A dengue zumbi

Astolfo era um homem de meia idade. Isso pode significar muitas coisas. No caso dele, significava que o cabelo diminuía na mesma proporção que a barriga crescia e que ele tinha cada vez menos paciência com os mais jovens.

Ele morava num país tropical que a cada verão era assolado por epidemias de doenças que já não deveriam mais existir. No verão daquele ano, no começo de dezembro, Astolfo adoeceu. Para seu azar, e de muitas pessoas depois, ele adoeceu duplamente.

Em seu sangue um vírus da dengue se encontrou com um vírus da zika e os dois se deram muito bem e saíram juntos para infectar a mesma célula sanguínea. Quebrando uma dúzia de regras da biologia que os vírus e até o próprio Astolfo ignoravam, esses vírus deixaram descendentes que combinavam a transmissibilidade da dengue com a habilidade do zika de quebrar a barreira sangue-cérebro. E mais, por um erro na hora de uma das proteínas se dobrarem durante a reprodução, esses descendentes ganharam uma nova habilidade: a de controlar os seus hospedeiros.

Foi no sangue de Astolfo que surgiu o que seria conhecido com dengue zumbi.

As pessoas tem uma ideia errada sobre zumbinismo. Acham que zumbis são mortos-vivos lentos e estúpidos que gostam de comer cérebros. Mas um zumbi nada mais é do que alguém ou algo que é controlado por outro alguém ou algo. Feiticeiros em certas ilhas do Caribe já conseguiam fazer isso a muitos séculos atrás com o uso de uma certa planta que hoje caiu nas brumas do esquecimento.

Mas, voltemos ao Astolfo. Conforme o número de vírus aumentava em sua corrente sanguínea e migravam para seu cérebro, o comportamento dele foi ficando cada vez mais esquisito, o que era bem, digamos, esquisito, porque Astolfo era um sujeito bem normal, alguns diriam que até sem graça.

Cerca de uma semana depois que aqueles dois vírus se encontraram, Astolfo faltou ao trabalho pela primeira vez em dez anos. Ele foi encontrado seminu numa esquina movimentada da pequena cidade onde morava. Seu corpo exalava um cheiro metálico e ele estava cercado por um grande número de mosquitos. Quando a polícia tentou retirar ele do local, Astolfo reagiu violentamente. Levado ao hospital a força, tentaram sedá-lo com Diazepan sem sucesso. Apelaram para o Propofol, igualmente mal sucedido. Sem opções, a equipe médica tentou até fazê-lo dormir com palestras do Leandro Karnal, mas também não surtiu efeito.

Astolfo passou três dias esmurrando a porta do quarto de isolamento em que havia sido colocado, até que morreu de exaustão.

Ninguém retirou o seu corpo do quarto, porque metade da equipe médica e de enfermagem do hospital estava em casa doente.

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Beatriz nasceu numa família privilegiada. Dizer que ela nasceu em berço de ouro seria um exagero, mas ela veio ao mundo numa bem equipada maternidade particular. Teve uma infância rica em experiências gratificantes, apesar do pai emocionalmente distante. Quando chegou ao final da adolescência ela entrou na faculdade de enfermagem, apesar dos protestos dos pais para que ela fizesse medicina. Apesar disso, ela ganhou um carro de presente.

A faculdade também foi um período cheio de experiências gratificantes, apesar dela não ter gostado muito de fumar maconha. Ao se formar com louvor, Beatriz emendou um mestrado em enfermagem de urgência e emergência. Enquanto se dedicava aos estudos, passou a trabalhar no hospital da sua pequena cidade, para ganhar experiência.

Numa manhã de dezembro ela estava na equipe que atendeu um homem que chegou ao hospital contido por algemas. O homem estava só de cuecas e exalava um cheiro horrível, que a lembrou o cheiro de sangue. O fedor parecia atrair muitos mosquitos, que voavam ao lado dele como uma nuvem, aumentando cada vez mais.

Tentaram sedá-lo de várias formas, mas sem sucesso. O homem ficava cada vez mais agitado, ferindo a si próprio e atacando a equipe. Por fim o colocaram num quarto do isolamento. Quando ela terminou o seu turno ele ainda estava lá, esmurrando a porta.

Chegando em casa disposta a tomar um bom banho depois do dia exaustivo, Beatriz reparou que tinha sido picada por vários mosquitos. Tomou seu banho refrescante, passou uma pomada nas feridas das picadas que coçavam e foi assistir Netflix com uma taça de vinho enquanto aguardava o delivery chegar.

Dez dias depois Beatriz morreu amarrada numa maca, os braços e pernas feridos do esforço que ela fez por dias para se libertar.

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Carlos Alberto era vendedor numa loja de sapatos. Não era o emprego que tinha sonhado – ele era formado em educação física – mas pagava as contas e até dava para tirar um bom dinheiro no mês em que as comissões eram boas.

Ele precisava de cada centavo extra. Tinha se casado com seu amor da adolescência, Débora, secretária numa das poucas indústrias locais. Eles tiveram um filho, Emanuel. Eram uma pequena, mas quase feliz família.

O jovem casal estava comemorando a promoção de Débora no emprego – o que traria uma bem-vinda renda extra – quando surgiu a notícia de um lockdown em virtude de uma nova variante do vírus da dengue. Carlos Alberto tinha ouvido uns boatos sobre pessoas morrendo no hospital local de uma doença misteriosa, mas não tinha dado muito crédito. As pessoas no interior são muito fofoqueiras.

Depois do segundo mês de lockdown, a loja de sapatos em que Carlos Alberto trabalhava fechou as portas. Ele não precisou ser demitido, pois havia morrido no mês anterior, isolado num ginásio de esportes, junto com centenas de outros.

Quando o corpo de Carlos Alberto foi retirado para a cremação, estava abraçado a uma mulher. Era Débora.

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Fernanda estava no ápice da sua carreira política. Na sua terceira tentativa tinha conseguido se eleger vereadora. Sua votação foi expressiva e ela ganhou um cargo de segunda secretária na mesa diretora da câmara.

Era o auge de uma vida que não tinha sido nada fácil, marcada por pais abusivos, maridos igualmente e amargos divórcios. Fernanda tinha tudo para ser uma boa política, pois era honesta e sabia das dificuldades que as pessoas mais pobres sofriam.

O corpo de Fernanda foi para o crematório número dois no final de janeiro.

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Gilson era um contador balzaquiano. Ele morreu com um tiro na testa quando tentou fugir do isolamento no ginásio de esportes.

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Humberto tinha sido um comerciante de sucesso até que tentou atropelar os soldados do exército que faziam o isolamento da cidade. Eles reagiram e descarregaram os pentes das suas armas.

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Inês era uma bem informada jornalista que saiu da cidade antes do isolamento começar. Foi morar com uns parentes de quem ela não gostava muito na cidade vizinha.

Seu corpo foi enterrado na cova coletiva número cinco.

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João era capitão do exército. Quando desenvolveu os primeiros sintomas de dengue, procurou o médico do batalhão. Ele foi gentilmente levado até o hospital de campanha. Uma enfermeira sorridente lhe deu uma injeção.

João morreu com uma expressão de paz no rosto.

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Luísa estava na fila para pegar a sua ração de comida diária – que estava cada vez menor – quando passou pela checagem de temperatura. O soldado que fez a medição virou para o lado e fez um sinal negativo com o dedo.

Ela também tomou uma injeção dada por uma enfermeira sorridente.

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Marisa matou três soldados do exército com sua espingarda antes de ser abatida por cinco balas.

Seu filho Noel foi levado pelos soldados para o campo de concentração número dois. O vento espalhou as cinzas do que um dia tinha sido ele no final de março.

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Onofre se enforcou no campo de concentração número cinco em abril.

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Paula checou a sua temperatura e ela estava alta pelo segundo dia seguido. Ela passou a madrugada escrevendo uma longa carta de despedida para sua esposa Quitéria, que não via a meses, desde que ela fora trabalhar para a equipe do isolamento. Na manhã seguinte ela se apresentou no centro de triagem.

