Polícia reencarnatória

— Bom dia! O senhor é Asdrúbal da Silva?

— Sim. O senhor é…

— Inspetor Xavier, Departamento de Polícia Reencarnatória. Essa é minha parceira, Joana.  Astolfo da Silva é seu filho? Ele está?

— Sim, ele está. Do que se trata? 

— Nós precisamos falar com ele. 

— Precisa ser agora? Estamos no meio de uma festa de aniversário.

— Sim, é urgente, senhor. Poderia chamá-lo, por favor?

— O que tá rolando, pai?

— Esses detetives querem falar com você, filho.

— Somos inspetores, senhor. Podemos entrar?

— Por favor, sentem-se.

— Senhor Astolfo, o senhor está completando dezoito anos hoje, correto?

— Sim, é hoje. Vocês estão interrompendo a festa, inclusive.

— Pai, deixa eles falarem.

— Então, o Departamento de Inteligência da Polícia Reencarnatória determinou com 100% de certeza que o senhor é a reencarnação de Michael Mazer, que assassinou oito pessoas e um gato no final do século XX no estado americano de Massa… Massasu… Massachusetts.

— E…

— O que meu filho tem a ver com isso?

— Acontece o referido assassino foi condenado a quatro penas de prisão perpétua consecutivas. 

— Continuo sem entender o que meu filho tem a ver com isso…

— O assassino Michael Mazer cumpriu somente uma das quatro penas de prisão perpétua que deveria cumprir. Então estamos aqui para prender o senhor Astolfo para cumprir a segunda pena e…

— Mas isso é um absurdo!

— Ninguém vai levar meu filho!

— Calma, mãe!

— Eu vou ligar para o meu advogado!

— Se acalmem. Pelo decreto 6667 de 21 de dezembro de 2052 nós temos o direito de prender o seu filho, já que ele é o senhor Michael Mazer revivido.

— Meu filho não fez nada!

— Eu não faço as regras, senhor, só as cumpro. Desde que o neo-espiritismo se tornou a religião oficial do estado o nosso departamento…

— Eu não quero saber! Nós somos cristãos!

— Mas tipo, eu vou ficar preso o resto da vida?

— Sim. E nas próximas duas encarnações também. É o que diz a lei.

— Eu vou ligar para o meu advogado!

— Mas como vocês sabem que eu sou esse tal de Michael aí?

— Temos as nossas fontes.

— Fontes onde? No Além?

— Lá mesmo.

— Mas…

— Nós monitoramos você a vários anos, desde que um dos nossos inspetores médiuns nos trouxe a informação, mas só podemos prender depois dos dezoito anos. Lembra da nova bibliotecária na escola? Era a agente Joana disfarçada. Eu fui seu professor substituto de matemática na sexta série. O agente Divaldo que está lá fora cobrindo a sua rota de fuga foi seu treinador de futebol na escolinha, e a agente…

— Tá, tá, eu já entendi.

— O advogado disse que a prisão é legal e que depois podemos recorrer.

— Não vão levar o meu filho!

— Se acalme, senhora. Você poderá visitá-lo regularmente. Nós vamos levá-lo para o fichamento no 32.º DP e depois ele vai para o Presídio de Segurança Máxima em…

— Presídio de Segurança Máxima! 

— Senhora, ele matou oito pessoas!

— E um gato, não se esqueça disso.

— Eu não. O Michael matou.

— Você é ele revivido, então você matou. 

— Isso é um absurdo!

— O senhor já disse isso três vezes, senhor. Não muda nada a sua opinião a respeito. Astolfo, se vire, por favor, vou algemá-lo.

— As algemas são mesmo necessárias? Os vizinhos…

— Bem, se…

— Se…

— Sobraram dois pedaços de bolo?

V.I.P.

— Central de atendimento ao anjo da guarda, Melquíades falando. Nome e identificação, por favor.

— Uriel, número de identificação oito-nove-três-cinco-sete-nove.

— Confirmado. Uriel, hoje designado anjo da guarda de Luis Silva em Campinas, Brasil, correto?

— Isso. 

— Pode fazer o relatório, Uriel.

— Ele morreu.

— Perfeito. Ele mo…ele o quê???

— Morreu. Desencarnou. Fez a última viagem. Empacotou. Vestiu o paletó de madeira.

— Mas isso não é possível! Luis Silva era um VIP!

— E eu sou um anjo da guarda nível um. Sou pouco mais que um anjo estagiário. Eu nem devia estar aqui se ele fosse um VIP. E aquele sujeitinho era VIP? Por que?

— Ele ia descobrir a  cura da Covid-35. 

— Bom, vão ter que arrumar outra pessoa para fazer o serviço então. Ele tá mortinho da silva. Hahahaha. 

— Não é possível. Você deve estar enganado. Eu vou confirmar a chegada dele, um momento.

— Recepção, Abner falando.

— Abner, aqui é o Melquíades do Atendimento ao Anjo da Guarda. Preciso confirmar a chegada de uma pessoa, você pode fazer isso por mim? É Luis Silva, do Brasil.

— Só um instante, por favor, vou olhar no sistema. Dia agitado hoje. Outra guerra lá na Terra, acredita? Ah, está aqui. Luis Silva. Chegou a cinco minutos. Como era VIP passou pelo julgamento expresso. Cem anos no purgatório.

— Mas ele era um VIP!

— Olha, aqui na ficha diz “morte ignominiosa” acredito que foi por isso que ele foi para o purgatório. Não tenho mais informações, ele já desceu.

— Obrigado, Abner. 

— Uriel, há um grande erro por aqui. Esse cara não era para estar morto e muito menos no purgatório. Deve estar havendo um grande engano. Faça um relatório detalhado do dia dele, por favor.

— Ele foi para o purgatório? Hahahaha. Bem que eu imaginava! 

— O relatório, Uriel, por favor.

 -Tá, deixa eu pegar minhas anotações. Ele acordou seis horas da manhã, de ressaca. Bebeu muita água e comeu um resto de pizza que estava na geladeira. Pegou o carro e foi para a Universidade.

— OK, nada fora da rotina até agora. Prossiga.

— Ele dirige muito mal, tive que interferir umas três vezes, a propósito.

— Tá, tá, prossiga.

— Ele teve uma aula de algo chamado “anatomia”. Achei chocante. Você já viu como são os humanos por dentro? É nojento!

— Me poupe das suas observações. Prossiga.

— Tá bom. Ele foi almoçar com uma tal de Maria Luiza. Ela estava sem anjo da guarda, eu até estranhei, mas tem muitos não cristãos ultimamente, então…

— Não cristãos no Brasil? Pouco provável, depois do que aconteceu lá em 2023. Você deveria ter reportado isso para a central imediatamente!

— Ela não me pareceu perigosa. Não tinha mais de um metro e sessenta e cinco e estuda psicologia…

— Não cabe a você julgar isso! Deveria ter chamado a central! Vou anotar na sua ficha. Agora prossiga o relatório.

— Ele voltou para a aula depois do almoço. Um cara que não parava de falar em ética, uns slides. Ele dormiu umas três vezes durante a aula.

— A Maria Luiza estava junto?

— Não, eles se encontraram depois da aula da tarde e foram para o Motel Estrela da Manhã.

— Motel  Estrela da Manhã. Jura que você não desconfiou de nada, Uriel?

— Não. O que tem de errado?

— Quem é a Estrela da Manhã, Uriel?

— Hã…Vênus?

— Lúcifer, Uriel, Lúcifer! Ele é a estrela da manhã!

— Ah tá. Acredito que faltei nessa aula de demonologia…

— Não me diga! E aí, o que aconteceu?

— Bom, para resumir a história, você pode colocar aí como causa da morte “asfixia erótica”.

— Asfixia erótica! E você não fez nada para impedir?

— Ele quem pediu. Não devemos interferir no livre arbítrio das pessoas.

— Mas ele era um VIP, #¿$?%!¡! O corpo dele está onde agora?

— Aqui no motel ainda. Ele pagou por três horas. Não sei porquê. Gozou em dez minutos na primeira vez.

— OK, fique por aí. Eu vou tentar uma ressuscitação de emergência. Não saia daí, eu te ligo. 

— Central de Resolução de Conflitos, Absalão falando.

— Absalão, aqui é Melquíades do Atendimento ao Anjo da Guarda. Preciso reverter a morte de um VIP, por favor. Luís Silva, Brasil, morto à meia hora.

— Um minuto, um minuto…deixa eu ver. Luís Silva, atualmente no purgatório, correto? Qual o motivo do pedido de reversão da morte?

— Mandaram um anjo da guarda nível um para proteger ele. Desconfio que foi morto por uma agente do Inimigo, mas informação ainda não confirmada.

— Anjo da Guarda nível um para um VIP? Vamos ter que anotar isso na ficha do supervisor dele. Vamos ver quem é o supervisor…Ah, não…

— O que foi?

— Quem assinou a ordem de designação foi o Gabriel.

— O Arcanjo Gabriel???

— Ele mesmo. Eu não posso reverter a morte dele, lamento.

— Quebra essa para mim, Absalão. O cara tá apodrecendo num motel depois de uma asfixia erótica. Ele vai salvar a humanidade da Covid-35!

— Vou te passar para a supervisão, é o que eu posso fazer.

— Supervisão, Amélia falando. Eu falo com Melquíades do Atendimento ao Anjo da Guarda?

— Isso. Eu preciso reverter a morte de um…

— Estou ciente do caso, Melquíades. Eu acessei os arquivos aqui e…bem, tem  coisa esquisita.

— Como assim?

— Essa assinatura na ordem de designação tá estranha…Não parece ser do Gabi…

— Gabi???

— O Arcanjo Gabriel. É que somos íntimos, sabe?

— Ah tá.

— Então, eu vou passar o caso diretamente para Ele.

— Ele?

— O Chefe. O Todo Poderoso. O Senhor Deus dos Exércitos. 

— Mas..isso é possível?

— Claro que é possível. Nós temos um agente no local?

— Temos. Um anjo da guarda nível um, Uriel, está com o corpo dele no motel.

— Deixa eu ver aqui no sistema…Uriel, identificação oito-nove-três-cinco-sete-nove?

— Esse mesmo.

— Pode deixar o caso comigo, Melquíades. Nós ligamos direto para ele daqui. Você fez um bom trabalho, obrigado.

— Uriel falando.

— Aqui é Rafael, do Gabinete do Todo Poderoso. Saudações, Uriel.

— Rafael? O Arcanjo Rafael???

— Eu mesmo. Você se meteu em uma grande confusão hoje, hein?

— Só estava fazendo o meu trabalho o melhor que eu posso, senhor. 

— Sei disso. Vamos te fornecer um treinamento melhor quando você voltar. Agora precisamos desfazer essa bagunça. Eu vou te passar o código de ressuscitação para o Luis Silva, ok?

— Isso não será possível, senhor.

— Por quê? Nunca fez uma ressuscitação? Eu te guio, é bem simples. É só enfiar o seu dedo indicador no cu…

— O corpo não está mais aqui, senhor.

— Como assim??

— Chegaram três pessoas vestidas de preto e vermelho e levaram o corpo dele num carro escuro.

— E você não fez nada???

