescoço dela. A retirou delicadamente, enquanto fazia uma anotação no formulário.

A poucos quilômetros dali, o coveiro do Cemitério São João Batista abria mais uma cova. Ele cantarolava, feliz.

O funeral

Eram sete da manhã de um dia de sol. O que significava que já estava um calor infernal.

Tinha sido um erro mudar para aquela tigela poeirenta na beira da floresta ? Talvez. Mas pelo menos o salário era bom, pensou ele, enquanto aumentava o ar condicionado do carro para o máximo.

Aquela estrada era péssima, cheia de buracos, e de vez em quando um galho caído. Mas era a única que ligava o seu condomínio à cidade. Se é que podia chamar aquele lugar deprimente de cidade. Mas o salário era bom. Ele suspirou.

E ainda tinha os gêmeos. Lindos, um sonho realizado mas, por Deus, como davam trabalho. Ainda mais agora que já estavam andando. Tinha sido mais uma noite de pouco sono. Acelerou o carro. Precisava urgentemente de uma dose generosa do café extra forte da firma. E o salário ainda era bom !

O carro deu uma vibrada. Era algum problema no amortecedor, tinha dito o mecânico. Ele precisava trocar, mas não tinha outro carro e não tinha como ficar sem. Quem sabe nas férias. Afinal, o salário dele era bom. Podia viajar para a praia. Ou para Campos do Jordão.

Deu um branco nele. Devo ter apagado por alguns segundos, pensou. Balançou a cabeça para dissipar a névoa e acelerou o carro. A pista estava ótima, o tempo estava fresco, o carro respondia bem. Acelerou mais. Mas onde ele estava indo mesmo ? A mente dele pareceu um pouco confusa por um momento. Claro, claro, estava indo num velório. Como pode esquecer ?

A bucólica cidadezinha só tinha um velório. Ele passou pelo portal da cidade. Nunca tinha reparado muito bem nele. Parecia até bonito se você olhasse do angulo certo. Virou à esquerda. Pronto. Estava na rua do cemitério.

Tinha poucos carros em frente ao modesto edifício. O morto não deveria ser muito popular. Quem era mesmo ? Ele não conseguia se lembrar. Entrou no recinto. O cheiro misturado de velas e flores estava enjoativo demais, então ele ficou parado perto da entrada observando. A mulher ao lado do caixão lhe parecia estranhamente familiar. Quem era ela mesmo ?

Duas crianças passaram correndo. Uma delas parou ao seu lado e sorriu. Ele sorriu de volta e mostrou a língua para a criança, que saiu correndo gritando papa, papa, papa… Bonitinho, pensou ele. Tão parecido com um dos meus filhos…

Ele tinha chegado no final do velório. O padre encomendou o corpo o melhor que pode. Parecia com pressa e fedia a álcool . Então os funcionários da funerária fecharam o caixão e começaram o transporte. Ele saiu do caminho e seguiu no final do pequeno cortejo. A mulher do falecido chorava muito. Uma das crianças de antes estava no seu colo. A outra, estranhamente, seguia ao seu lado. Ela continuava repetindo…papa, papa, papa…

O caixão foi colocado ao lado da sepultura. A esposa pediu para abrirem por uma última vez. A última despedida! Ele se aproximou, curioso. Não conseguia se lembrar de quem era o funeral…

Quando a tampa foi retirada, ele gritou, e então tudo ficou claro.

O morto era ele mesmo.

O lacaio

A madrugada estava gelada. Como fazia frio naquele lugar ! Ele acelerou o passo e olhou para o relógio. Meia hora de caminhada. Hora de fazer a meia volta e retornar para o seu apartamento.

Mas ele estava perto do Monumento pelos Mártires da Grande Purificação e resolveu continuar em frente. Mais uma quadra e ele virou à direita e chegou na praça do monumento. Riu por dentro ao se lembrar que na infância tinha medo da expressão das estátuas das crianças no monumento. Ele não compreendia a importância dele. E pensar que a uma geração atrás aquela praça era considerada um local perigoso e ele nunca poderia estar caminhando naquele horário. Tempos bárbaros, pensou ele.