Elas entraram na câmara de gás de mãos dadas.

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Rodrigo matou três zumbis até esgotar a munição da sua arma. Se virou para fugir, mas foi lento demais.

Os pedaços do seu corpo nunca foram enterrados.

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Sueli pediu para morrer segurando a foto do seu filho Tácio.

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Uriel implorou para que os guardas o deixassem fugir. Ofereceu joias, dinheiro e, por fim, o próprio corpo. Um soldado o levou para detrás de um barracão.

Só o soldado voltou.

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Vicente só tinha nove anos quando foi levado para um lugar apertado cheio de outras crianças que choravam. Vicente não chorava. Ele era um homem forte, tinha prometido para a mãe que não ia chorar.

A última coisa que Vicente viu foi um gás esquisito saindo de uns chuveiros no teto.

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Xerxes deu a ordem do dia para seus soldados, recebeu as continências dos seus subordinados, assinou uns papéis e se trancou no seu escritório.

Meia hora depois escutaram um barulho de tiro.

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Eu, Zacarias, professor de formação, historiador do apocalipse ad hoc, escrevi esse relato para que aqueles que sobreviverem saibam como foi a dengue zumbi.

Hoje é o segundo dia que tenho febre acima de quarenta graus.

O supermercado amaldiçoado

Parei bem em frente a decrépita construção. Sai do ar condicionado do carro direto para o calor sufocante do final de julho. Malditas mudanças climáticas. Eu sentia falta do frio de julho.

A fachada estava em pior estado do que me lembrava da última vez que tinha passado por ali. As letras há muito já tinham sido apagadas, mas eu me lembrava muito bem do que funcionava ali.

Eu tinha estado ali com a minha mãe quarenta anos antes quando inauguram – ou reinauguraram, não lembro bem – o supermercado que ia “revolucionar o varejo” na cidade. Eu tinha odiado aquilo tudo, pois nunca tinha gostado de aglomerações. Até discurso do prefeito – ou era prefeita? – eu lembro de ter presenciado.

E agora, depois de quatro décadas eu estava ali, engenheiro formado, sócio da minha própria empresa, para demolir aquele prédio para a construção do Monumento à Gloriosa Revolução de 22. Era a maior empreitada que minha firma já tinha conseguido. Íamos ganhar muito dinheiro ali.

Meu sócio Luciano tinha chegado antes, dava para perceber pela picape vermelha dele logo ao lado. Enxerguei uma figura corpulenta vindo do lado sul. Era Leandro, nosso melhor mestre de obras. Ele suava em bicas, mas pelo menos estava de capacete. Ajustei o meu e me dirigi até ele.

-Onde estão todos? – perguntei.

-Ali examinando a parede sul, senhor. Seu Luciano perguntou do senhor…

-Eu tô atrasado, eu sei, resmunguei. Vamos lá acabar logo com isso.

Nos dirigimos até lá e não havia ninguém.

Não havia ninguém em lugar nenhum.

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Após o desaparecimento do meu sócio e dois funcionários eu assumi sozinho a condução da firma. Me recusei a continuar o trabalho de demolição do supermercado. A multa foi pesada. A empresa não suportou. Fechamos em menos de um ano.

Perdi quase todo o meu patrimônio para cobrir a indenização. Tive que aceitar um emprego na empresa do meu maior concorrente. Ele me colocou numa posição subalterna, fazendo cálculos estruturais.

Eu odeio cálculos estruturais.

Meu casamento foi para o ralo junto com o dinheiro. Minha esposa Laura pediu a separação e levou nossos gêmeos Luan e Lauã para morar com os pais. Eu não posso mais vê-los.

Passei a beber muito. Fui internado compulsoriamente algumas vezes. Agora não bebo mais e melhorei bastante, só injeto drogas na pálpebras aos finais de semana e feriados.

Eu sabia de quem era a culpa disso tudo. Ou melhor, do que. Do supermercado amaldiçoado.

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Depois de anos de pesquisa eu sabia o que tinha acontecido.

A cada dez anos, três pessoas desapareciam no supermercado amaldiçoado.

Era sempre na mesma data. Vinte e oito de julho. E sempre no mesmo local. No estacionamento ao lado da parede sul.

Tinha sido nessa data, me dizia o recorte digitalizado do Jornal Destaque, que o supermercado havia fechado as portas. A nota era breve e citava a “crise econômica” depois da Gloriosa Revolução de 22 como a causa. Era um jornal reacionário, estava claro. Por isso tinha sido extinto pouco tempo depois.

Exatos dez anos depois, de acordo com a versão arquivada do “Portal OCNet Revolucionário” uma mulher e seus dois filhos desapareceram quando passavam pelo estacionamento do lado sul. Elas estavam a caminho de um jogo de futebol no estádio e tinham passado por lá para cortar caminho. O caso nunca havia sido solucionado pela Brigada Revolucionária. Um ex-marido violento havia sido o principal suspeito, mas não havia provas contra ele.

Mais dez anos se passaram e três garotos que jogavam rúgbi no estacionamento sul desapareceram sem deixar rastros. A reportagem digital do jornal estatal Granma tinha fotos dos três e um breve histórico. Edições posteriores apontaram o filho de um proeminente político de uma família outrora poderosa como o sequestrador das crianças. Encontraram em seu Ipad 45 contrabandeado uma grande quantidade de fotos de pedofilia. Mas não havia nada que o ligasse às crianças. Ele foi condenado só pela posse de imagens pedófilas e executado na praça da Matriz um mês depois.

O terceiro desaparecimento foi o do meu sócio e nossos dois empregados. Eu, é claro, fui o principal suspeito, mas a Brigada Revolucionária não encontrou nada contra mim. Fui inocentado, apesar do perfil pouco elogioso que o Granma fizera sobre mim, usando palavras como “antissocial” e “exótico” para me descrever.

O padrão era claro. Três desaparecimentos no estacionamento sul, na mesma data, com dez anos entre eles. Tinha que haver uma ligação. Tentei argumentar com a Brigada Revolucionária. Tudo o que consegui foi uma internação compulsória de seis meses num campo de reeducação revolucionária.

Eu tinha estado muitas vezes naquele estacionamento. A única coisa diferente que encontrei foi uma pequena marca na base de um dos pilares da parede sul. Tentei fotografá-la, mas as fotos sempre ficavam borradas. A copiei o melhor que pude e fiz pesquisas. Tinha algo a ver com demônios de antigas civilizações do oriente médio.

Eu estava convicto. Aquele supermercado era amaldiçoado. E cabia a mim destruí-lo.

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Não tinha sido difícil desviar explosivos C4 do trabalho. Eles confiavam em mim, afinal. Não tinha o suficiente para demolir o prédio todo, mas não precisava. Bastava destruir a parede sul, onde a marca demoníaca estava. O resto poderia ser demolido depois que a maldição se fosse. Quem sabe eles finalmente construíssem o grande Monumento à Gloriosa Revolução de 22. A cidade ia me agradecer depois.

Eu só precisava de uma noite de lua cheia, de uma maneira de neutralizar o vigilante e que meus cálculos estivessem corretos.

O mais difícil foi neutralizar o vigilante. Tive que matá-lo, é claro. Arrastei seu corpo para longe de onde eu esperava que os destroços iam cair. Ele merecia um enterro digno.

Coloquei os explosivos nos pilares que eu julgava os corretos. Eu não tinha muitos explosivos e pouco tempo para colocá-los. Fiz o melhor que pude. Puxei os fios dos detonadores.

Respirei fundo e apertei o botão.

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Acabaram não construindo o Monumento à Gloriosa Revolução de 22 no local. Preferiram deixar somente o pilar que tinha sobrado intacto e remover todo o resto.

O pilar que tinha a marca demoníaca. Ele não tinha sido destruído.

Cercaram o local e colocaram uma placa com o nome das dez vítimas. Os nove desaparecidos e o vigilante que eu matei.