— Eu estava esperando as ordens do Melquíades. Já faz uma hora que eu estou aqui esperando…

— Você é o anjo da guarda mais néscio que nosso pai criou, Uriel!

— Obrigado, senhor.

— Isso não foi um elogio! Sobe para cá agora!

Agora, as últimas notícias. Um novo vírus da família do coronavírus foi detectado no estado norte-americano da Geórgia. Especialistas do CDC dizem que ainda é cedo para dizer se o vírus da Covid-35, como está sendo chamada a nova descoberta, terá um potencial pandêmico igual ao da Covid-19 ou da Covid-24. Procurada, a OMS não se pronunciou até agora. 

O oráculo

O Oráculo estava cansado.

Já tinham se passado dez anos desde que os monges o encontram  em sua pequena aldeia do outro lado das montanhas. Até então ele tinha a vida típica de um aldeão. Passava o dia ajudando seus pais na plantação de arroz e a noite se divertia com as histórias de outras aldeias que seu pai lhe contava.

Então aqueles homens sagrados chegaram e se dirigiram direto à sua casa. Ele era o escolhido, foi o que disseram aos seus pais. Em meio a muitas lágrimas da sua mãe e da resignação estoica do seu pai ele foi levado e nunca mais soubera deles ou de seus irmãos.

Ele era um oráculo. O Oráculo. Não um simples vidente que poderia profetizar fatos futuros de pessoas comuns ou um profeta, que recebia mensagens enigmáticas dos deuses — que, conforme ele havia percebido, os monges interpretavam para sua própria conveniência. Era um oráculo, aquele que perscrutaria a teia do destino e interpretaria o futuro com sabedoria para os grandes líderes do mundo.

Ele se sentia qualquer coisa naquele momento, menos sábio. Estava cansado do estudo das escrituras sagradas da manhã. O almoço frugal não melhorou muito seu ânimo. Ele deveria estar meditando agora, “limpando a sua mente do ruído do mundo” como dizia um dos seus professores, mas se sentia agitado demais para isso.

Percebeu uma presença junto consigo na sala. Levantou os olhos. Era uma das jovens serviçais. Estava de cabeça baixa e calada, como convinha a pessoas comuns na presença do Oráculo. Ele achava difícil conversar com pessoas que viviam olhando para o chão. Ele gostava de olhar nos olhos das pessoas. Eles não eram a janela do espírito, como ensinavam seus professores?

— Me traga chá — disse ele, secamente, e a serviçal obedeceu sem uma palavra, se afastando quase sem fazer ruído. Ela voltou em pouco tempo com uma bandeja de prata com uma xícara de porcelana de chá fumegante. 

— Sente-se comigo  — pediu ele, e a garota se sobressaltou.

— Eu não devo… — ela começou, tímida.

— Você deve fazer o que eu digo — respondeu ele.

A garota parecia pouco à vontade, mas se sentou. Ele bebericou o chá. Estava excelente, como sempre.

— Olhe para mim — ordenou ele, mas não havia autoritarismo na sua voz. Era quase um pedido.

— Senhor, eu não…

— Por favor, pediu ele, e isso surpreendeu ainda mais a serviçal.

Ela levantou a cabeça. Era jovem, muito jovem. Devia ter uns treze anos, no máximo. O rosto era fino e delicado, como o das pessoas na capital, e seus olhos eram negros. O cabelo estava escondido por debaixo da touca, mas deveria ser tão negro como seus olhos. Era magra e pequena. Será que ela era alimentada corretamente? A garota não sustentou o olhar por muito tempo e abaixou a cabeça novamente, como um reflexo bem treinado.

— Como é seu nome?

— Eu não tenho nome, Sapiência. 

— Sim, você tem. Só não querem que você me diga. Vou te chamar Dama hoje. Olhe-me, Dama. Isso, não tenha medo. Agora me diga: você acredita que eu seja o Oráculo?

A garota pareceu se horrorizar com a pergunta.

— Claro que Vossa Sapiência é o Oráculo. Os monges assim o decretaram!

— E se eles estiverem errados?

— Eles… não podem estar errados… — os olhos da garota expressavam confusão. 

Ele se apiedou dela.

— Sim, eles não podem estar errados. Pode ir, Dama. Diga ao intendente que eu quero que você, e somente você, me sirva chá diariamente nessa mesma hora aqui nessa sala. Se ele questionar, mande-o falar comigo. Agora vá.

A garota saiu apressada, quase tropeçando em seus pés. 

Ele tinha um plano agora.

Os meses se passaram e o Oráculo não se sentia mais sábio do que naquela primeira vez que se encontrara com Dama. Ele ainda tinha dez anos de treinamento pela frente. Os cinco anos finais eram os piores, já haviam lhe dito. Ele não estava nem um pouco ansioso.

Ele e Dama se encontraram diariamente desde aquela tarde. A jovem garota pensara a princípio que ele a queria para favores sexuais. O Oráculo estava preso a um voto de castidade, mas só após empossado. Seus antecessores praticaram muito antes de se absterem, pelo menos era o que diziam as serviçais mais velhas. Ele não sentia essa vontade, apesar de sentir desejos impuros quando estava na companhia de certos professores.

Logo nos primeiros encontros ele a tranquilizou. Ele não queria sexo, só queria conversar. Muito lentamente eles foram criando uma conexão, quase que uma amizade. A princípio ela falava bem pouco, mas havia começado a se soltar mais nas últimas semanas. Parecia inteligente, mas era totalmente devota. Afastava totalmente a ideia de que os monges pudessem estar errados ou manipulando a todos. Sua fé no Caminho era inabalável, e ele não conseguia convencê-la.

Ela entrou trazendo a bandeja de prata e ele pôde parar de fingir estar meditando. Se sentaram. Ele sorveu um grande gole do chá. Estava muito adocicado para seu gosto, mas ele não deixou que ela percebesse.

— Dama, você nunca me disse o seu nome.

Ela disse. Era o mesmo nome da sua mãe. Ele interpretou aquilo como um sinal. Os monges viam sinais em tudo, até na forma que as folhas de chá ficavam dispostas no fundo da xícara. Ele olhou fixamente em seus olhos e ela não desviou o olhar.

— Eu quero que você me ajude a fugir daqui — disse ele, impulsivo.

Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Seu rosto demonstrava confusão e surpresa.

— Me escute — começou ele, agitado. Eu sei que você acredita nos monges, mas eles estão errados. Eu não sou o Oráculo, não posso ser. Eles se enganaram dessa vez. Eu não posso continuar nessa farsa por mais tempo.

— Vossa Sapiência já conversou com o Grande Mestre? — a voz dela era só um sussurro.

— O Grande Mestre é um tolo que dorme em lençóis de seda, cada noite com uma serviçal diferente, apesar de ter jurado para os deuses que manteria a castidade. É um farsante que explora o povo. Que explora pessoas como você! 

— Mas… para onde Vossa Sapiência iria? 

— Há outros países. Tenho aprendido sobre eles nas aulas de Geografia. Naquele sentido — ele apontou para o leste — há outro país onde os homens têm a pele mais escura e eles usam turbantes na cabeça. Fica a uns dez dias de caminhada. Lá posso ser um homem comum. Me ajude, por favor. 

Dama se levantou e saiu correndo. Seria a última vez que eles se veriam por muito tempo.

No dia seguinte ela não apareceu com o chá. No seu lugar outra serviçal trouxe a bandeja. Ela não sabia o que havia acontecido com Dama. Ele foi servido por serviçais diferentes nos dias seguintes. Algumas se insinuaram sexualmente para ele, mas foram rejeitadas e saíram magoadas.

Ele se preocupou com o destino de Dama, mas lhe informaram que agora ela trabalhava em outra ala do palácio. Uma ou duas vezes ele pensou que a vira passar, mas deveria ser só uma impressão. Todas as serviçais se vestiam iguais, era fácil se confundir.

Vários outros meses passaram e o Oráculo perdeu as esperanças. Não havia escapatória. O sistema havia vencido. 

Era uma noite quente de verão e ele estava se preparando para dormir quando ouviu uma leve batida na porta. Havia acabado de chegar da entediante oração noturna. Teria esquecido algum compromisso?

Abriu a porta e ficou surpreso ao encontrar Dama do outro lado, vestida com roupas de camponesa.

— Se você quer mesmo fugir, tem que ser agora — disse ela, de uma vez.

Ele deu o maior e mais sincero sorriso da sua vida.

Eles não foram longe. No terceiro dia foram encontrados dormindo no estábulo de uma fazenda a beira da estrada e levados de volta à capital. Apesar dele ter afirmado que a ideia havia sido sua e que Dama era inocente, ela foi acusada de rapto e alta traição. Foi executada com a morte dos mil cortes. A cena foi tão terrível que aqueles que a presenciaram nunca a esqueceram e a história de como e do porque ela morreu ainda são contadas até hoje.

A vigilância sobre o Oráculo foi redobrada. Agora ele só tinha contato com os monges. As sessões de meditação e penitência foram dobradas, depois triplicadas.

Dez anos de treinamento árduo se passaram até que chegou o grande dia da sua posse. A cerimônia pareceu interminável, mas finalmente terminou. Ele dormiu pela primeira vez nos aposentos oficiais e se surpreendeu com a maciez dos lençóis de mil fios.

Na manhã seguinte ele convocou todos os mestres para uma audiência. Era costume que o Oráculo se recolhesse por alguns dias antes de proferir o seu primeiro vaticínio, mas ele não quis esperar.

Os rostos dos mestres estavam tensos e ansiosos quando ele entrou carregado pela liteira. Assim que ele se sentou no trono elevado todos se ajoelharam aguardando o vaticínio. Ele saboreou aquele momento. Eles não esperavam o que estava por vir.

— Irmãos — começou ele, com voz clara e firme. Decifrei a teia do destino, mostrada a mim em sonhos pela piedade dos deuses essa noite. — Ele fez uma pausa para criar expectativa. Ainda hoje, um de nós que está nessa sala agora encontrará o seu destino e prestará contas dos seus atos aos deuses.

Um ahhhhhh de surpresa encheu a sala e um burburinho começou. Ele pediu silêncio e as vozes se calaram imediatamente.

— Esse é o meu vaticínio. Assim será, pois essa é a vontade dos deuses. Louvados sejam!

Ele fez um sinal e a liteira foi trazida até ele. Quando o Oráculo saiu, deixou para trás quarenta monges assustados. 

O décimo Oráculo foi encontrado morto em seus aposentos logo após o almoço. Ele tinha uma xícara de chá à sua frente. Entrou para a história como o Oráculo que por menos tempo ocupou o cargo. Sua memória seria esquecida com o tempo. 

Em algum lugar dos planos superiores ele e Dama tomavam chá e sorriam naquele momento.

Ana Bela

Um objeto humanoide feito de plástico injetado e materiais sintéticos terminou de ser fabricado numa manhã de agosto em um grande galpão industrial onde se fabricavam materiais adequados ao divertimento de jovens seres humanos.

Com a forma que lembrava uma jovem fêmea da espécie humana, o objeto inanimado tinha quinze centímetros de altura e zero consciência sobre a sua existência. Ele havia terminado de ser fabricado quase no final do expediente daquela fábrica, o que fez com que ficasse parado em uma estrutura conhecida por “esteira” durante toda a noite.