Apertou mais o passo agora, não podia se atrasar. Sentia-se cansado, mas menos que na semana anterior. O governo estava mais uma vez certo ao instituir o Grande Plano Nacional de Atividade Física Continuada. Que a sorte a dele viver nessa época !

Subir as escadas para chegar no apartamento era a pior parte do exercício matinal, mas elevadores eram um luxo que seu prédio não tinha. Chegou no quente e acolhedor apartamento e ouviu barulhos vindos da cozinha. Sua esposa com certeza estava preparando o desjejum. Foi direto para o banho, para não perder tempo precioso.

Enquanto tomava seu banho gelado (ajudava na circulação, tinha dito o governo) repassou mentalmente as tarefas do dia. Ia chegar na casa do Patrão a tempo de supervisionar a montagem da bandeja do café da manhã. Depois de servi-lo, seria a hora de ajudar o Patrão a se vestir e arrumar seu quarto enquanto a família fazia a sua devoção diária. Hoje era quarta-feira, então o Patrão iria jogar bridge no clube com os amigos, o que daria tempo para ele ajudar a governanta na limpeza da casa. Depois, servir o almoço com os outros lacaios, tarefa que ele não gostava. Considerava os outros lacaios preguiçosos e desatentos.

Mas, eram ossos do ofício. A tarde do Patrão seria no campo de golfe, e ele torcia para ser escolhido para acompanhá-lo. Gostava do ar livre, e carregar os tacos nem era uma tarefa tão pesada assim. Antes do toque de recolher o patrão já estaria em casa e ele ajudaria a servir o jantar. O Patrão não receberia ninguém naquela noite, então ele estaria de volta a sua família bem cedo.

Tinha muita sorte de ter um bom emprego de lacaio para uma família tão distinta pensou ele, enquanto se enxugava rapidamente. O cheiro do chá preparado pela esposa enchia o pequeno apartamento e ele já ouvia o burburinho dos cinco filhos conversando na cozinha.

Se serviu de uma xícara bem grande do seu chá favorito e escolheu o menor pedaço de pão, como sempre. Seus filhos, respeitosamente, aguardaram ele se servir primeiro, então atacaram o que sobrou avidamente. Sentiu falta do seu filho mais velho.

– O Elifaz ainda não se levantou, nobre esposa ? perguntou, distraidamente

A esposa levantou os olhos da sua xícara e ele viu desconforto nos olhos dela.

– Ainda não, querido esposo, ela respondeu, baixo. Deu mais um gole no chá. Ele está um pouco…chateado nos últimos dias – completou ela, hesitante.

– Com o que, nobre esposa ? – ele estava surpreso. Elifaz era o seu primogênito e um jovem rapaz muito ajuizado.

– Amanhã é o Dia da Seleção dele, querido esposo.

Ah, o dia da Seleção ! Como o tempo tinha passado rápido! Ainda se lembrava de como tinha sido na sua vez. A insegurança, o medo. Justificável, ele ainda não confiava plenamente nos algoritmos de seleção do governo, por mais que isso tivesse sido ensinado a ele na escola. Tudo tinha dado certo. Afinal, ele tinha um bom emprego, uma família amorosa e não faltava comida na sua despensa.

Olhou no relógio. Podia tirar cinco minutos para falar com o filho, se corresse o caminho entre o ponto de ônibus e a casa do Patrão. Valia o sacrifício.

– Vou falar com ele, nobre esposa, e se levantou. Ato continuo, todos na mesa se levantaram também. Podem continuar comendo, pessoal, riu ele.

Elifaz tinha o seu próprio quarto. Era seu direito, como primogênito. Bateu na porta três vezes. Chamou. Não tinha tempo a perder. Abriu a porta.

A primeira coisa que ele viu foram as pernas dependuradas.

O primeiro conto

Atenção: esse é um conto (levemente) erótico com temática BDSM. Se você não gosta desse tipo de conteúdo, não prossiga. Você foi avisado. De nada.