Meu nome não está lá, apesar de eu também ter morrido quando uma parede desabou na minha cabeça.

Proclamaram uma damnatio memoriae sobre mim. Todos os meus registros foram apagados dos computadores estatais e meus filhos tiveram o meu sobrenome retirado. É como se eu nunca tivesse existido.

A cada dez anos o demônio que nos tortura permite que nossos fantasmas apareçam no local. Os outros fantasmas não gostam de mim. Principalmente meu ex-sócio Luciano.

-Você tinha que ter colocado mais explosivos na seção central, seu idiota! – foi a última coisa que ele me disse, uns setenta anos atrás.

Eu sou um proscrito, tanto no mundo dos vivos, como no dos mortos.

Nada disso teria acontecido se eu fosse bom em cálculos estruturais.

O silêncio

15 de dezembro

Foi o silêncio que me fez perceber que algo errado estava acontecendo.

Minhas manhãs sempre começavam com o barulho do trânsito e do posto de gasolina em frente a minha casa, que tinha sido somado ao nada agradável barulho de uma obra grande logo ao lado.

Mas, naquela manhã, não havia barulho nenhum.

Levantei tropego, e enquanto jogava água no rosto pensei que talvez pudesse ser feriado.

Ainda era dia quinze. Não podia ser feriado.

Fui até a janela da sala. Nenhum movimento lá fora, nenhum frentista no posto, nenhum carro passando. Estranho.

E aquele silêncio todo estava me incomodando.

Peguei o celular, pensando que talvez tivessem decretado algum feriado e eu não sabia. A internet não funcionava. Nem wi-fi, nem dados móveis. Nada.

Bem, vamos fazer do jeito antigo, pensei. Vou na padaria da esquina. Lá, com certeza, vão saber o que aconteceu.

Me vesti rapidamente e sai. Lá fora a sensação de que tudo estava silencioso demais foi amplificada. Caminhei um pouco. A padaria estava fechada.

Fiquei ali, apalermado, olhando para aquelas portas fechadas, até que um barulho me despertou do meu transe.

Uma moto, dirigida por uma mulher, subia a avenida Brasil e parou no semáforo. Ela me viu e veio em minha direção.

Tirou o capacete rapidamente, bagunçando a cabeleira ruiva.

-Mas que porra tá acontecendo? – ela disse.

Eu gostaria de saber também.

17 de dezembro

– Senta aí, pega um pedaço de torta, está bem boa – sorriu para mim o homem que havia se apresentado como Adalberto, já se servindo de um pedaço.

Ele era baixo, atarracado e forte, e estava vestido extravagantemente. As roupas simplesmente não combinavam, como se ele tivesse se jogado num guarda roupa e saído de lá vestido.

Sentamos, Alice e eu. Ela se serviu de um pedaço de torta quase que imediatamente. Eu estava mais interessado em informações do que em comida.

– Desde quando vocês estão aqui?

– Desde o dia em que a..hã…coisa, aconteceu. Eu moro, ou morava, ali no Bergamaschi. Caminhei até aqui e pensei, porque não entrar? Eu tava com fome, e nunca tinha entrado aqui…

O cara comia de boca aberta. Não era uma cena bonita de se ver. Me virei para a mulher que o acompanhava, que tinha dito se chamar Amanda.

– E você?

Ela sorveu um gole de suco antes de responder. Tinha maneiras mais elegantes do que Adalberto. Era a mais alta de nós quatro, magra, cabelo pintado de loiro, mas com as raízes aparecendo.

– Eu moro ali perto do Conjunto Esportivo. Quando a coisa aconteceu eu subi o pontilhão da Magay e encontrei o Adalberto vindo perto do Estádio.

Uma história parecida com a minha e da Alice. Peguei um pão de queijo.

-E você, professor? Onde vocês estão?

Eu tinha dito a Adalberto que trabalhava numa escola e agora ele achava que eu era professor. Achei melhor não corrigir.

-Estamos na minha casa, ali na esquina do pontilhão da Taves. Encontrei a Alice na esquina da Brasil no dia que a… coisa, aconteceu.

-Bem, vocês podem ficar aqui agora. O Angatu Hotel é todo nosso – e ele fez um gesto que abarcava todo o entorno.

-Suponho que seja melhor ficarmos todos juntos sim – disse eu, pensativo. Deveríamos procurar mais sobreviventes – acrescentei.

-Também acho, replicou Adalberto. Mas temos que nos prevenir. Vocês estão armados?

Eu e Alice arregalamos os olhos.

– Ora, professor – sorriu Adalberto, enquanto tirava um revólver da cinta. Nós não sabemos quem pode ter sobrevivido, né? Eu e Amanda demos uma passadinha ali perto da Etec. E sorriu.

Não gostei do sorriso dele.

20 de dezembro

Com a chegada de Agnes agora o nosso grupo tinha oito pessoas.

A tínhamos encontrado ajoelhada em frente do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, rezando. Ela estava fraca e abatida. Se recusava a roubar comida dos vizinhos, mesmo sabendo que não tinha ninguém lá. Estava sobrevivendo de bolachas que tinha em casa. A muito custo conseguimos levá-la para o hotel.

Ela foi recebida com festa pelos outros, principalmente por Alexandre, o mais jovem de nós.

-Ela parece a minha vó – disse ele, simplesmente.

Alexandre tinha sido encontrado na Avenida Brasil. Tinha arrombado a Casa Aliança e estava se refastelando com iogurtes. Chorou quando nos viu e contou que tinha treze anos e morava num sítio no bairro do Perdido. Tinha uma história igual a nossa: ao acordar pela manhã todos haviam desaparecido, até os animais de criação. Menos o seu gato, o Perebas, que ele trazia no colo. Tinha vindo à cidade em busca de comida.

O desaparecimento dos animais batia com o que vimos na cidade. Nenhum gato, nenhum cachorro, não havíamos encontrado nada, nem uma mísera maritaca. Alice jurava ter sido picada por um Aedes Egypti uns dias antes, mas achei que ela estava imaginando coisas.

Complementavam o nosso grupo André e Adriana. Ele tinha sido encontrado no Posto Bandeiras e morava ali por perto. Tinha arrombado o Supermercado Vitória e foi assim que percebemos que tinha alguém por ali. Ele estava em forma, era professor de educação física. Falante e animado, ele estava sempre disposto a fazer o que lhe pediam.

Igual animo não tinha Adriana. Ela morava no Jardim Paraíso e a encontramos vagando próxima ao Fórum. Roupas sujas, o cabelo comprido desgrenhado e os pés feridos por andar sem calçado. Estava claramente em choque, não falava com coerência. Veio pacificamente com a gente e melhorara nos dias seguintes, mas falava pouco e demonstra estar muito abatida.

Tínhamos esquadrinhado a cidade toda em carros que pegamos no Santa Mônica. Adalberto pareceu gostar demais da tarefa. Escolheu um belo SUV branco de uma marca japonesa. Alice tinha se contentando com um modelo alemão. Eu não dirigia, então fazia companhia a ela durante as expedições de busca. Amanda ficava no hotel, coordenando tudo com walkies talkies que tínhamos roubado da Tabacaria do Povo. Adalberto tinha insistido em levar algumas armas também. Eu concordei.

Era isso. Oito pessoas, quatro homens e quatro mulheres, um gato e um mosquito da dengue. Era tudo o que tinha restado de uma cidade de trinta mil habitantes.

Enquanto os outros acolhiam Agnes eu sai para tomar um ar. Estava reflexivo e angustiado. O que for que tivesse acontecido, tinha sido muito grave. Será que haveria sobreviventes em outras cidades? Podíamos esperar pelo menos um número igual de pessoas em Adamantina, que tinha quase o mesmo tamanho daqui. Será que a “coisa” tinha sido igual em todos os lugares?