Naquela noite o humano do sexo masculino que havia sido designado para guardar o galpão industrial onde se encontrava o objeto inanimado morreu do que um médico designaria depois como “causas naturais”.

O objeto inanimado não teve consciência disso porque era, é claro, inanimado. 

Na manhã seguinte, o objeto inanimado foi colocado em uma caixa com a frente transparente. A funcionária humana responsável por essa tarefa repetitiva perdera o seu pai poucos dias antes, e a saudade pesava tanto em seu peito que às vezes a impedia de respirar.

O objeto inanimado não se importou com nada disso porque era, como sabemos, inanimado.

Um grande  transporte sobre rodas levou o objeto inanimado por centenas de quilômetros por uma estrada em péssimas condições de preservação. O humano que dirigia o transporte morreria num banheiro de uma parada de caminhões uma semana após cumprir essa tarefa rotineira.

O objeto inanimado não ficou feliz com a morte do caminhoneiro porque era inanimado, e não tinha sentimentos. 

Depois de um tempo indeterminado, mas não muito longo, num grande galpão escuro e poeirento, o objeto inanimado foi levado num pequeno transporte sobre rodas e exposto em uma grande construção iluminada que se destinava a vender objetos de entretenimento para seres humanos ainda não amadurecidos. 

O jovem humano em fase pré-adulta que foi responsável por colocar o objeto inanimado no seu lugar de exposição foi picado por um carrapato no final de semana seguinte, o que o fez desenvolver doença de Lyme e sofrer de dores articulares pelo resto da sua vida, que não foi longa e muito menos feliz. 

O objeto inanimado não ficou com pena do adolescente, porque era incapaz de ter empatia por ser um simples objeto inanimado. 

Alguns ciclos de dia-noite depois, um espécime humano do sexo masculino com duas décadas e meia de existência adquiriu o objeto humanoide. Ele fez isso na antevéspera de uma grande festividade comemorada pelos adeptos de uma crença religiosa que acreditava que o ser que veneravam havia nascido no vigésimo quinto dia do último mês do seu calendário.

Até então o objeto humanoide feito de plástico continuava totalmente ignorante da sua própria existência, assim como do mundo ao seu redor.

Embalada em papel vermelho brilhante, a caixa que continha o objeto humanoide de quinze centímetros de altura foi entregue na manhã da grande festividade a uma jovem fêmea humana de cinco anos, um metro de altura e dezesseis quilos de peso. 

A jovem humana alegrou-se imensamente ao receber o objeto inanimado. De seus canais lacrimais verteram líquidos compostos em grande parte de água, mas com a presença de cloreto de sódio que lhe dava um característico gosto salgado, fato que seus progenitores consideraram, acertadamente, um sinal de felicidade. 

O objeto inanimado foi nomeado pela jovem humana de “Ana Bela” e participou de vários folguedos promovidos por ela em conjunto com outros objetos inanimados que ela já possuía, humanoides ou não. 

Agora nomeada Ana Bela, o objeto inanimado continuava totalmente alheio ao seu nome, à sua existência e à felicidade que proporcionava à jovem humana toda vez que era por ela manipulada.

Levada pela jovem humana até uma dependência especial na construção que seus pais chamavam “quarto de dormir”, Ana Bela foi depositada em um móvel macio e de formato retangular que servia para repousar ou dormir, onde passou o período que os humanos chamavam de noite dividindo o espaço com ela.

Até esse momento, Ana Bela não fazia ideia de que existia ou da diferença entre o dia e a noite.

Naquela noite em particular, uma colossal precipitação de chuva, acompanhada por uma abundante quantidade de fenômenos elétricos nomeados “relâmpagos”, atingiu a construção em que se encontravam Ana Bela, a jovem humana, seus progenitores e um animal de pequeno porte, quadrúpede e de pelagem branca e preta que havia recebido o nome de “Frajola”.

Por motivos que até esse narrador quase onisciente desconhece, naquela madrugada, espremida entre o corpo da humana de cinco anos e uma parede, Ana bela tornou-se consciente da sua própria existência. 

Em outras palavras, Ana Bela agora não era mais um objeto inanimado. Ela estava viva.

Isso surpreendeu muito Ana Bela, que ficou ainda mais estupefata ao perceber que ela tinha memórias desde o momento em que fora terminada na esteira da fábrica. 

E, ao tentar se mover, Ana Bela teve a última boa surpresa da noite, mas não a menos importante: agora ela podia se movimentar livremente sem depender dos caprichos da jovem humana.

Mas nem todas as surpresas foram boas naquela madrugada chuvosa. Ao andar pelo recinto, Ana Bela percebeu, não sem pesar, que os outros objetos inanimados naquele local não eram conscientes como ela. Nem os objetos humanoides parecidos com ela, nem os que eram como animais ou a outros objetos que ela desconhecia.

Um novo sentimento surgiu em Ana Bela, um que ela não gostou: tristeza. Ana Bela não queria estar triste. Ela se dirigiu até o objeto chamado cama e se aninhou ao lado da humana de cinco anos, esperando que isso a fizesse feliz como fazia à menina.

Não funcionou. Ana Bela detestava estar triste. Ela precisava fazer algo. 

Na manhã seguinte o animal quadrúpede nomeado Frajola levantou-se da sua cama, espreguiçou-se, e se pôs a emitir sons que os humanos chamavam “miado”. Não obtendo resposta, o intrépido felino aumentou o volume do seu miado e se dirigiu ao segundo andar da casa, onde os humanos costumavam passar o período sem luz solar que denominavam “noite”.

Frajola ainda estava na escada quando sentiu um cheiro que fez os apêndices que ele possuía no focinho chamado “bigodes” se eriçarem. Ele deu meia volta e conseguiu sair por uma fresta da janela da cozinha. Nunca mais foi visto por qualquer um que sabia que ele existia.

A porta daquela residência que outrora fora um lugar feliz foi arrombada algumas horas depois por homens uniformizados. Mais homens e mulheres uniformizados chegaram, em carros brancos com luzes piscantes em cima. Em um dado momento, três sacos de material sintético foram retirados da casa, com três corpos humanos mortos dentro.

Ninguém deu falta de Ana Bela, porque ninguém sabia que ela existia.

O que aconteceu depois com Ana Bela, nem esse narrador quase onisciente sabe. Demônios supostamente bem informados dizem que ela vaga pelo mundo procurando a fábrica onde foi construída para se vingar dos seus criadores. Anjos tagarelas afirmam com certeza que ela se arrependeu do que fez e se auto imolou numa fogueira. 

Mas os poucos humanos que souberam da história de Ana Bela através dos anjos, que são bem loquazes, narram que Ana Bela se transformou novamente em um objeto inanimado feito de plástico e materiais sintéticos e que ela passa de família para família, só podendo voltar à vida se receber o nome de Ana Bela novamente. 

A dengue zumbi

Astolfo era um homem de meia idade. Isso pode significar muitas coisas. No caso dele, significava que o cabelo diminuía na mesma proporção que a barriga crescia e que ele tinha cada vez menos paciência com os mais jovens.

Ele morava num país tropical que a cada verão era assolado por epidemias de doenças que já não deveriam mais existir. No verão daquele ano, no começo de dezembro, Astolfo adoeceu. Para seu azar, e de muitas pessoas depois, ele adoeceu duplamente.

Em seu sangue um vírus da dengue se encontrou com um vírus da zika e os dois se deram muito bem e saíram juntos para infectar a mesma célula sanguínea. Quebrando uma dúzia de regras da biologia que os vírus e até o próprio Astolfo ignoravam, esses vírus deixaram descendentes que combinavam a transmissibilidade da dengue com a habilidade do zika de quebrar a barreira sangue-cérebro. E mais, por um erro na hora de uma das proteínas se dobrarem durante a reprodução, esses descendentes ganharam uma nova habilidade: a de controlar os seus hospedeiros.

Foi no sangue de Astolfo que surgiu o que seria conhecido com dengue zumbi.

As pessoas tem uma ideia errada sobre zumbinismo. Acham que zumbis são mortos-vivos lentos e estúpidos que gostam de comer cérebros. Mas um zumbi nada mais é do que alguém ou algo que é controlado por outro alguém ou algo. Feiticeiros em certas ilhas do Caribe já conseguiam fazer isso a muitos séculos atrás com o uso de uma certa planta que hoje caiu nas brumas do esquecimento.

Mas, voltemos ao Astolfo. Conforme o número de vírus aumentava em sua corrente sanguínea e migravam para seu cérebro, o comportamento dele foi ficando cada vez mais esquisito, o que era bem, digamos, esquisito, porque Astolfo era um sujeito bem normal, alguns diriam que até sem graça.

Cerca de uma semana depois que aqueles dois vírus se encontraram, Astolfo faltou ao trabalho pela primeira vez em dez anos. Ele foi encontrado seminu numa esquina movimentada da pequena cidade onde morava. Seu corpo exalava um cheiro metálico e ele estava cercado por um grande número de mosquitos. Quando a polícia tentou retirar ele do local, Astolfo reagiu violentamente. Levado ao hospital a força, tentaram sedá-lo com Diazepan sem sucesso. Apelaram para o Propofol, igualmente mal sucedido. Sem opções, a equipe médica tentou até fazê-lo dormir com palestras do Leandro Karnal, mas também não surtiu efeito.

Astolfo passou três dias esmurrando a porta do quarto de isolamento em que havia sido colocado, até que morreu de exaustão.

Ninguém retirou o seu corpo do quarto, porque metade da equipe médica e de enfermagem do hospital estava em casa doente.

—-

Beatriz nasceu numa família privilegiada. Dizer que ela nasceu em berço de ouro seria um exagero, mas ela veio ao mundo numa bem equipada maternidade particular. Teve uma infância rica em experiências gratificantes, apesar do pai emocionalmente distante. Quando chegou ao final da adolescência ela entrou na faculdade de enfermagem, apesar dos protestos dos pais para que ela fizesse medicina. Apesar disso, ela ganhou um carro de presente.

A faculdade também foi um período cheio de experiências gratificantes, apesar dela não ter gostado muito de fumar maconha. Ao se formar com louvor, Beatriz emendou um mestrado em enfermagem de urgência e emergência. Enquanto se dedicava aos estudos, passou a trabalhar no hospital da sua pequena cidade, para ganhar experiência.

Numa manhã de dezembro ela estava na equipe que atendeu um homem que chegou ao hospital contido por algemas. O homem estava só de cuecas e exalava um cheiro horrível, que a lembrou o cheiro de sangue. O fedor parecia atrair muitos mosquitos, que voavam ao lado dele como uma nuvem, aumentando cada vez mais.

Tentaram sedá-lo de várias formas, mas sem sucesso. O homem ficava cada vez mais agitado, ferindo a si próprio e atacando a equipe. Por fim o colocaram num quarto do isolamento. Quando ela terminou o seu turno ele ainda estava lá, esmurrando a porta.

Chegando em casa disposta a tomar um bom banho depois do dia exaustivo, Beatriz reparou que tinha sido picada por vários mosquitos. Tomou seu banho refrescante, passou uma pomada nas feridas das picadas que coçavam e foi assistir Netflix com uma taça de vinho enquanto aguardava o delivery chegar.

Dez dias depois Beatriz morreu amarrada numa maca, os braços e pernas feridos do esforço que ela fez por dias para se libertar.