Ela escutou o silvo do chicote cortando o ar e retesou as costas esperando o impacto. Mas ele não veio.

Ele sempre faz isso, pensou ela. Esse alarme falso. Não é a toa que ele é sádico e…

O impacto veio com tudo, sem ela estar preparada. A onda de dor subiu pelas suas costas e a fez gemer e tentar fugir instintivamente da dor. O segundo golpe veio, e depois o terceiro, e ela mordeu forte a mordaça, enquanto tudo o que ela sentia eram ondas de dor e prazer misturadas.


Ele amarrou a última tira e agora ela estava totalmente imobilizada. Ela sentiu o hálito dele próximo do seu rosto. Ele colocou o fone de ouvido gentilmente. Logo começou a tocar aquele mesmo som de sempre, meio hipnótico, que a deixava relaxada ao mesmo tempo que não permitia que ela ouvisse mais nada.

Sentiu seu mamilo direito começar a ser chupado, lambido e mordiscado. Sua excitação foi crescendo, aumentando ainda mais quando ele parou e colocou a garra. Ela sabia o que viria a seguir.

Mas ele se demorou. Aquele som, entrando na cabeça dela, a fazia perder a noção do tempo. Não é a toa que ele é sádico e…

O choque veio com tudo, sem aviso. Os seus peitos pularam loucamente, a dor se espalhando mais e mais. Ela quis gritar, mas não podia.

Assim como começou, o choque parou repentinamente. Ela ainda arfava quando sentiu as garras sendo colocadas na sua vulva. Fechou e apertou os olhos, mesmo estando vendada, como se aquilo pudesse ajudá-la a suportar a dor.

O choque veio rápido dessa vez. Ela cravou os dentes na mordaça, a dor e sensação de queimação a fazendo tremer violentamente. Então veio o prazer, rápido e intenso. Era a melhor e a pior coisa do mundo, ao mesmo tempo, juntas e misturadas.


Aquela sensação do plug dentro do seu anus era uma das que ela mais gostava. Geladinho, molhado de lubrificante, doendo, mas ao mesmo tempo gentil, como se seu anus tivesse sido preparado a vida toda para recebê-lo.

Ela estava ali, imobilizada de quatro a muito tempo. Ou seria pouco? Ela perdera a noção do tempo, com aquele som entrando ininterruptamente no seu ouvido. Tentou se mexer um pouco, mas as algemas presas na argola no chão a machucaram. Melhor ficar quieta.

Percebeu que o plug estava sendo tirado. Lentamente, muito lentamente, milimetro por milimetro. Ela soltava gemidos a cada pequena puxada. Ele estava fazendo de propósito, é claro. Não é a toa que ele é sádico e…

O plug terminou de ser puxado e ela soltou um suspiro de alívio. Mas ele durou pouco tempo. Ela sentiu o pênis intumescido dele adentrando seu anus sem dó. Ela mordeu a mordaça e ele continuou, metodicamente, na mesma velocidade. A dor aumentando mais e mais, e ela tenta se soltar das algemas, o que a machuca mais. Ele aumenta a velocidade e a intensidade, e o prazer dela vem forte, enquanto ela percebe que seus pulsos estão sangrando.


Ela gostava daquela sensação. A mão grande e pesada dele passando a pomada calmante nas suas costas enquanto ela estava imobilizada na cama.

Um pouco antes ela tinha fumado um cigarro de maconha. Ela não gostava de maconha no dia a dia mas a analgesia que ela trazia era perfeita para aquele momento. Ele prosseguiu com movimentos delicados por suas costas machucadas. Nem parecia que era aquela mesma mão que, minutos antes, a tinha castigado severamente.

O efeito da cannabis começou a ficar mais forte e ela relaxou e sorriu. Sentiu a mão dele se mover gentilmente pelas suas nádegas, em suaves movimentos circulares espalhando a pomada. A mesma bunda que ele havia espancado com um remo. Parecia ter sido a séculos atrás.