Fiz uma conta rápida de cabeça. Se a “coisa” tivesse atingido todos os lugares da mesma forma, em Presidente Prudente teriam sobrado umas sessenta pessoas. Será que elas tinham se encontrado, como nós? Estariam se dando bem? Seriam boas pessoas?

Dividi meus pensamentos com Adalberto depois do jantar, enquanto tomávamos um vinho. A refeição tinha sido agradável. Todos ficaram animados pela chegada de Agnes. Até Adriana saiu do quarto e pareceu estar um pouco mais animada. Agora que estava limpa tinha se revelado uma bela mulher, com profundos olhos negros e um rosto bonito.

Adalberto me ouviu pensativo. E depois concordou comigo. Mas a conclusão que ele chegou não me agradou.

-Temos que armar todos e ensiná-los a atirar. Menos a Agnes, ela mal consegue segurar uma colher. Se existem outros grupos de sobreviventes em outras cidades, eles podem vir até aqui e querer tomar o que é nosso. Temos que estar preparados para resistir.

-Mas porque eles fariam isso? – retruquei.

-Não sei. Mas é o que eu faria. Exploraria outras cidades, e tomaria seus recursos.

-Mas não podemos viver todos juntos em harmonia?

Adalberto riu.

-Não estamos num romance, professor. Na vida real as coisas não funcionam assim.

Fiquei com vontade de perguntar que experiência ele tinha para dizer isso. Estávamos numa situação que nenhum de nós tinha vivenciado antes. Mas me calei e resolvi fazer o jogo dele.

-Se o que você diz acontecer, estamos numa posição estratégica ruim. Esse hotel é muito aberto. Ruim de defender – disse, como se entendesse alguma coisa do assunto.

-Você tem razão. Acho que deveríamos nos mudar para o Edifício Saint Moritz. É perto e fácil de defender.

E mais uma vez não gostei do sorriso dele.

25 de dezembro

Foram Amanda e Alice que haviam insistido em fazer uma ceia de Natal. Ia servir para animar o pessoal e também como despedida do hotel. Havíamos chegado num consenso e nos mudaríamos para o Edifico Saint Moritz.

De manhã as quatro mulheres tinham saído juntas, até Adriana, agora bem mais animada, e voltado com sacolas, vestidos, sapatos e maquiagem. Claro que tinham arrombado alguma loja. Mais de uma, provavelmente. Estavam preparando uma super produção. Olhei para as minhas roupas. Tinha trazido algumas de casa, nada adequado para uma festa. André me chamou para “fazer compras” também. Levamos Alexandre conosco, e o garoto estava empolgado. Só Adalberto não estava a vista. Ele havia saído de carro de manhã sem dizer nada a ninguém. Talvez estivesse “comprando” também.

Escolhi uma calça de risca de giz. Sempre achei essas calças elegantes. Talvez fosse brega, não sei. Peguei um sapato de bico quadrado, mas levei alguns tênis também, os meus estavam em péssimo estado. Fiquei olhando para o meu pé calçado com um tênis de uma famosa marca americana. Pela etiqueta, aquele tênis custava metade do meu salário. Era surreal.

Peguei umas camisas sociais e dei minhas “compras” como encerradas. Alexandre provava um tênis após o outro, sem saber qual escolher. Acabou levando dois daquela marca alemã, além de calça e camisa.

André entrou no carro carregado de sacolas. Tinha “comprado” muita coisa. Ele estava claramente tentando impressionar Adriana. Agora que estava mais animada ela parecia corresponder às investidas dele. Tinha visto os dois se despedirem com um beijo depois do jantar na noite anterior. Podia jurar que tinha ouvido a porta do quarto dela se abrir depois que todos tínhamos deitado. Talvez isso justificasse o bom humor matinal dela. Que pensamento mais machista, disse para mim mesmo. Mas foi o que me pareceu.

A formação de casais tinha sido algo natural. Adalberto e Amanda estavam juntos e não escondiam de ninguém. Dormiam no mesmo quarto e trocavam beijos de língua e tapinhas na bunda em público. Eu e Alice éramos mais discretos nas demonstrações públicas de afeto, mas não escondíamos de ninguém que também estávamos dormindo juntos.

Eu tinha lido em algum lugar que eram necessários dez mil seres humanos para preservar a continuidade da espécie, por causa daquelas coisas complicadas de genes recessivos e mutações. Bem, Osvaldo Cruz estava contribuindo com três casais até agora.

-Agora vamos aos presentes ! – André me tirou do meu devaneio. Sim, ainda tinha os presentes, havíamos combinado isso. Alexandre bateu palmas.

Seria uma longa manhã.

26 de dezembro

Acordei de ressaca. Eu não estava acostumado a beber tanto. Na verdade, antes da “coisa”, eu não costumava beber era nada. Era um bebedor iniciante.

Ao meu lado na cama Alice roncava e babava. Tinha me surpreendido ao chegar para a ceia com um belo vestido vermelho e sapatos da mesma cor, além de um colar enorme. Mal tinha se sentado e se serviu de um prato que alimentaria três pedreiros famintos. Essa era a minha garota. Elegante e faminta.

A ceia de Natal foi animada e aconchegante. Pela primeira vez todos pareciam bem. Havia comida de sobra graças ao Supermercado Faciliti. Três perus, carne de porco, lasanha, macarrão, arroz – sem passas, graças aos deuses – maionese, salpicão, muito vinho, champanhe e uísque.

Eu lembrava de flashes do que tinha acontecido. Lembrei de ter ganho uma gravata e uma carteira.

Minha cabeça latejava. Levantei, ainda meio tonto. Ao chegar no corredor senti cheiro de café e percebi o som da chuva. Não estava chovendo ontem. Não tinha chovido nenhum dia depois da “coisa”, pelo que eu me lembrava.

Cheguei na cozinha e André estava lá, comendo os restos da ceia avidamente. Ele tinha bebido pouco na ceia, estava claro pela forma esfuziante que ele me cumprimentou. Resmunguei um bom dia e me servi de um xícara grande de café. Depois do primeiro gole minha alma voltou ao corpo e conseguir pensar com coerência.

-Essa chuva vai estragar a nossa mudança… – comecei.

André deu de ombros.

– Não precisamos nos apressar, o prédio não vai sair correndo de lá – disse, debochado.

Ele estava com um sorriso de quem tinha transado na noite anterior. Eu e Alice tínhamos transado? Não me lembro. Será que devo perguntar ou seria indelicado?

Uma rajada de vento mais forte balançou a janela e me tirou dos meus pensamentos. A luz piscou. Depois, mais uma vez.

– A energia está assim desde que eu acordei – disse André, despreocupado.

– Se cair algum fio nós…

– Vamos ficar sem energia porque ninguém aqui é eletricista – completou a minha fala Adalberto, entrando na cozinha. Bom dia.

Adalberto tinha sido uma das sensações da ceia. Chegou vestido num terno verde, com calças e sapatos da mesma cor. Não faço a mínima ideia de onde ele conseguiu aquilo, nem sabia que vendiam coisas assim aqui na cidade. Bebeu quantidades cavalares de uísque com soda. A última coisa que me lembro dele era se agarrando com Amanda.

-Sim, é verdade – concordei, enquanto Adalberto sentava e se servia. Isso pode ser um problema – comecei.

-Esse hotel tem gerador? – perguntou André.

Ele mal havia acabado de falar quando a energia acabou de novo.

07 de janeiro

E então parou de chover.

Tinha chovido sem tréguas desde depois do Natal. A energia oscilou muito. Perto da virada do ano ficamos quatro dias no escuro.

Toda a comida perecível estragou. A era dos belos bifes suculentos, dos perus e frangos ficara para trás. Agora comíamos arroz, feijão e macarrão. A chuva tinha estragado as verduras nos sítios onde nos abastecíamos também. Nem salada tínhamos.

Quando ficou claro que a energia não voltaria, ou demoraria a voltar, Adalberto e André organizaram uma verdadeira operação de guerra. Foram em todos os mercados disponíveis e trouxeram os perecíveis que puderam encontrar. Colocaram tudo em isopores com o gelo disponível. Foi uma solução paliativa. Mesmo assim, muita coisa estragou.