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Carlos Alberto era vendedor numa loja de sapatos. Não era o emprego que tinha sonhado – ele era formado em educação física – mas pagava as contas e até dava para tirar um bom dinheiro no mês em que as comissões eram boas.

Ele precisava de cada centavo extra. Tinha se casado com seu amor da adolescência, Débora, secretária numa das poucas indústrias locais. Eles tiveram um filho, Emanuel. Eram uma pequena, mas quase feliz família.

O jovem casal estava comemorando a promoção de Débora no emprego – o que traria uma bem-vinda renda extra – quando surgiu a notícia de um lockdown em virtude de uma nova variante do vírus da dengue. Carlos Alberto tinha ouvido uns boatos sobre pessoas morrendo no hospital local de uma doença misteriosa, mas não tinha dado muito crédito. As pessoas no interior são muito fofoqueiras.

Depois do segundo mês de lockdown, a loja de sapatos em que Carlos Alberto trabalhava fechou as portas. Ele não precisou ser demitido, pois havia morrido no mês anterior, isolado num ginásio de esportes, junto com centenas de outros.

Quando o corpo de Carlos Alberto foi retirado para a cremação, estava abraçado a uma mulher. Era Débora.

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Fernanda estava no ápice da sua carreira política. Na sua terceira tentativa tinha conseguido se eleger vereadora. Sua votação foi expressiva e ela ganhou um cargo de segunda secretária na mesa diretora da câmara.

Era o auge de uma vida que não tinha sido nada fácil, marcada por pais abusivos, maridos igualmente e amargos divórcios. Fernanda tinha tudo para ser uma boa política, pois era honesta e sabia das dificuldades que as pessoas mais pobres sofriam.

O corpo de Fernanda foi para o crematório número dois no final de janeiro.

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Gilson era um contador balzaquiano. Ele morreu com um tiro na testa quando tentou fugir do isolamento no ginásio de esportes.

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Humberto tinha sido um comerciante de sucesso até que tentou atropelar os soldados do exército que faziam o isolamento da cidade. Eles reagiram e descarregaram os pentes das suas armas.

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Inês era uma bem informada jornalista que saiu da cidade antes do isolamento começar. Foi morar com uns parentes de quem ela não gostava muito na cidade vizinha.

Seu corpo foi enterrado na cova coletiva número cinco.

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João era capitão do exército. Quando desenvolveu os primeiros sintomas de dengue, procurou o médico do batalhão. Ele foi gentilmente levado até o hospital de campanha. Uma enfermeira sorridente lhe deu uma injeção.

João morreu com uma expressão de paz no rosto.

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Luísa estava na fila para pegar a sua ração de comida diária – que estava cada vez menor – quando passou pela checagem de temperatura. O soldado que fez a medição virou para o lado e fez um sinal negativo com o dedo.

Ela também tomou uma injeção dada por uma enfermeira sorridente.

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Marisa matou três soldados do exército com sua espingarda antes de ser abatida por cinco balas.

Seu filho Noel foi levado pelos soldados para o campo de concentração número dois. O vento espalhou as cinzas do que um dia tinha sido ele no final de março.

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Onofre se enforcou no campo de concentração número cinco em abril.

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Paula checou a sua temperatura e ela estava alta pelo segundo dia seguido. Ela passou a madrugada escrevendo uma longa carta de despedida para sua esposa Quitéria, que não via a meses, desde que ela fora trabalhar para a equipe do isolamento. Na manhã seguinte ela se apresentou no centro de triagem.

Elas entraram na câmara de gás de mãos dadas.

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Rodrigo matou três zumbis até esgotar a munição da sua arma. Se virou para fugir, mas foi lento demais.

Os pedaços do seu corpo nunca foram enterrados.

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Sueli pediu para morrer segurando a foto do seu filho Tácio.

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Uriel implorou para que os guardas o deixassem fugir. Ofereceu joias, dinheiro e, por fim, o próprio corpo. Um soldado o levou para detrás de um barracão.

Só o soldado voltou.

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Vicente só tinha nove anos quando foi levado para um lugar apertado cheio de outras crianças que choravam. Vicente não chorava. Ele era um homem forte, tinha prometido para a mãe que não ia chorar.

A última coisa que Vicente viu foi um gás esquisito saindo de uns chuveiros no teto.

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Xerxes deu a ordem do dia para seus soldados, recebeu as continências dos seus subordinados, assinou uns papéis e se trancou no seu escritório.

Meia hora depois escutaram um barulho de tiro.

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Eu, Zacarias, professor de formação, historiador do apocalipse ad hoc, escrevi esse relato para que aqueles que sobreviverem saibam como foi a dengue zumbi.

Hoje é o segundo dia que tenho febre acima de quarenta graus.

O supermercado amaldiçoado

Parei bem em frente a decrépita construção. Sai do ar condicionado do carro direto para o calor sufocante do final de julho. Malditas mudanças climáticas. Eu sentia falta do frio de julho.

A fachada estava em pior estado do que me lembrava da última vez que tinha passado por ali. As letras há muito já tinham sido apagadas, mas eu me lembrava muito bem do que funcionava ali.

Eu tinha estado ali com a minha mãe quarenta anos antes quando inauguram – ou reinauguraram, não lembro bem – o supermercado que ia “revolucionar o varejo” na cidade. Eu tinha odiado aquilo tudo, pois nunca tinha gostado de aglomerações. Até discurso do prefeito – ou era prefeita? – eu lembro de ter presenciado.

E agora, depois de quatro décadas eu estava ali, engenheiro formado, sócio da minha própria empresa, para demolir aquele prédio para a construção do Monumento à Gloriosa Revolução de 22. Era a maior empreitada que minha firma já tinha conseguido. Íamos ganhar muito dinheiro ali.

Meu sócio Luciano tinha chegado antes, dava para perceber pela picape vermelha dele logo ao lado. Enxerguei uma figura corpulenta vindo do lado sul. Era Leandro, nosso melhor mestre de obras. Ele suava em bicas, mas pelo menos estava de capacete. Ajustei o meu e me dirigi até ele.

-Onde estão todos? – perguntei.

-Ali examinando a parede sul, senhor. Seu Luciano perguntou do senhor…

-Eu tô atrasado, eu sei, resmunguei. Vamos lá acabar logo com isso.

Nos dirigimos até lá e não havia ninguém.

Não havia ninguém em lugar nenhum.

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Após o desaparecimento do meu sócio e dois funcionários eu assumi sozinho a condução da firma. Me recusei a continuar o trabalho de demolição do supermercado. A multa foi pesada. A empresa não suportou. Fechamos em menos de um ano.

Perdi quase todo o meu patrimônio para cobrir a indenização. Tive que aceitar um emprego na empresa do meu maior concorrente. Ele me colocou numa posição subalterna, fazendo cálculos estruturais.

Eu odeio cálculos estruturais.

Meu casamento foi para o ralo junto com o dinheiro. Minha esposa Laura pediu a separação e levou nossos gêmeos Luan e Lauã para morar com os pais. Eu não posso mais vê-los.

Passei a beber muito. Fui internado compulsoriamente algumas vezes. Agora não bebo mais e melhorei bastante, só injeto drogas na pálpebras aos finais de semana e feriados.

Eu sabia de quem era a culpa disso tudo. Ou melhor, do que. Do supermercado amaldiçoado.

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Depois de anos de pesquisa eu sabia o que tinha acontecido.

A cada dez anos, três pessoas desapareciam no supermercado amaldiçoado.

Era sempre na mesma data. Vinte e oito de julho. E sempre no mesmo local. No estacionamento ao lado da parede sul.

Tinha sido nessa data, me dizia o recorte digitalizado do Jornal Destaque, que o supermercado havia fechado as portas. A nota era breve e citava a “crise econômica” depois da Gloriosa Revolução de 22 como a causa. Era um jornal reacionário, estava claro. Por isso tinha sido extinto pouco tempo depois.

Exatos dez anos depois, de acordo com a versão arquivada do “Portal OCNet Revolucionário” uma mulher e seus dois filhos desapareceram quando passavam pelo estacionamento do lado sul. Elas estavam a caminho de um jogo de futebol no estádio e tinham passado por lá para cortar caminho. O caso nunca havia sido solucionado pela Brigada Revolucionária. Um ex-marido violento havia sido o principal suspeito, mas não havia provas contra ele.

Mais dez anos se passaram e três garotos que jogavam rúgbi no estacionamento sul desapareceram sem deixar rastros. A reportagem digital do jornal estatal Granma tinha fotos dos três e um breve histórico. Edições posteriores apontaram o filho de um proeminente político de uma família outrora poderosa como o sequestrador das crianças. Encontraram em seu Ipad 45 contrabandeado uma grande quantidade de fotos de pedofilia. Mas não havia nada que o ligasse às crianças. Ele foi condenado só pela posse de imagens pedófilas e executado na praça da Matriz um mês depois.

O terceiro desaparecimento foi o do meu sócio e nossos dois empregados. Eu, é claro, fui o principal suspeito, mas a Brigada Revolucionária não encontrou nada contra mim. Fui inocentado, apesar do perfil pouco elogioso que o Granma fizera sobre mim, usando palavras como “antissocial” e “exótico” para me descrever.

O padrão era claro. Três desaparecimentos no estacionamento sul, na mesma data, com dez anos entre eles. Tinha que haver uma ligação. Tentei argumentar com a Brigada Revolucionária. Tudo o que consegui foi uma internação compulsória de seis meses num campo de reeducação revolucionária.

Eu tinha estado muitas vezes naquele estacionamento. A única coisa diferente que encontrei foi uma pequena marca na base de um dos pilares da parede sul. Tentei fotografá-la, mas as fotos sempre ficavam borradas. A copiei o melhor que pude e fiz pesquisas. Tinha algo a ver com demônios de antigas civilizações do oriente médio.

Eu estava convicto. Aquele supermercado era amaldiçoado. E cabia a mim destruí-lo.

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Não tinha sido difícil desviar explosivos C4 do trabalho. Eles confiavam em mim, afinal. Não tinha o suficiente para demolir o prédio todo, mas não precisava. Bastava destruir a parede sul, onde a marca demoníaca estava. O resto poderia ser demolido depois que a maldição se fosse. Quem sabe eles finalmente construíssem o grande Monumento à Gloriosa Revolução de 22. A cidade ia me agradecer depois.

Eu só precisava de uma noite de lua cheia, de uma maneira de neutralizar o vigilante e que meus cálculos estivessem corretos.

O mais difícil foi neutralizar o vigilante. Tive que matá-lo, é claro. Arrastei seu corpo para longe de onde eu esperava que os destroços iam cair. Ele merecia um enterro digno.

Coloquei os explosivos nos pilares que eu julgava os corretos. Eu não tinha muitos explosivos e pouco tempo para colocá-los. Fiz o melhor que pude. Puxei os fios dos detonadores.

Respirei fundo e apertei o botão.

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Acabaram não construindo o Monumento à Gloriosa Revolução de 22 no local. Preferiram deixar somente o pilar que tinha sobrado intacto e remover todo o resto.

O pilar que tinha a marca demoníaca. Ele não tinha sido destruído.

Cercaram o local e colocaram uma placa com o nome das dez vítimas. Os nove desaparecidos e o vigilante que eu matei.