Sem aviso, ele começou a masturbá-la. Ela gemeu baixinho, mas ele fez shhhh e ela se calou imediatamente. Ele aumentou a velocidade, ela foi ficando mais e mais excitada, lutando consigo mesma para não gemer. Quando ela estava quase chegando a mais um orgasmo, ele parou.

Não é a toa que ele é um sádico.

Fila de reencarnação

– Próximo ! Cartão na mão, por favor.

– OK, alma 9.765.876.543. Seu portão é o número 74B e você vai reencarnar em Uganda e…

– Uganda ? Porque Uganda ?

– Olha, você piorou o seu carma em 750 pontos na sua última encarnação…

– Mas o que eu fiz de errado ?

– Comeu um brigadeiro.

– Como é que é ?

– Você comeu o último brigadeiro na festa da sua prima Mariquinha quando tinha treze anos. Era para você ter oferecido para a Artemísia. Vocês ficariam amigos, se afastariam, se reencontrariam depois da faculdade, casariam, teriam dois filhos, cinco netos e um gato. Mas você comeu o brigadeiro e nunca encontrou sua alma gêmea…

– Mas eu me casei três vezes !

– E se divorciou em todas. Sua última ex-esposa dançou macarena no seu velório. Em cima do seu caixão.

– Eu não sabia disso. Mas tinha a minha filha lá, que gostava de mim, a Maristela…

– É Marilissa. Ela tá fazendo terapia agora porque ficou feliz com a sua morte e está mal com isso.

– Ah, tá. Uganda, então ?

– Ou Sibéria. Você quem escolhe.

– Uganda é melhor.

– Então corre que seu trem parte em cinco minutos. Portão 74B. Você será mulher, terá cinco filhos e vai morrer antes dos 40. Acho que isso vai dar uma equilibrada nos seus pontos de carma. Próximo !

– Isso, me dá o cartão. Alma 6.987.098.755. Sua plataforma é a 99C. Você pode escolher o destino, Coréia do Norte ou Eritreia. Qual vai ser ?

– Mas porque ? O que eu fiz de errado na última encarnação ?

– Basicamente você transou. Era para você ter sido freira carmelita descalça e ter morrido virgem in odoris sanctati…

– Em odor do que ?

– In odoris sanctati. É quando a pessoa morre e…

– Tá, não importa. Se era para eu ser freira, vocês tinham que ter me mandado o chamado. E não mandaram !

– Mandamos sim.

– Não mandaram.

– Sim, mandamos.

– Quando ?

– Deixa eu ver aqui…você tinha quinze anos e estava tomando banho de banheira…

– Eu não me lembro…

– O chamado geralmente começa com um arrepio na base da coluna que vai subindo e…

– Ah, achei que fosse um orgasmo….

– E aí começa uma voz bem baixinha e…

– Achei que fosse o gato miando…

– Pois é, não temos culpa. Eritreia, Coréia do Norte ou Sibéria ? Seu trem parte em dez minutos…

– Coréia do Norte então.

– OK, você será um camponês e vai morrer de fome depois de uma seca. Vou acrescentar a morte de uns dois filhos assim você fica com saldo nos seus pontos de carma, ok ? Só porque eu fui com o seu perispírito…

– OK, obrigada.

– Obrigado. Pode ir se acostumando, você será um homem dessa vez. Próximo !

Ok, me dá o cartão. Alma 17,877.547.321. Seu caso é especial. Você vai reencarnar na mesma família de onde veio. Ficou um assunto pendente e…

– Assunto pendente ? Mas eu amava a minha família !

– Sim, senhor, é que…

– Eu doei um rim para o meu filho !

– Sim, eu sei, está no sistema, mas é que…

– Eu enfrentei um rottweiller para defender a minha esposa e perdi os meus genitais !

– Está tudo no sistema. Mas acontece que o seu neto vai precisar de um rim e seu filho não vai poder doar e…

– E o que eu tenho a ver com isso ?

– Você vai reencarnar como filho do seu filho, irmão do seu neto, e vai doar um rim para ele quando for necessário.