Agora a energia estava de volta. Como? Ninguém sabia. Algum sistema automático. Algum sobrevivente eletricista em algum ponto da rede a reparara. Ninguém sabia. Ninguém se importava. Tarde demais para a nossa comida, pensei amargamente.

A moral do grupo estava baixa. Estavam todos irritados e tristes, mas eu esperava que a parada da chuva animasse a todos.

Contribuíra muito para o acabrunhamento do grupo a postura de Agnes. A idosa senhora não parava de repetir que estávamos sofrendo um castigo divino, que depois do arrebatamento vinha o diluvio e que nós tínhamos que nos arrepender dos nossos pecados se quiséssemos ser poupados das torturas do inferno.

Mesmo debaixo de chuva Agnes saia todos os dias para rezar no Santuário Nossa Senhora Aparecida. Quando Amanda expressou preocupação, Adalberto disse sardonicamente que devia deixar ela ir. “Quem sabe ela pega um pneumonia e morre” e deu uma das suas risadas desagradáveis.

Naquele primeiro dia sem chuva ela saiu pela manhã e Adalberto aproveitou para convocar uma reunião com nós sete.

-Vamos organizar uma expedição até Parapuã para procurar comida fresca – começou ele, olhando para André.

André tinha se tornado o braço direito de Adalberto. Com os votos dele, de Adriana – os dois estavam declaradamente juntos agora – e Amanda, eles tinham a maioria em todas as votações, porque Agnes sempre se recusava a votar, tornando eu, Alice e Alexandre a minoria.

– Porque Parapuã? Pode ter acabado a energia lá também – afirmei, irritado.

– Porque lá é pequeno e perto. Se tiverem sobreviventes serão poucos. É uma operação de baixo risco. Iremos em três carros e quero vocês três conosco.

O tom dele era autoritário. Eu ia retrucar, mas Alice percebeu e apertou a minha mão. Assenti com a cabeça e os preparativos começaram imediatamente.

Quando chegamos no primeiro supermercado em Parapuã ficou claro que ele tinha sido arrombado. Havia vidro quebrado e umas manchas de sangue seco. Adalberto e André entraram na frente, armas em punho. Eu vinha logo atrás, arma na cintura, tenso e de ouvidos abertos. Nos espalhamos, cobrindo os corredores lentamente. Os outros vieram atrás de nós.

Foi Alexandre que chegou primeiro no balcão de frios.

– A carne está boa – começou ele, e então soltou um grito.

Corremos para lá. E ninguém estava preparando para o que vimos.

Uma garotinha de uns sete anos estava caída atrás do balcão. Evidentemente estava morta a pouco tempo. Tinha uma expressão triste no rosto.

Alexandre chorava agarrado a mim. Todos, até Adalberto, estavam chocados. Amanda se adiantou e examinou o corpo. Ela tinha nos dito que era técnica em enfermagem.

– Ela tá com as mãos e os pés machucados e infeccionados. Provavelmente se feriu no vidro da porta. Deve ter morrido de sepse.

Se levantou e então o lábio dela tremeu. Começou a chorar copiosamente nos braços de Alice, que também começou a chorar.

Eu desviei o olhar e me afastei. Era a primeira morte que víamos. Nós sabíamos que nossos entes queridos estavam mortos. Nossos pais, mães, esposas e filhos, até nossos cunhados, gatos e cachorros tinham desparecido. Só podiam estar mortos, ou tinham sido arrebatados como dizia a Agnes. Mas era o primeiro corpo que encontrávamos. Senti um peso no peito. O instinto de sobrevivência tinha nos mantido ocupados, distraídos da perda daqueles que amamos. Mas agora a morte estava ali, na nossa frente, personificada em uma criança de olhos tristes.

Adalberto foi o primeiro a se recuperar e começou a recolher as carnes. A garotinha tinha comido pouco. Tinha muito leite espalhado e bolachas. Como tinham sido os últimos momentos dela ali, sozinha e doente? Esse pensamento não deixava a minha mente.

Alice apareceu com um lençol e cobriu o corpo da garotinha.

-Eu quero enterrá-la – disse Amanda, fungando o nariz.

-Não temos tempo para isso, porra! – berrou Adalberto. Pode ter outros sobreviventes. Eles podem ter armas. Temos que pegar tudo e sair logo.

Saquei a minha arma.

-Baixa a bola, caralho. Se ela quer enterrar a criança, vamos enterrar a criança. Temos todo o tempo do mundo. – gritei.

-Você não tem coragem de atirar em mim, professor…começou Adalberto, e ele sorria.

-Dessa distância até a Agnes transforma essa sua cabeça grande numa polpa de fruta, imbecil – retruquei, valente.

Ninguém se mexia, ninguém sequer respirava. Vi André com a mão na arma que estava na cintura. Só esperava uma ordem de Adalberto. Se ele fosse rápido o suficiente, eu estaria morto. Mas não abaixei a arma.

A ordem de Adalberto não veio. Os segundos escorriam lentamente, pareciam anos.

-Tudo bem, enterrem a garota. Tem uma praça a duas quadras daqui. Agora abaixa essa arma, professor – disse Adalberto.

Então eu fui procurar uma pá.

14 de dezembro

Amanhã vai fazer um ano que a “coisa” aconteceu.

Agora eu, Alice e Alexandre moramos na casa que foi de uma tia minha, próximo da escola Maria Aparecida Lopes. Escolhemos lá porque perto há um supermercado que não tinha sido arrombado e o terreno da escola serviria para fazermos uma horta.

Depois do acontecido em Parapuã a convivência com o grupo de Adalberto ficou insustentável. Nos mudamos antes de algo pior acontecer. Agnes também abandonou o grupo. Foi morar na “casa de Deus”, ou seja, lá no velho santuário onde a encontramos. De vez em quando levamos uns alfaces para ela.

O grupo de Adalberto partiu a cinco meses em direção a Adamantina. Nunca mais voltaram. Temos a cidade inteira para nós quatro. E para o Perebas, que só sente falta de passarinhos para caçar.

Em breve, seremos cinco. Alice está grávida. Muito grávida. Estimamos sete meses, talvez oito.

Enquanto monto o berço que será do meu futuro filho ou filha, fico pensativo. E se o parto não dar certo. E se os dois morrerem? E se a energia acabar e não voltar nunca mais? E se a comida acabar? E se a horta não prosperar? E se um grupo de outra cidade vier e nos matar a todos?

Apesar dessas preocupações, eu nunca tinha estado mais feliz. Minha nova vida era, sob muitos aspectos, melhor do que a antiga. Tinha perdido peso, parado de fumar e dormia como uma rocha depois de um dia de trabalho pesado na horta e na plantação de mandioca que Alexandre estava começando. Acordava sempre de bom humor e ao lado de uma linda mulher.

Era melhor do que passar o dia empurrando mouse e batucando num teclado. Ah, isso era mesmo.

Terminei de montar o berço e ganhei de recompensa um suco de limão natural e um beijo na boca da mulher que eu amava.

A vida poderia ser boa, afinal.

15 de dezembro

Silêncio.

Aquele silêncio opressivo de novo.

Me levantei da cama, assustado. Eu teria sonhado?

Não, não tinha sonhado. Eu estava na cama onde horas antes tinha adormecido feliz ao lado de Alice, terrivelmente grávida.

Mas aquele silêncio me incomodava.

Eles devem estar na horta, pensei eu. Levantei e joguei água rapidamente no rosto.

Na cozinha, o café estava frio. Era de ontem.

Tive um pressentimento. Abri a porta e gritei.

Ninguém respondeu.

Gritei mais.

Chorei.

Corri.

Eu estava sozinho.

Porra, Teixeira!

-Central, tem um féretro pequeno entrando pelo portão noroeste. Eles estão indo para o setor 3G.

-Copiado, Almeida. Setor 3G, quem ficou responsável pela recepção de novas almas hoje?