Meu nome não está lá, apesar de eu também ter morrido quando uma parede desabou na minha cabeça.

Proclamaram uma damnatio memoriae sobre mim. Todos os meus registros foram apagados dos computadores estatais e meus filhos tiveram o meu sobrenome retirado. É como se eu nunca tivesse existido.

A cada dez anos o demônio que nos tortura permite que nossos fantasmas apareçam no local. Os outros fantasmas não gostam de mim. Principalmente meu ex-sócio Luciano.

-Você tinha que ter colocado mais explosivos na seção central, seu idiota! – foi a última coisa que ele me disse, uns setenta anos atrás.

Eu sou um proscrito, tanto no mundo dos vivos, como no dos mortos.

Nada disso teria acontecido se eu fosse bom em cálculos estruturais.

O silêncio

15 de dezembro

Foi o silêncio que me fez perceber que algo errado estava acontecendo.

Minhas manhãs sempre começavam com o barulho do trânsito e do posto de gasolina em frente a minha casa, que tinha sido somado ao nada agradável barulho de uma obra grande logo ao lado.

Mas, naquela manhã, não havia barulho nenhum.

Levantei tropego, e enquanto jogava água no rosto pensei que talvez pudesse ser feriado.

Ainda era dia quinze. Não podia ser feriado.

Fui até a janela da sala. Nenhum movimento lá fora, nenhum frentista no posto, nenhum carro passando. Estranho.

E aquele silêncio todo estava me incomodando.

Peguei o celular, pensando que talvez tivessem decretado algum feriado e eu não sabia. A internet não funcionava. Nem wi-fi, nem dados móveis. Nada.

Bem, vamos fazer do jeito antigo, pensei. Vou na padaria da esquina. Lá, com certeza, vão saber o que aconteceu.

Me vesti rapidamente e sai. Lá fora a sensação de que tudo estava silencioso demais foi amplificada. Caminhei um pouco. A padaria estava fechada.

Fiquei ali, apalermado, olhando para aquelas portas fechadas, até que um barulho me despertou do meu transe.

Uma moto, dirigida por uma mulher, subia a avenida Brasil e parou no semáforo. Ela me viu e veio em minha direção.

Tirou o capacete rapidamente, bagunçando a cabeleira ruiva.

-Mas que porra tá acontecendo? – ela disse.

Eu gostaria de saber também.

17 de dezembro

– Senta aí, pega um pedaço de torta, está bem boa – sorriu para mim o homem que havia se apresentado como Adalberto, já se servindo de um pedaço.

Ele era baixo, atarracado e forte, e estava vestido extravagantemente. As roupas simplesmente não combinavam, como se ele tivesse se jogado num guarda roupa e saído de lá vestido.

Sentamos, Alice e eu. Ela se serviu de um pedaço de torta quase que imediatamente. Eu estava mais interessado em informações do que em comida.

– Desde quando vocês estão aqui?

– Desde o dia em que a..hã…coisa, aconteceu. Eu moro, ou morava, ali no Bergamaschi. Caminhei até aqui e pensei, porque não entrar? Eu tava com fome, e nunca tinha entrado aqui…

O cara comia de boca aberta. Não era uma cena bonita de se ver. Me virei para a mulher que o acompanhava, que tinha dito se chamar Amanda.

– E você?

Ela sorveu um gole de suco antes de responder. Tinha maneiras mais elegantes do que Adalberto. Era a mais alta de nós quatro, magra, cabelo pintado de loiro, mas com as raízes aparecendo.

– Eu moro ali perto do Conjunto Esportivo. Quando a coisa aconteceu eu subi o pontilhão da Magay e encontrei o Adalberto vindo perto do Estádio.

Uma história parecida com a minha e da Alice. Peguei um pão de queijo.

-E você, professor? Onde vocês estão?

Eu tinha dito a Adalberto que trabalhava numa escola e agora ele achava que eu era professor. Achei melhor não corrigir.

-Estamos na minha casa, ali na esquina do pontilhão da Taves. Encontrei a Alice na esquina da Brasil no dia que a… coisa, aconteceu.

-Bem, vocês podem ficar aqui agora. O Angatu Hotel é todo nosso – e ele fez um gesto que abarcava todo o entorno.

-Suponho que seja melhor ficarmos todos juntos sim – disse eu, pensativo. Deveríamos procurar mais sobreviventes – acrescentei.

-Também acho, replicou Adalberto. Mas temos que nos prevenir. Vocês estão armados?

Eu e Alice arregalamos os olhos.

– Ora, professor – sorriu Adalberto, enquanto tirava um revólver da cinta. Nós não sabemos quem pode ter sobrevivido, né? Eu e Amanda demos uma passadinha ali perto da Etec. E sorriu.

Não gostei do sorriso dele.

20 de dezembro

Com a chegada de Agnes agora o nosso grupo tinha oito pessoas.

A tínhamos encontrado ajoelhada em frente do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, rezando. Ela estava fraca e abatida. Se recusava a roubar comida dos vizinhos, mesmo sabendo que não tinha ninguém lá. Estava sobrevivendo de bolachas que tinha em casa. A muito custo conseguimos levá-la para o hotel.

Ela foi recebida com festa pelos outros, principalmente por Alexandre, o mais jovem de nós.

-Ela parece a minha vó – disse ele, simplesmente.

Alexandre tinha sido encontrado na Avenida Brasil. Tinha arrombado a Casa Aliança e estava se refastelando com iogurtes. Chorou quando nos viu e contou que tinha treze anos e morava num sítio no bairro do Perdido. Tinha uma história igual a nossa: ao acordar pela manhã todos haviam desaparecido, até os animais de criação. Menos o seu gato, o Perebas, que ele trazia no colo. Tinha vindo à cidade em busca de comida.

O desaparecimento dos animais batia com o que vimos na cidade. Nenhum gato, nenhum cachorro, não havíamos encontrado nada, nem uma mísera maritaca. Alice jurava ter sido picada por um Aedes Egypti uns dias antes, mas achei que ela estava imaginando coisas.

Complementavam o nosso grupo André e Adriana. Ele tinha sido encontrado no Posto Bandeiras e morava ali por perto. Tinha arrombado o Supermercado Vitória e foi assim que percebemos que tinha alguém por ali. Ele estava em forma, era professor de educação física. Falante e animado, ele estava sempre disposto a fazer o que lhe pediam.

Igual animo não tinha Adriana. Ela morava no Jardim Paraíso e a encontramos vagando próxima ao Fórum. Roupas sujas, o cabelo comprido desgrenhado e os pés feridos por andar sem calçado. Estava claramente em choque, não falava com coerência. Veio pacificamente com a gente e melhorara nos dias seguintes, mas falava pouco e demonstra estar muito abatida.

Tínhamos esquadrinhado a cidade toda em carros que pegamos no Santa Mônica. Adalberto pareceu gostar demais da tarefa. Escolheu um belo SUV branco de uma marca japonesa. Alice tinha se contentando com um modelo alemão. Eu não dirigia, então fazia companhia a ela durante as expedições de busca. Amanda ficava no hotel, coordenando tudo com walkies talkies que tínhamos roubado da Tabacaria do Povo. Adalberto tinha insistido em levar algumas armas também. Eu concordei.

Era isso. Oito pessoas, quatro homens e quatro mulheres, um gato e um mosquito da dengue. Era tudo o que tinha restado de uma cidade de trinta mil habitantes.

Enquanto os outros acolhiam Agnes eu sai para tomar um ar. Estava reflexivo e angustiado. O que for que tivesse acontecido, tinha sido muito grave. Será que haveria sobreviventes em outras cidades? Podíamos esperar pelo menos um número igual de pessoas em Adamantina, que tinha quase o mesmo tamanho daqui. Será que a “coisa” tinha sido igual em todos os lugares?

Fiz uma conta rápida de cabeça. Se a “coisa” tivesse atingido todos os lugares da mesma forma, em Presidente Prudente teriam sobrado umas sessenta pessoas. Será que elas tinham se encontrado, como nós? Estariam se dando bem? Seriam boas pessoas?

Dividi meus pensamentos com Adalberto depois do jantar, enquanto tomávamos um vinho. A refeição tinha sido agradável. Todos ficaram animados pela chegada de Agnes. Até Adriana saiu do quarto e pareceu estar um pouco mais animada. Agora que estava limpa tinha se revelado uma bela mulher, com profundos olhos negros e um rosto bonito.

Adalberto me ouviu pensativo. E depois concordou comigo. Mas a conclusão que ele chegou não me agradou.

-Temos que armar todos e ensiná-los a atirar. Menos a Agnes, ela mal consegue segurar uma colher. Se existem outros grupos de sobreviventes em outras cidades, eles podem vir até aqui e querer tomar o que é nosso. Temos que estar preparados para resistir.

-Mas porque eles fariam isso? – retruquei.

-Não sei. Mas é o que eu faria. Exploraria outras cidades, e tomaria seus recursos.

-Mas não podemos viver todos juntos em harmonia?

Adalberto riu.

-Não estamos num romance, professor. Na vida real as coisas não funcionam assim.

Fiquei com vontade de perguntar que experiência ele tinha para dizer isso. Estávamos numa situação que nenhum de nós tinha vivenciado antes. Mas me calei e resolvi fazer o jogo dele.

-Se o que você diz acontecer, estamos numa posição estratégica ruim. Esse hotel é muito aberto. Ruim de defender – disse, como se entendesse alguma coisa do assunto.

-Você tem razão. Acho que deveríamos nos mudar para o Edifício Saint Moritz. É perto e fácil de defender.

E mais uma vez não gostei do sorriso dele.

25 de dezembro

Foram Amanda e Alice que haviam insistido em fazer uma ceia de Natal. Ia servir para animar o pessoal e também como despedida do hotel. Havíamos chegado num consenso e nos mudaríamos para o Edifico Saint Moritz.

De manhã as quatro mulheres tinham saído juntas, até Adriana, agora bem mais animada, e voltado com sacolas, vestidos, sapatos e maquiagem. Claro que tinham arrombado alguma loja. Mais de uma, provavelmente. Estavam preparando uma super produção. Olhei para as minhas roupas. Tinha trazido algumas de casa, nada adequado para uma festa. André me chamou para “fazer compras” também. Levamos Alexandre conosco, e o garoto estava empolgado. Só Adalberto não estava a vista. Ele havia saído de carro de manhã sem dizer nada a ninguém. Talvez estivesse “comprando” também.

Escolhi uma calça de risca de giz. Sempre achei essas calças elegantes. Talvez fosse brega, não sei. Peguei um sapato de bico quadrado, mas levei alguns tênis também, os meus estavam em péssimo estado. Fiquei olhando para o meu pé calçado com um tênis de uma famosa marca americana. Pela etiqueta, aquele tênis custava metade do meu salário. Era surreal.

Peguei umas camisas sociais e dei minhas “compras” como encerradas. Alexandre provava um tênis após o outro, sem saber qual escolher. Acabou levando dois daquela marca alemã, além de calça e camisa.