– Toda aquela trabalheira de novo ?

– É isso ou Sibéria…

– O que tem de tão ruim nessa Sibéria que você ameaça mandar todo mundo para lá ?

– Faz um frio do cacete.

-Mas eu morava em Curitiba !

– Entendo. Sibéria então ?

– Prefiro ir para lá do que doar um rim de novo. Meu neto que se vire.

– OK, Sibéria, portão 1D. Você será trabalhador de uma mina de carvão e vai morrer de doença pulmonar obstrutiva crônica. Assim você garante um período maior aqui no Além do Aquém na próxima, ok ?

– Tá certo. Mas me conta, eu fiz tudo certo da última vez. Qual foi o assunto pendente que eu deixei lá no Brasil ?

– Você votou no Bolsonaro. Próximo !

 

 

Tzadikim Nistarim

– Mestre…

– Fala, seu verme estúpido. Espero que seja importante para você ter interrompido a minha orgia matinal…

– Eu encontrei, Mestre…eu…encontrei…

– Encontrou o que, verme ? O seu cérebro ?

– Encontrei um dos Tzadikim Nistarim, Mestre…

– Você ???? Você encontrou um Tzadikim Nistarim ????

– Sim, sim, Mestre, eu encontrei, eu encontrei sim !

– Você não saberia reconhecer um Tzadikim Nistarim nem se ele estivesse debaixo desse seu nariz bexiguento, seu verme. Você sabe a quantos anos procuramos por eles ?

– Sim, Mestre, eu sei sim. Desde o começo do Universo a seis mil anos.

– E você sabe o que é um Tzadikim Nistarim, seu saco de vermes ambulante ?

– Um dos trinta e seis homens justos que justificam a existência do Universo, Mestre…

– E você, seu verme imbecil, encontrou um. Um demônio de quinta categoria como você…

– Sim, eu juro pelo nosso Pai Luci…

– Não use o nome do nosso Pai Lúcifer – a ele toda a honra e toda glória – em vão, seu verme !

– Desculpe, Mestre.

– Eu deveria punir essa sua insolência. Eu, Asmodeu, príncipe do inferno, perdendo meu tempo com um demônio estupido que diz ter encontrado um Tzadikim Nistarim. Você, um demônio insignificante, vai dar início ao Apocalipse !

– Mas Mestre, eu posso provar…

– Provar como, seu inútil ?

– Eu trouxe uma iguaria que ela prepara, Mestre, que é a prova de que…

– Ela ? É uma filha de Eva, seu estúpido ? Qual a parte de trinta e seis HOMENS justos você não entendeu ?

– Mas os escritos antigos não dizem claramente que uma filha de Eva não pode ser uma Tzadikim Nistarim Mestre…

– Você está querendo me dar aulas sobre os escritos antigos, seu imbecil ? Sua insolência será castigada severamente ! Vou mandar essa sua carcaça podre para nosso Pai Lúcifer – a ele toda honra e toda glória – e…

– Mas Mestre, a prova…eu tenho a prova…

– E que prova é essa, seu energúmeno ?

– Essa aqui, Mestre. É uma iguaria chamada brigadeiro e…

– Essa bolinha que parece um coco ?

– Sim, Mestre, sim, coma, coma, o Senhor vai entender…

-Huuuum…e como se chama a pessoa que você acha que é uma Tzadikim Nistarim ?

– É dona Neide, Mestre.

– Eu vou provar, e se isso não for o que você diz que é, eu vou vaporizar a sua existência agora mesmo, seu verme.

– Sim, Mestre, prove Mestre, prove.

– Huuuum…huuuum…huuuuuuuuuuuuuuuuum…

– E então, Mestre ?

– Convoque imediatamente Belzebu, Asterot e Leviatã ! Precisamos imediatamente ver nosso Pai Lúcifer – a ele toda a honra e toda glória. Eu encontrei um dos Tzadikim Nistarim !

– Agora mesmo, Mestre !

– Mas antes…você tem outro desses brigadeiros aí com você?