-É o Teixeira, chefe.

-Puts, o Teixeira. Alguém viu ele hoje?

-Eu vi, chefe. Ele tava saindo pelo portão sul.

-Saindo???

-Acho que ele foi assombrar o sobrinho-neto dele de novo, chefe.

-Porra, Teixeira. Pereira, leva o Batista e o Ferreira e vão até lá. Tragam ele de volta, nem que seja na base da porrada.

-Certo, chefe.

Puff!

Puff!

Puff!

-Senhor, o féretro do setor 3G tá chegando na sepultura. Acho que é uma criança. Precisamos da recepção agora!

-Porra, criança é foda. Tem que ser uma recepção muito bem feita ou vai dar merda. Algum voluntário? Ninguém? Tá, Garcia, vai você.

-Porque eu? Só porque eu fui mulher quando morri?

-Não, só porque você tá na minha frente agora. Vai logo!

-Certo, chefe!

Puff!

-Senhor, féretro grande chegando pelo portão principal. Ainda não dá para saber para qual setor eles vão.

-Certo, Almeida, monitore e me avise quando souber para onde eles vão.

Puff!

-Senhor, o Teixeira não está na casa do sobrinho-neto. Deixei o Batista e o Ferreira lá montando guarda.

-Fez bem, fez bem. Mendes, dá uma geral no cemitério. Vá até todos os túmulos que o Teixeira costuma frequentar. E se o encontrar diga que eu vou matá-lo.

-Ele já está morto, chefe. Todos nós estamos.

-Não me diga! Você é um gênio, Mendes! Vai logo!

Puff!

-Senhor, o féretro grande tá indo para o mausoléu da maçonaria. Estão quase chegando.

-Droga, é um VIP. Precisamos de uma recepção especial. Eu vou.

-Mas chefe, quem vai ficar no…

-Sem mais. Eu não quero erros como o da semana passada. Lima, você fica no comando agora. Prioridade máxima para achar o Teixeira, ok?

-Sim, senhor, senhor!

Puff!

-Chefe, tem um féretro pequeno chegando pelo portão sudeste.

-Copiado, Almeida. Aqui é a Lima, estou no comando agora. Para que setor o cortejo está indo?

-Ué, cade o Penteado? Acho que estão indo para o 7H, vou confirmar.

-O Penteado foi recepcionar um VIP no mausoléu da maçonaria. Confirme o destino do féretro quando puder.

-Copiado, chefa. Pera…tropeçaram numa pedra e quase deixaram o caixão cair. Hahahahahaha.

-Não é engraçado, Almeida.

-É porque a senhora não viu, chefa.

Puff!

-Pronto, a recepção do setor 3G tá feita. Ela tinha doze anos e…

-E você deixou ela sozinha, Garcia? Esqueceu do protocolo? A família já foi toda embora?

-Porra, eu volto lá.

Puff!

-Chefa, o féretro do portão sudeste tá indo mesmo para o setor 7H. É mulher.

-Copiado, Almeida. Quem tá no 7H hoje?

-Eu estou, Lima. Até que enfim o Penteado largou o osso, hein?

-Porra, Teixeira. O que você está fazendo aí? Era para você cobrir o setor 3G hoje!

-É uma longa história, chefa. Eu tenho bons motivos, garanto. Eu posso fazer a recepção agora e…

-Não, vem para cá agora, o Penteado quer falar com você quando voltar. Almeida, faz a recepção do 7H.

-Quem vai ficar no monitoramento de chegada, chefa?

-Machado, fica você no monitoramento.

-Tudo eu, tudo eu!

Puff!

-Chefa, eu não achei o Teixeira…

-Eu acabei de falar com ele, Monteiro. Estava no setor 7H. Volta lá e diz que se ele não aparecer aqui agora eu vou possuir aquele sobrinho-neto bexiguento que ele tem e fazê-lo pintar a sepultura dele de rosa fosforescente.

-Certo, chefa!

Puff!

-Chefa, deu merda no setor 3G. O espírito da garota grudou na mãe.

-Alerta de espírito obsessor ! Alerta de espírito obsessor! Não é um treinamento! Todas as unidades, impeçam que esse espírito saia do cemitério! Agora!

Puff!

-Voltei, o VIP tá seguro. Como estão as coisas?

-Obsessão no enterro do 3G. A Garcia deixou a nova alma sozinha e…

-Chefe, a mãe da adolescente tá saindo do cemitério. Eu não consigo soltar a alma. Acho que vamos perder ela e…

-Monteiro? Monteiro? Câmbio, câmbio, todas as unidades, respondam…

-É o Teixeira, chefe. Espírito obsessor controlado. Estou levando ela de volta ao túmulo.

-Porra, Teixeira!

A última vestal

Os soldados derrubaram facilmente a porta do templo. Abriram espaço para o magistrado Arcádio entrar na frente. O homem, baixo e calvo, parecia apreensivo ao entrar naquele recinto que também para ele já tinha sido sagrado. Avançou a passos hesitantes e parou em frente da pira sagrada, ladeado por Cornélio, o chefe da guarda.

Defronte a pira do fogo sagrado cinco virgens vestais bloqueavam a passagem, usando as suas tradicionais vestes brancas e seu penteado de seis tranças. Assim que viram os guardas entrarem no recinto sagrado elas cobriram suas cabeças com o tradicional véu, como faziam nas cerimônias.

Arcádio estava disposto a acabar com aquilo rapidamente. Pigarreou, deu um passo a frente e começou:

-Por ordem de Flávio Teodósio, pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, imperador de todos os romanos, estamos encerrando os serviços do templo dessa deusa pagã. As senhoras estão dispensadas e deverão deixar…

Arcádio ainda falava quando uma das virgens vestais avançou em sua direção com um punhal tirado das vestes na mão. Ele recuou instintivamente. Cornélio se adiantou e bloqueou a trajetória da atacante com seu escudo, ao mesmo tempo em que dava uma estocada com a sua lança curta. Ela caiu, mortalmente ferida.

Só então Cornélio pode ver quem fizera aquele ataque insensato. Era Fábia, de uma família ligada a sua por muitas gerações. Ele mesmo tinha estado naquele templo, vinte anos atrás, para a consagração dela. Foi um dia de festa. Afastou as lembranças com um sacudir de cabeça.

-Senhoras ! – gritou Cornélio. Não é necessário mais derramamento de sangue. Saiam em ordem e pacificamente e nada acontecerá com vocês !

-Jamais ! – respondeu a mais velha da virgens vestais, que Cornélio reconheceu como Licínia, filha de uma família que já havia dado muitos senadores e governadores para o império. Morreremos defendendo a chama sagrada de Vesta, sem a qual Roma não pode existir.

-Prendam todas. Matem as que resistirem – ordenou Arcádio, e havia firmeza na sua voz.

Cornélio e seus homens avançaram. Em poucos minutos estava tudo acabado. O chão de mármore estava coberto do sangue das cinco virgens vestais. E foi aí que Cornélio se lembrou que o número delas deveria ser seis.


Pulqueria estava com o coração apertado. Queria estar na frente do templo ajudando a defendê-lo, mas sua líder Licínia havia lhe dado outra missão.

Desfez o penteado das seis tranças rapidamente. Trocou sua túnica por uma comum e saiu em lágrimas por uma porta lateral, carregando uma bolsa.

Aquele templo havia sido a sua casa pelos últimos dez anos. Ela havia terminado o noviciado e agora poderia fazer parte dos rituais. O que seria dela agora ?

As ruas estavam lotadas de gente naquela hora da manhã e ela avançava lentamente. Enquanto passava pelas pessoas apressadas, Pulqueria pensava no que fazer. Com certeza não podia voltar para casa. Seus pais tinham se tornado devotos cristãos e a entregariam. Tinha algumas moedas no bolso. Daria para pagar por um quarto em alguma pensão na parte baixa da cidade por alguns dias.