André entrou no carro carregado de sacolas. Tinha “comprado” muita coisa. Ele estava claramente tentando impressionar Adriana. Agora que estava mais animada ela parecia corresponder às investidas dele. Tinha visto os dois se despedirem com um beijo depois do jantar na noite anterior. Podia jurar que tinha ouvido a porta do quarto dela se abrir depois que todos tínhamos deitado. Talvez isso justificasse o bom humor matinal dela. Que pensamento mais machista, disse para mim mesmo. Mas foi o que me pareceu.

A formação de casais tinha sido algo natural. Adalberto e Amanda estavam juntos e não escondiam de ninguém. Dormiam no mesmo quarto e trocavam beijos de língua e tapinhas na bunda em público. Eu e Alice éramos mais discretos nas demonstrações públicas de afeto, mas não escondíamos de ninguém que também estávamos dormindo juntos.

Eu tinha lido em algum lugar que eram necessários dez mil seres humanos para preservar a continuidade da espécie, por causa daquelas coisas complicadas de genes recessivos e mutações. Bem, Osvaldo Cruz estava contribuindo com três casais até agora.

-Agora vamos aos presentes ! – André me tirou do meu devaneio. Sim, ainda tinha os presentes, havíamos combinado isso. Alexandre bateu palmas.

Seria uma longa manhã.

26 de dezembro

Acordei de ressaca. Eu não estava acostumado a beber tanto. Na verdade, antes da “coisa”, eu não costumava beber era nada. Era um bebedor iniciante.

Ao meu lado na cama Alice roncava e babava. Tinha me surpreendido ao chegar para a ceia com um belo vestido vermelho e sapatos da mesma cor, além de um colar enorme. Mal tinha se sentado e se serviu de um prato que alimentaria três pedreiros famintos. Essa era a minha garota. Elegante e faminta.

A ceia de Natal foi animada e aconchegante. Pela primeira vez todos pareciam bem. Havia comida de sobra graças ao Supermercado Faciliti. Três perus, carne de porco, lasanha, macarrão, arroz – sem passas, graças aos deuses – maionese, salpicão, muito vinho, champanhe e uísque.

Eu lembrava de flashes do que tinha acontecido. Lembrei de ter ganho uma gravata e uma carteira.

Minha cabeça latejava. Levantei, ainda meio tonto. Ao chegar no corredor senti cheiro de café e percebi o som da chuva. Não estava chovendo ontem. Não tinha chovido nenhum dia depois da “coisa”, pelo que eu me lembrava.

Cheguei na cozinha e André estava lá, comendo os restos da ceia avidamente. Ele tinha bebido pouco na ceia, estava claro pela forma esfuziante que ele me cumprimentou. Resmunguei um bom dia e me servi de um xícara grande de café. Depois do primeiro gole minha alma voltou ao corpo e conseguir pensar com coerência.

-Essa chuva vai estragar a nossa mudança… – comecei.

André deu de ombros.

– Não precisamos nos apressar, o prédio não vai sair correndo de lá – disse, debochado.

Ele estava com um sorriso de quem tinha transado na noite anterior. Eu e Alice tínhamos transado? Não me lembro. Será que devo perguntar ou seria indelicado?

Uma rajada de vento mais forte balançou a janela e me tirou dos meus pensamentos. A luz piscou. Depois, mais uma vez.

– A energia está assim desde que eu acordei – disse André, despreocupado.

– Se cair algum fio nós…

– Vamos ficar sem energia porque ninguém aqui é eletricista – completou a minha fala Adalberto, entrando na cozinha. Bom dia.

Adalberto tinha sido uma das sensações da ceia. Chegou vestido num terno verde, com calças e sapatos da mesma cor. Não faço a mínima ideia de onde ele conseguiu aquilo, nem sabia que vendiam coisas assim aqui na cidade. Bebeu quantidades cavalares de uísque com soda. A última coisa que me lembro dele era se agarrando com Amanda.

-Sim, é verdade – concordei, enquanto Adalberto sentava e se servia. Isso pode ser um problema – comecei.

-Esse hotel tem gerador? – perguntou André.

Ele mal havia acabado de falar quando a energia acabou de novo.

07 de janeiro

E então parou de chover.

Tinha chovido sem tréguas desde depois do Natal. A energia oscilou muito. Perto da virada do ano ficamos quatro dias no escuro.

Toda a comida perecível estragou. A era dos belos bifes suculentos, dos perus e frangos ficara para trás. Agora comíamos arroz, feijão e macarrão. A chuva tinha estragado as verduras nos sítios onde nos abastecíamos também. Nem salada tínhamos.

Quando ficou claro que a energia não voltaria, ou demoraria a voltar, Adalberto e André organizaram uma verdadeira operação de guerra. Foram em todos os mercados disponíveis e trouxeram os perecíveis que puderam encontrar. Colocaram tudo em isopores com o gelo disponível. Foi uma solução paliativa. Mesmo assim, muita coisa estragou.

Agora a energia estava de volta. Como? Ninguém sabia. Algum sistema automático. Algum sobrevivente eletricista em algum ponto da rede a reparara. Ninguém sabia. Ninguém se importava. Tarde demais para a nossa comida, pensei amargamente.

A moral do grupo estava baixa. Estavam todos irritados e tristes, mas eu esperava que a parada da chuva animasse a todos.

Contribuíra muito para o acabrunhamento do grupo a postura de Agnes. A idosa senhora não parava de repetir que estávamos sofrendo um castigo divino, que depois do arrebatamento vinha o diluvio e que nós tínhamos que nos arrepender dos nossos pecados se quiséssemos ser poupados das torturas do inferno.

Mesmo debaixo de chuva Agnes saia todos os dias para rezar no Santuário Nossa Senhora Aparecida. Quando Amanda expressou preocupação, Adalberto disse sardonicamente que devia deixar ela ir. “Quem sabe ela pega um pneumonia e morre” e deu uma das suas risadas desagradáveis.

Naquele primeiro dia sem chuva ela saiu pela manhã e Adalberto aproveitou para convocar uma reunião com nós sete.

-Vamos organizar uma expedição até Parapuã para procurar comida fresca – começou ele, olhando para André.

André tinha se tornado o braço direito de Adalberto. Com os votos dele, de Adriana – os dois estavam declaradamente juntos agora – e Amanda, eles tinham a maioria em todas as votações, porque Agnes sempre se recusava a votar, tornando eu, Alice e Alexandre a minoria.

– Porque Parapuã? Pode ter acabado a energia lá também – afirmei, irritado.

– Porque lá é pequeno e perto. Se tiverem sobreviventes serão poucos. É uma operação de baixo risco. Iremos em três carros e quero vocês três conosco.

O tom dele era autoritário. Eu ia retrucar, mas Alice percebeu e apertou a minha mão. Assenti com a cabeça e os preparativos começaram imediatamente.

Quando chegamos no primeiro supermercado em Parapuã ficou claro que ele tinha sido arrombado. Havia vidro quebrado e umas manchas de sangue seco. Adalberto e André entraram na frente, armas em punho. Eu vinha logo atrás, arma na cintura, tenso e de ouvidos abertos. Nos espalhamos, cobrindo os corredores lentamente. Os outros vieram atrás de nós.

Foi Alexandre que chegou primeiro no balcão de frios.

– A carne está boa – começou ele, e então soltou um grito.

Corremos para lá. E ninguém estava preparando para o que vimos.

Uma garotinha de uns sete anos estava caída atrás do balcão. Evidentemente estava morta a pouco tempo. Tinha uma expressão triste no rosto.

Alexandre chorava agarrado a mim. Todos, até Adalberto, estavam chocados. Amanda se adiantou e examinou o corpo. Ela tinha nos dito que era técnica em enfermagem.

– Ela tá com as mãos e os pés machucados e infeccionados. Provavelmente se feriu no vidro da porta. Deve ter morrido de sepse.

Se levantou e então o lábio dela tremeu. Começou a chorar copiosamente nos braços de Alice, que também começou a chorar.

Eu desviei o olhar e me afastei. Era a primeira morte que víamos. Nós sabíamos que nossos entes queridos estavam mortos. Nossos pais, mães, esposas e filhos, até nossos cunhados, gatos e cachorros tinham desparecido. Só podiam estar mortos, ou tinham sido arrebatados como dizia a Agnes. Mas era o primeiro corpo que encontrávamos. Senti um peso no peito. O instinto de sobrevivência tinha nos mantido ocupados, distraídos da perda daqueles que amamos. Mas agora a morte estava ali, na nossa frente, personificada em uma criança de olhos tristes.

Adalberto foi o primeiro a se recuperar e começou a recolher as carnes. A garotinha tinha comido pouco. Tinha muito leite espalhado e bolachas. Como tinham sido os últimos momentos dela ali, sozinha e doente? Esse pensamento não deixava a minha mente.

Alice apareceu com um lençol e cobriu o corpo da garotinha.

-Eu quero enterrá-la – disse Amanda, fungando o nariz.

-Não temos tempo para isso, porra! – berrou Adalberto. Pode ter outros sobreviventes. Eles podem ter armas. Temos que pegar tudo e sair logo.

Saquei a minha arma.

-Baixa a bola, caralho. Se ela quer enterrar a criança, vamos enterrar a criança. Temos todo o tempo do mundo. – gritei.

-Você não tem coragem de atirar em mim, professor…começou Adalberto, e ele sorria.

-Dessa distância até a Agnes transforma essa sua cabeça grande numa polpa de fruta, imbecil – retruquei, valente.

Ninguém se mexia, ninguém sequer respirava. Vi André com a mão na arma que estava na cintura. Só esperava uma ordem de Adalberto. Se ele fosse rápido o suficiente, eu estaria morto. Mas não abaixei a arma.

A ordem de Adalberto não veio. Os segundos escorriam lentamente, pareciam anos.

-Tudo bem, enterrem a garota. Tem uma praça a duas quadras daqui. Agora abaixa essa arma, professor – disse Adalberto.

Então eu fui procurar uma pá.

14 de dezembro

Amanhã vai fazer um ano que a “coisa” aconteceu.

Agora eu, Alice e Alexandre moramos na casa que foi de uma tia minha, próximo da escola Maria Aparecida Lopes. Escolhemos lá porque perto há um supermercado que não tinha sido arrombado e o terreno da escola serviria para fazermos uma horta.

Depois do acontecido em Parapuã a convivência com o grupo de Adalberto ficou insustentável. Nos mudamos antes de algo pior acontecer. Agnes também abandonou o grupo. Foi morar na “casa de Deus”, ou seja, lá no velho santuário onde a encontramos. De vez em quando levamos uns alfaces para ela.

O grupo de Adalberto partiu a cinco meses em direção a Adamantina. Nunca mais voltaram. Temos a cidade inteira para nós quatro. E para o Perebas, que só sente falta de passarinhos para caçar.

Em breve, seremos cinco. Alice está grávida. Muito grávida. Estimamos sete meses, talvez oito.

Enquanto monto o berço que será do meu futuro filho ou filha, fico pensativo. E se o parto não dar certo. E se os dois morrerem? E se a energia acabar e não voltar nunca mais? E se a comida acabar? E se a horta não prosperar? E se um grupo de outra cidade vier e nos matar a todos?

Apesar dessas preocupações, eu nunca tinha estado mais feliz. Minha nova vida era, sob muitos aspectos, melhor do que a antiga. Tinha perdido peso, parado de fumar e dormia como uma rocha depois de um dia de trabalho pesado na horta e na plantação de mandioca que Alexandre estava começando. Acordava sempre de bom humor e ao lado de uma linda mulher.

Era melhor do que passar o dia empurrando mouse e batucando num teclado. Ah, isso era mesmo.

Terminei de montar o berço e ganhei de recompensa um suco de limão natural e um beijo na boca da mulher que eu amava.

A vida poderia ser boa, afinal.

15 de dezembro

Silêncio.

Aquele silêncio opressivo de novo.

Me levantei da cama, assustado. Eu teria sonhado?

Não, não tinha sonhado. Eu estava na cama onde horas antes tinha adormecido feliz ao lado de Alice, terrivelmente grávida.

Mas aquele silêncio me incomodava.

Eles devem estar na horta, pensei eu. Levantei e joguei água rapidamente no rosto.

Na cozinha, o café estava frio. Era de ontem.

Tive um pressentimento. Abri a porta e gritei.

Ninguém respondeu.

Gritei mais.

Chorei.

Corri.

Eu estava sozinho.

Porra, Teixeira!

-Central, tem um féretro pequeno entrando pelo portão noroeste. Eles estão indo para o setor 3G.

-Copiado, Almeida. Setor 3G, quem ficou responsável pela recepção de novas almas hoje?

-É o Teixeira, chefe.

-Puts, o Teixeira. Alguém viu ele hoje?

-Eu vi, chefe. Ele tava saindo pelo portão sul.

-Saindo???

-Acho que ele foi assombrar o sobrinho-neto dele de novo, chefe.

-Porra, Teixeira. Pereira, leva o Batista e o Ferreira e vão até lá. Tragam ele de volta, nem que seja na base da porrada.

-Certo, chefe.

Puff!

Puff!

Puff!

-Senhor, o féretro do setor 3G tá chegando na sepultura. Acho que é uma criança. Precisamos da recepção agora!

-Porra, criança é foda. Tem que ser uma recepção muito bem feita ou vai dar merda. Algum voluntário? Ninguém? Tá, Garcia, vai você.

-Porque eu? Só porque eu fui mulher quando morri?

-Não, só porque você tá na minha frente agora. Vai logo!

-Certo, chefe!

Puff!

-Senhor, féretro grande chegando pelo portão principal. Ainda não dá para saber para qual setor eles vão.

-Certo, Almeida, monitore e me avise quando souber para onde eles vão.

Puff!

-Senhor, o Teixeira não está na casa do sobrinho-neto. Deixei o Batista e o Ferreira lá montando guarda.

-Fez bem, fez bem. Mendes, dá uma geral no cemitério. Vá até todos os túmulos que o Teixeira costuma frequentar. E se o encontrar diga que eu vou matá-lo.

-Ele já está morto, chefe. Todos nós estamos.

-Não me diga! Você é um gênio, Mendes! Vai logo!

Puff!

-Senhor, o féretro grande tá indo para o mausoléu da maçonaria. Estão quase chegando.

-Droga, é um VIP. Precisamos de uma recepção especial. Eu vou.

-Mas chefe, quem vai ficar no…

-Sem mais. Eu não quero erros como o da semana passada. Lima, você fica no comando agora. Prioridade máxima para achar o Teixeira, ok?

-Sim, senhor, senhor!

Puff!

-Chefe, tem um féretro pequeno chegando pelo portão sudeste.

-Copiado, Almeida. Aqui é a Lima, estou no comando agora. Para que setor o cortejo está indo?

-Ué, cade o Penteado? Acho que estão indo para o 7H, vou confirmar.

-O Penteado foi recepcionar um VIP no mausoléu da maçonaria. Confirme o destino do féretro quando puder.

-Copiado, chefa. Pera…tropeçaram numa pedra e quase deixaram o caixão cair. Hahahahahaha.

-Não é engraçado, Almeida.

-É porque a senhora não viu, chefa.

Puff!

-Pronto, a recepção do setor 3G tá feita. Ela tinha doze anos e…

-E você deixou ela sozinha, Garcia? Esqueceu do protocolo? A família já foi toda embora?

-Porra, eu volto lá.

Puff!

-Chefa, o féretro do portão sudeste tá indo mesmo para o setor 7H. É mulher.

-Copiado, Almeida. Quem tá no 7H hoje?

-Eu estou, Lima. Até que enfim o Penteado largou o osso, hein?

-Porra, Teixeira. O que você está fazendo aí? Era para você cobrir o setor 3G hoje!

-É uma longa história, chefa. Eu tenho bons motivos, garanto. Eu posso fazer a recepção agora e…

-Não, vem para cá agora, o Penteado quer falar com você quando voltar. Almeida, faz a recepção do 7H.

-Quem vai ficar no monitoramento de chegada, chefa?

-Machado, fica você no monitoramento.

-Tudo eu, tudo eu!

Puff!

-Chefa, eu não achei o Teixeira…

-Eu acabei de falar com ele, Monteiro. Estava no setor 7H. Volta lá e diz que se ele não aparecer aqui agora eu vou possuir aquele sobrinho-neto bexiguento que ele tem e fazê-lo pintar a sepultura dele de rosa fosforescente.

-Certo, chefa!

Puff!

-Chefa, deu merda no setor 3G. O espírito da garota grudou na mãe.

-Alerta de espírito obsessor ! Alerta de espírito obsessor! Não é um treinamento! Todas as unidades, impeçam que esse espírito saia do cemitério! Agora!

Puff!

-Voltei, o VIP tá seguro. Como estão as coisas?

-Obsessão no enterro do 3G. A Garcia deixou a nova alma sozinha e…

-Chefe, a mãe da adolescente tá saindo do cemitério. Eu não consigo soltar a alma. Acho que vamos perder ela e…

-Monteiro? Monteiro? Câmbio, câmbio, todas as unidades, respondam…

-É o Teixeira, chefe. Espírito obsessor controlado. Estou levando ela de volta ao túmulo.

-Porra, Teixeira!

A última vestal

Os soldados derrubaram facilmente a porta do templo. Abriram espaço para o magistrado Arcádio entrar na frente. O homem, baixo e calvo, parecia apreensivo ao entrar naquele recinto que também para ele já tinha sido sagrado. Avançou a passos hesitantes e parou em frente da pira sagrada, ladeado por Cornélio, o chefe da guarda.

Defronte a pira do fogo sagrado cinco virgens vestais bloqueavam a passagem, usando as suas tradicionais vestes brancas e seu penteado de seis tranças. Assim que viram os guardas entrarem no recinto sagrado elas cobriram suas cabeças com o tradicional véu, como faziam nas cerimônias.

Arcádio estava disposto a acabar com aquilo rapidamente. Pigarreou, deu um passo a frente e começou:

-Por ordem de Flávio Teodósio, pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, imperador de todos os romanos, estamos encerrando os serviços do templo dessa deusa pagã. As senhoras estão dispensadas e deverão deixar…

Arcádio ainda falava quando uma das virgens vestais avançou em sua direção com um punhal tirado das vestes na mão. Ele recuou instintivamente. Cornélio se adiantou e bloqueou a trajetória da atacante com seu escudo, ao mesmo tempo em que dava uma estocada com a sua lança curta. Ela caiu, mortalmente ferida.

Só então Cornélio pode ver quem fizera aquele ataque insensato. Era Fábia, de uma família ligada a sua por muitas gerações. Ele mesmo tinha estado naquele templo, vinte anos atrás, para a consagração dela. Foi um dia de festa. Afastou as lembranças com um sacudir de cabeça.

-Senhoras ! – gritou Cornélio. Não é necessário mais derramamento de sangue. Saiam em ordem e pacificamente e nada acontecerá com vocês !

-Jamais ! – respondeu a mais velha da virgens vestais, que Cornélio reconheceu como Licínia, filha de uma família que já havia dado muitos senadores e governadores para o império. Morreremos defendendo a chama sagrada de Vesta, sem a qual Roma não pode existir.

-Prendam todas. Matem as que resistirem – ordenou Arcádio, e havia firmeza na sua voz.

Cornélio e seus homens avançaram. Em poucos minutos estava tudo acabado. O chão de mármore estava coberto do sangue das cinco virgens vestais. E foi aí que Cornélio se lembrou que o número delas deveria ser seis.


Pulqueria estava com o coração apertado. Queria estar na frente do templo ajudando a defendê-lo, mas sua líder Licínia havia lhe dado outra missão.

Desfez o penteado das seis tranças rapidamente. Trocou sua túnica por uma comum e saiu em lágrimas por uma porta lateral, carregando uma bolsa.

Aquele templo havia sido a sua casa pelos últimos dez anos. Ela havia terminado o noviciado e agora poderia fazer parte dos rituais. O que seria dela agora ?

As ruas estavam lotadas de gente naquela hora da manhã e ela avançava lentamente. Enquanto passava pelas pessoas apressadas, Pulqueria pensava no que fazer. Com certeza não podia voltar para casa. Seus pais tinham se tornado devotos cristãos e a entregariam. Tinha algumas moedas no bolso. Daria para pagar por um quarto em alguma pensão na parte baixa da cidade por alguns dias.

Pulqueria estava quase chegando no Tibre quando teve a sensação de estar sendo seguida. Olhou várias vezes para trás e não conseguiu ver nada. Estava agora a poucos passos da ponte que a levaria para a parte baixa da cidade. Era só entrar na primeira pensão que encontrasse e estaria segura.

Foi puxada repentinamente para um pequeno corredor por uma mão forte. Não teve tempo de gritar pois sua boca foi tampada.

-Não precisa ficar assustada. Estou aqui para te ajudar. Seu nome é Pulqueria, certo ?

Ela negou com a cabeça, aterrorizada.

-Não precisa mentir para mim. Você foi vista saindo do templo de Vesta. O magistrado Arcádio ordenou que todos os soldados da cidade a procurem.

Ela continuou negando com a cabeça.

-Escute. Todas as suas companheiras estão mortas. Esse sera o seu destino também se você não me deixar ajudar.

Os olhos de Pulqueria se encheram de lágrimas. O misterioso homem soltou a mão da boca dela.

-Precisamos ser rápidos. Qual é o seu plano ?

Ela engoliu as lágrimas.

-Eu ia ficar numa pensão do outro lado da cidade e…

-Não, muito arriscado – interrompeu o homem. Vá até o portão oeste. Pegue essas moedas, compre uma mula e vá pela estrada rumo a Ravena. Está sem vigilância hoje. Ao chegar lá procure Probo, o boticário, e entregue esse anel a ele. Você será bem recebida.

Pulqueria ficou uns segundos olhando as moedas e o anel em sua mão.

-Porque me ajudas, nobre senhor ? – perguntou ela.

-Por que eu não concordo com o que aconteceu hoje – disse ele, simplesmente.

-E eu posso saber seu nome, gentil senhor ?

-Eu me chamo Cornélio. Agora vá, não se demore mais!


Pulqueria e Cornélio tiveram que se mudar várias vezes. Estiveram em Mediolano, na Helvécia e na Gália Cisalpina.

Foi lá que ela morreu, durante um parto mal sucedido. Depois da sua partida Cornélio pode ver o que ela trazia na misteriosa bolsa que carregava desde que fugira de Roma com a sua ajuda. Eram todos os registros do templo de Vesta, desde a sua fundação.