Pulqueria estava quase chegando no Tibre quando teve a sensação de estar sendo seguida. Olhou várias vezes para trás e não conseguiu ver nada. Estava agora a poucos passos da ponte que a levaria para a parte baixa da cidade. Era só entrar na primeira pensão que encontrasse e estaria segura.

Foi puxada repentinamente para um pequeno corredor por uma mão forte. Não teve tempo de gritar pois sua boca foi tampada.

-Não precisa ficar assustada. Estou aqui para te ajudar. Seu nome é Pulqueria, certo ?

Ela negou com a cabeça, aterrorizada.

-Não precisa mentir para mim. Você foi vista saindo do templo de Vesta. O magistrado Arcádio ordenou que todos os soldados da cidade a procurem.

Ela continuou negando com a cabeça.

-Escute. Todas as suas companheiras estão mortas. Esse sera o seu destino também se você não me deixar ajudar.

Os olhos de Pulqueria se encheram de lágrimas. O misterioso homem soltou a mão da boca dela.

-Precisamos ser rápidos. Qual é o seu plano ?

Ela engoliu as lágrimas.

-Eu ia ficar numa pensão do outro lado da cidade e…

-Não, muito arriscado – interrompeu o homem. Vá até o portão oeste. Pegue essas moedas, compre uma mula e vá pela estrada rumo a Ravena. Está sem vigilância hoje. Ao chegar lá procure Probo, o boticário, e entregue esse anel a ele. Você será bem recebida.

Pulqueria ficou uns segundos olhando as moedas e o anel em sua mão.

-Porque me ajudas, nobre senhor ? – perguntou ela.

-Por que eu não concordo com o que aconteceu hoje – disse ele, simplesmente.

-E eu posso saber seu nome, gentil senhor ?

-Eu me chamo Cornélio. Agora vá, não se demore mais!


Pulqueria e Cornélio tiveram que se mudar várias vezes. Estiveram em Mediolano, na Helvécia e na Gália Cisalpina.

Foi lá que ela morreu, durante um parto mal sucedido. Depois da sua partida Cornélio pode ver o que ela trazia na misteriosa bolsa que carregava desde que fugira de Roma com a sua ajuda. Eram todos os registros do templo de Vesta, desde a sua fundação.

Cornélio enterrou os papéis junto com a sua amada, sob uma lápide que ele mesmo escreveu:

Aqui jaz Pulqueria, a última das vestais.

O sonho

Era a quinta manhã seguida que Nathalia acordava depois de ter o mesmo sonho. Era um sonho esquisito. Ela estava de pé no topo de uma pequena colina. A pouca distância havia uma grande construção quadrada. Era um castelo, e dos grandes. Nathalia ficava ali, parada, cheia de medo, observando o castelo. Sentia vontade de ir até lá, mas o medo a paralisava. E então o sonho acabava e ela acordava suada e apreensiva.

“Isso tem que acabar. Ou eu entro nesse castelo no sonho ou vou procurar um médico” pensou Nathalia, antes de se levantar e ir tomar banho para ir para escola.


A lua cheia brilhava em um céu estrelado. Rajadas de vento cortavam a noite, amenizando o calor sufocante. Tudo estava quieto. Nada se mexia.

Nathalia se encheu de coragem e desceu a colina quase correndo. De repente se viu defronte ao castelo. Havia luzes lá dentro. Uma pequena ponte conduzia até à entrada. Resoluta, ela venceu o medo e caminhou até lá.

Ela respira fundo. “Hoje não. Hoje eu não vou desistir. Eu vou entrar”.pensou. E seguiu caminhando. Atravessou a ponte. Nunca tinha chegado tão longe. Mais alguns passos e ela estaria dentro do castelo. Parou para descansar. Suas pernas pesavam como chumbo, apesar dela ter andado somente alguns metros. Tomou coragem, e apreensiva, entrou no castelo.

Assim que ela atravessou o umbral, todo o medo que ela estava sentindo desapareceu, como se tivesse sido arrancado num passe de mágica. Em lugar do medo, uma grande paz a invadiu. Seguiu caminhando, como se já tivesse estado ali antes. Ela sabia aonde ir. Só não sabia como, nem porque. Mas seguiu caminhando. Chegou até a um amplo pátio de pedra. E o que viu lá a fez perder a respiração.

Dezenas, talvez centenas, de pessoas estavam lá. Vestidas todas de branco. E só então ela percebeu que também estava vestida assim. Estavam todos sentados em cadeiras de espaldar alto. Enquanto andava entre as pessoas sentadas, notou que havia alguns lugares vagos. Subitamente, parou. Olhou para o lado. Havia uma cadeira com o seu nome escrito. Ela sentou-se.

Aquele silêncio a estava incomodando. Ninguém falava nada, apesar dos olhares curiosos que eram dirigidos a cada pessoa que chegava e tomava o seu lugar. Ela olhou para o lado. Uma garota ruiva, olhos castanhos e sardas se sentava à sua direita. Deviam ter a mesma idade. A garota retribuiu seu olhar, e Nathalia percebeu que a ela também não estava entendendo nada. Do lado esquerdo estava sentado um jovem alto, negro e de cabelos curtos. Ele olhava fixamente para frente, e parecia tenso. Então ela também olhou para frente.

Havia um grande palco, ou tablado, e nada mais. Uma mesa ocupava o centro, com algumas cadeiras atrás. Não havia ninguém lá. Apesar disso, todos continuavam no mais absoluto silêncio.

Aos poucos, o número de cadeiras vagas foi diminuindo. Pessoas de várias etnias estavam chegando. Negros, asiáticos, índios. Nathalia achou que todos pareciam ser jovens como ela. Sentiu vontade de falar, de conversar com a garota ruiva do lado, mas o silêncio era tão profundo que ela sentia que ele não devia ser quebrado.

O tempo passou, mas Nathalia não soube precisar se foi muito ou pouco. Ainda havia algumas cadeiras vagas, mas já fazia algum tempo que não chegava mais ninguém. O silêncio continuava. E então ele foi quebrado. Era uma voz possante, porém calma. Ecoou pelas paredes do pátio, como se mil alto-falantes a estivessem reproduzindo.

“Caros escolhidos. Estamos muito felizes que estejam aqui. Infelizmente, alguns ainda não entenderam o chamado. E nós só poderemos começar nossa missão quando todos estiverem presentes. Rezem, meus filhos e filhas, para que todos os escolhidos atendam ao chamado. E não tenham medo. O Altíssimo está com vocês, não temam, não desanimem. Ele os fortalecerá e os sustentará com a mão direita de sua justeza. Vão em paz, e que o Senhor Deus os acompanhem”.

Então Nathalia acordou, e não sentia mais medo.


O sonho continuava, sempre igual, todas as noites. E sempre acabava do mesmo jeito. Ainda havia cadeiras vazias. Alguns escolhidos ainda não tinham entendido o chamado.

Nathalia havia se habituado aos sonhos. Distraía-se observando as pessoas que chegavam. Tinha contado, como pode, as cadeiras que existiam naquele pátio. Se ela não tinha errado nas contas, havia 144 cadeiras, em 24 fileiras de seis cadeiras. Pessoas das mais variadas origens ocupavam essas cadeiras. Do lado da ruivinha sentava-se uma loira, alta, magra e altiva, com lindos olhos claros, que parecia sempre estar assustada. Seguindo a sua fileira, ao lado do negro que ela tinha visto da primeira vez, um outro negro, de longos cabelos no estilo rastafari, que olhava para todos os lados sem parar, como se estivesse louco para sair correndo daquele lugar, e um jovem de traços indígenas, miúdo e magro, que sempre parecia estar se divertindo com alguma piada que só ele tinha entendido.

Estava sendo legal até agora, pensou Nathalia. Era melhor do que sonhar com o crush, pelo menos. Ela só gostaria que a missão fosse revelada logo. Então, depois da sua oração habitual, adormeceu.