Cornélio enterrou os papéis junto com a sua amada, sob uma lápide que ele mesmo escreveu:

Aqui jaz Pulqueria, a última das vestais.

O sonho

Era a quinta manhã seguida que Nathalia acordava depois de ter o mesmo sonho. Era um sonho esquisito. Ela estava de pé no topo de uma pequena colina. A pouca distância havia uma grande construção quadrada. Era um castelo, e dos grandes. Nathalia ficava ali, parada, cheia de medo, observando o castelo. Sentia vontade de ir até lá, mas o medo a paralisava. E então o sonho acabava e ela acordava suada e apreensiva.

“Isso tem que acabar. Ou eu entro nesse castelo no sonho ou vou procurar um médico” pensou Nathalia, antes de se levantar e ir tomar banho para ir para escola.


A lua cheia brilhava em um céu estrelado. Rajadas de vento cortavam a noite, amenizando o calor sufocante. Tudo estava quieto. Nada se mexia.

Nathalia se encheu de coragem e desceu a colina quase correndo. De repente se viu defronte ao castelo. Havia luzes lá dentro. Uma pequena ponte conduzia até à entrada. Resoluta, ela venceu o medo e caminhou até lá.

Ela respira fundo. “Hoje não. Hoje eu não vou desistir. Eu vou entrar”.pensou. E seguiu caminhando. Atravessou a ponte. Nunca tinha chegado tão longe. Mais alguns passos e ela estaria dentro do castelo. Parou para descansar. Suas pernas pesavam como chumbo, apesar dela ter andado somente alguns metros. Tomou coragem, e apreensiva, entrou no castelo.

Assim que ela atravessou o umbral, todo o medo que ela estava sentindo desapareceu, como se tivesse sido arrancado num passe de mágica. Em lugar do medo, uma grande paz a invadiu. Seguiu caminhando, como se já tivesse estado ali antes. Ela sabia aonde ir. Só não sabia como, nem porque. Mas seguiu caminhando. Chegou até a um amplo pátio de pedra. E o que viu lá a fez perder a respiração.

Dezenas, talvez centenas, de pessoas estavam lá. Vestidas todas de branco. E só então ela percebeu que também estava vestida assim. Estavam todos sentados em cadeiras de espaldar alto. Enquanto andava entre as pessoas sentadas, notou que havia alguns lugares vagos. Subitamente, parou. Olhou para o lado. Havia uma cadeira com o seu nome escrito. Ela sentou-se.

Aquele silêncio a estava incomodando. Ninguém falava nada, apesar dos olhares curiosos que eram dirigidos a cada pessoa que chegava e tomava o seu lugar. Ela olhou para o lado. Uma garota ruiva, olhos castanhos e sardas se sentava à sua direita. Deviam ter a mesma idade. A garota retribuiu seu olhar, e Nathalia percebeu que a ela também não estava entendendo nada. Do lado esquerdo estava sentado um jovem alto, negro e de cabelos curtos. Ele olhava fixamente para frente, e parecia tenso. Então ela também olhou para frente.

Havia um grande palco, ou tablado, e nada mais. Uma mesa ocupava o centro, com algumas cadeiras atrás. Não havia ninguém lá. Apesar disso, todos continuavam no mais absoluto silêncio.

Aos poucos, o número de cadeiras vagas foi diminuindo. Pessoas de várias etnias estavam chegando. Negros, asiáticos, índios. Nathalia achou que todos pareciam ser jovens como ela. Sentiu vontade de falar, de conversar com a garota ruiva do lado, mas o silêncio era tão profundo que ela sentia que ele não devia ser quebrado.

O tempo passou, mas Nathalia não soube precisar se foi muito ou pouco. Ainda havia algumas cadeiras vagas, mas já fazia algum tempo que não chegava mais ninguém. O silêncio continuava. E então ele foi quebrado. Era uma voz possante, porém calma. Ecoou pelas paredes do pátio, como se mil alto-falantes a estivessem reproduzindo.

“Caros escolhidos. Estamos muito felizes que estejam aqui. Infelizmente, alguns ainda não entenderam o chamado. E nós só poderemos começar nossa missão quando todos estiverem presentes. Rezem, meus filhos e filhas, para que todos os escolhidos atendam ao chamado. E não tenham medo. O Altíssimo está com vocês, não temam, não desanimem. Ele os fortalecerá e os sustentará com a mão direita de sua justeza. Vão em paz, e que o Senhor Deus os acompanhem”.

Então Nathalia acordou, e não sentia mais medo.


O sonho continuava, sempre igual, todas as noites. E sempre acabava do mesmo jeito. Ainda havia cadeiras vazias. Alguns escolhidos ainda não tinham entendido o chamado.

Nathalia havia se habituado aos sonhos. Distraía-se observando as pessoas que chegavam. Tinha contado, como pode, as cadeiras que existiam naquele pátio. Se ela não tinha errado nas contas, havia 144 cadeiras, em 24 fileiras de seis cadeiras. Pessoas das mais variadas origens ocupavam essas cadeiras. Do lado da ruivinha sentava-se uma loira, alta, magra e altiva, com lindos olhos claros, que parecia sempre estar assustada. Seguindo a sua fileira, ao lado do negro que ela tinha visto da primeira vez, um outro negro, de longos cabelos no estilo rastafari, que olhava para todos os lados sem parar, como se estivesse louco para sair correndo daquele lugar, e um jovem de traços indígenas, miúdo e magro, que sempre parecia estar se divertindo com alguma piada que só ele tinha entendido.

Estava sendo legal até agora, pensou Nathalia. Era melhor do que sonhar com o crush, pelo menos. Ela só gostaria que a missão fosse revelada logo. Então, depois da sua oração habitual, adormeceu.


Já estavam no castelo a a algum tempo. Nathalia distraia-se olhando as pessoas que chegavam. A cadeira em frente a sua nunca tinha sido ocupada, e ela imaginava quem poderia ser a pessoa a quem ela estava destinada. Um rapaz alto passou pela sua fileira. Nathalia olhou para ele, e não o reconheceu. Deveria ser a primeira vez dele, pois ele parecia assustado e confuso. Ela lhe deu um sorriso de encorajamento, e ele foi se sentar bem a sua frente, na cadeira que estava sempre vazia.

“Que bom, um a menos que está faltando” – pensou ela. De repente, ela teve a sensação de que o pátio estava mais cheio do que costume. Parecia que havia mais pessoas dessa vez. Ou seria só impressão? Ela tentou contar as cadeiras que faltavam. Na fileira ao lado sempre tinha um lugar vago. Que hoje estava ocupado. A mesma coisa na fileira de trás, onde uma jovem de traços orientais se sentava, com um olhar curioso, num lugar que antes ficava vazio. Seria hoje o grande dia?

Nathalia olhou para os rostos agora familiares dos jovens da sua fileira e viu que todos tinham percebido o que estava acontecendo. A ruiva ao seu lado chegou a segurar a sua mão. Ela tremia.

Aos poucos a inquietação foi se espalhando entre todos. Era como se uma corrente elétrica estivesse percorrendo o local. Todos pareciam excitados. Alguns chegaram a se levantar dos seus lugares para poder ver melhor. E então, pela primeira vez, eles quebraram o silêncio do lugar. O burburinho, discreto no início, começou a aumentar. Já não havia mais dúvidas. Pela primeira vez, todos os escolhidos estavam presentes. Mas algo estranho estava acontecendo. Ao invés da babel de línguas que era de se esperar, todos pareciam estar se entendendo perfeitamente, como se falassem a mesma língua.

De repente, uma estranha luz iluminou a penumbra do pátio. Nathalia conseguiu enxergar algumas portas que não tinha visto antes. Estavam atrás do palco, ou tablado, e de repente se abriram, todas ao mesmo tempo. Homens e mulheres, todos vestidos de branco, entraram foram se postar nas cadeiras que ficavam atrás da mesa que ela tinha visto no primeiro dia.

Não foi preciso dar a ordem, todos imediatamente se levantaram, e o burburinho cessou. A expectativa estava no ar, tão palpável que quase dava para vê-la.

No centro da mesa, um velho alto e de longo bigode levantou-se e começou a falar. Ele não usava microfone, nem tampouco existia qualquer sistema de som no pátio, mas sua voz soou limpa e clara, e todos perceberam que era dele a voz que encerrava o sonho, todas as noites.

“Sejam todos bem-vindos! Quis o Senhor Altíssimo que hoje fosse o dia escolhido para a reunião daqueles que Ele escolheu. Vamos bendizer a Deus e celebra-Lo por tudo o que ele fez por nós! Bom é bendizer e cantar o seu Nome. “Deus tenha piedade de nós e nos abençoe! Faça brilhar a sua face entre nós, para que sobre a Terra se conheça o teu caminho, e a tua salvação entre todos os povos. Que os povos te rendam graças, todos juntos! Amém !”

O “amém” em resposta foi tão forte e uníssono que os pelos dos braços de Nathalia se arrepiaram instantaneamente. Ela também começou a tremer.

Após essa oração, o homem ficou em silêncio por alguns instantes. Em seguida, sorriu.

“Eu sei que alguns de vocês devem ter me reconhecido, mas para os que não conseguiram, eu sou Melquisedec, rei de Salém. E estes – disse, fazendo um gesto que abrangia o resto dos presentes na mesa – serão seus mestres, que os guiarão na difícil missão que vocês tem pela frente”.

Então sua expressão mudou. O sorriso desapareceu. Seu tom de voz mudou.

“Estamos vivendo um tempo final. A humanidade tem cometido muitos crimes, e se afastado do reto caminho do Senhor. Está chegando a hora da colheita, e os ceifeiros já estão a caminho”.

“Mas o Senhor tem uma misericórdia e bondade infinitas. Ele resolveu dar a humanidade uma nova chance de se redimir e aplacar a sua ira. Foi para isso que vocês foram escolhidos. Vocês são a última esperança da humanidade para evitar o Apocalipse, e que as hordas do Inferno prevaleçam por sobre a criação de Deus”.

Um “Oh” de surpresa encheu o pátio. O burburinho recomeçou, e Nathalia sentiu que suas pernas tinham virado gelatina. Melquisedec fez um gesto impaciente e todos se calaram.

“Não tenham medo. Sintam-se honrados por terem sido escolhidos. Grande é a missão de vocês, mas o Altíssimo não os teria escolhido se não tivesse certeza de que vocês podem cumpri-la. Não temam, pois a mão do Senhor está sobre vocês”.

“A partir de amanhã vocês serão divididos por grupos, cada qual com um mestre, que darão melhores detalhes de como vocês vão cumprir a sua missão. Perseverem na oração, e confiem em Deus, pois somente com Sua força vocês conseguirão terminar a missão que lhes foi confiada”.

“Se estiverem ao lado de Deus, vocês triunfarão, e seus nomes serão contados entre os amigos de Deus. Se falharem, as portas do Inferno prevalecerão”.

“Vão em paz, meus filhos e filhas. Que o Senhor os acompanhem e guiem os seus passos”.

O sonho acabou, e Nathalia acordou. A missão havia sido revelada. Ela tinha que ajudar a impedir o Apocalipse. “Que droga, eu só queria ir para a faculdade de psicologia” pensou ela, e levantou emburrada para tomar banho.