Já estavam no castelo a a algum tempo. Nathalia distraia-se olhando as pessoas que chegavam. A cadeira em frente a sua nunca tinha sido ocupada, e ela imaginava quem poderia ser a pessoa a quem ela estava destinada. Um rapaz alto passou pela sua fileira. Nathalia olhou para ele, e não o reconheceu. Deveria ser a primeira vez dele, pois ele parecia assustado e confuso. Ela lhe deu um sorriso de encorajamento, e ele foi se sentar bem a sua frente, na cadeira que estava sempre vazia.

“Que bom, um a menos que está faltando” – pensou ela. De repente, ela teve a sensação de que o pátio estava mais cheio do que costume. Parecia que havia mais pessoas dessa vez. Ou seria só impressão? Ela tentou contar as cadeiras que faltavam. Na fileira ao lado sempre tinha um lugar vago. Que hoje estava ocupado. A mesma coisa na fileira de trás, onde uma jovem de traços orientais se sentava, com um olhar curioso, num lugar que antes ficava vazio. Seria hoje o grande dia?

Nathalia olhou para os rostos agora familiares dos jovens da sua fileira e viu que todos tinham percebido o que estava acontecendo. A ruiva ao seu lado chegou a segurar a sua mão. Ela tremia.

Aos poucos a inquietação foi se espalhando entre todos. Era como se uma corrente elétrica estivesse percorrendo o local. Todos pareciam excitados. Alguns chegaram a se levantar dos seus lugares para poder ver melhor. E então, pela primeira vez, eles quebraram o silêncio do lugar. O burburinho, discreto no início, começou a aumentar. Já não havia mais dúvidas. Pela primeira vez, todos os escolhidos estavam presentes. Mas algo estranho estava acontecendo. Ao invés da babel de línguas que era de se esperar, todos pareciam estar se entendendo perfeitamente, como se falassem a mesma língua.

De repente, uma estranha luz iluminou a penumbra do pátio. Nathalia conseguiu enxergar algumas portas que não tinha visto antes. Estavam atrás do palco, ou tablado, e de repente se abriram, todas ao mesmo tempo. Homens e mulheres, todos vestidos de branco, entraram foram se postar nas cadeiras que ficavam atrás da mesa que ela tinha visto no primeiro dia.

Não foi preciso dar a ordem, todos imediatamente se levantaram, e o burburinho cessou. A expectativa estava no ar, tão palpável que quase dava para vê-la.

No centro da mesa, um velho alto e de longo bigode levantou-se e começou a falar. Ele não usava microfone, nem tampouco existia qualquer sistema de som no pátio, mas sua voz soou limpa e clara, e todos perceberam que era dele a voz que encerrava o sonho, todas as noites.

“Sejam todos bem-vindos! Quis o Senhor Altíssimo que hoje fosse o dia escolhido para a reunião daqueles que Ele escolheu. Vamos bendizer a Deus e celebra-Lo por tudo o que ele fez por nós! Bom é bendizer e cantar o seu Nome. “Deus tenha piedade de nós e nos abençoe! Faça brilhar a sua face entre nós, para que sobre a Terra se conheça o teu caminho, e a tua salvação entre todos os povos. Que os povos te rendam graças, todos juntos! Amém !”

O “amém” em resposta foi tão forte e uníssono que os pelos dos braços de Nathalia se arrepiaram instantaneamente. Ela também começou a tremer.

Após essa oração, o homem ficou em silêncio por alguns instantes. Em seguida, sorriu.

“Eu sei que alguns de vocês devem ter me reconhecido, mas para os que não conseguiram, eu sou Melquisedec, rei de Salém. E estes – disse, fazendo um gesto que abrangia o resto dos presentes na mesa – serão seus mestres, que os guiarão na difícil missão que vocês tem pela frente”.

Então sua expressão mudou. O sorriso desapareceu. Seu tom de voz mudou.

“Estamos vivendo um tempo final. A humanidade tem cometido muitos crimes, e se afastado do reto caminho do Senhor. Está chegando a hora da colheita, e os ceifeiros já estão a caminho”.

“Mas o Senhor tem uma misericórdia e bondade infinitas. Ele resolveu dar a humanidade uma nova chance de se redimir e aplacar a sua ira. Foi para isso que vocês foram escolhidos. Vocês são a última esperança da humanidade para evitar o Apocalipse, e que as hordas do Inferno prevaleçam por sobre a criação de Deus”.

Um “Oh” de surpresa encheu o pátio. O burburinho recomeçou, e Nathalia sentiu que suas pernas tinham virado gelatina. Melquisedec fez um gesto impaciente e todos se calaram.

“Não tenham medo. Sintam-se honrados por terem sido escolhidos. Grande é a missão de vocês, mas o Altíssimo não os teria escolhido se não tivesse certeza de que vocês podem cumpri-la. Não temam, pois a mão do Senhor está sobre vocês”.

“A partir de amanhã vocês serão divididos por grupos, cada qual com um mestre, que darão melhores detalhes de como vocês vão cumprir a sua missão. Perseverem na oração, e confiem em Deus, pois somente com Sua força vocês conseguirão terminar a missão que lhes foi confiada”.

“Se estiverem ao lado de Deus, vocês triunfarão, e seus nomes serão contados entre os amigos de Deus. Se falharem, as portas do Inferno prevalecerão”.

“Vão em paz, meus filhos e filhas. Que o Senhor os acompanhem e guiem os seus passos”.

O sonho acabou, e Nathalia acordou. A missão havia sido revelada. Ela tinha que ajudar a impedir o Apocalipse. “Que droga, eu só queria ir para a faculdade de psicologia” pensou ela, e levantou emburrada para tomar banho.

O enterro

Astolfo respirou fundo. Ele não precisava, porque estava morto a 95 anos, mas há momentos em que até um fantasma quase centenário necessita fazer isso.

Esse era um desses momentos. Pelo rodizio, era a vez de Astolfo receber o mais novo recém-chegado ao campo santo. Quase sempre era um momento difícil. A maior parte dos novos defuntos tinha dificuldades em perceber o óbvio: que eles estavam mortos e que aquela seria a sua nova “vida eterna”.

Já dava para enxergar ao longe o féretro chegando. Vinham pelo portão leste. Quando Astolfo era vivo, aquele era um fundo de vale onde corria um simpático riacho. Mas hoje em dia havia confinado o curso d’água num leito de cimento e construído uma avenida por cima. Idiotas, pensou Astolfo. No riacho pelo menos dava para nadar.

O cortejo era pequeno, tinha umas vinte pessoas, no máximo. Pareciam estar com pressa. Astolfo procurou o novo defunto entre elas. Geralmente os novos fantasmas acompanhavam seus próprios enterros. Faziam o maior escândalo, tentavam falar com os vivos, choravam. Era patético. Mas Astolfo não localizou nenhum fantasma.

Chamou sem demora Perebas, o gato, e o mandou procurar na capela mortuária em frente ao cemitério. Talvez o novo fantasma tivesse ficado para trás. Isso era um problema. Se ele não estivesse no cemitério até o momento do sepultamento, viraria uma alma penada, que nunca teria paz até ser exorcizada e desaparecer para sempre.

Fantasmas não podem andar livremente entre os vivos e ficavam confinados ao cemitério. A exceção era o primeiro de novembro. Astolfo sempre usava esse dia para assombrar o seu trineto, Astolfo IV, que vivia como um nababo na mansão que ele construíra com muito esforço. Sempre dava certo. Na semana seguinte o túmulo de Astolfo estava pintado e com uma enorme coroa de flores.

Os coveiros estavam trabalhando rápido. Nem havia acontecido a tradicional despedida aos pés do tumulo, o que Astolfo achou muito estranho. Antes que o gato pudesse voltar o corpo já tinha sido enterrado e o pequeno grupo tinha se disperso. Nem sinal do novo fantasma.

Bem, não é mais problema meu, pensou Astolfo, e nesse momento o fantasma de Emengarda se materializou ao lado dele. Astolfo não gostava dela em vida, e passara a detestá-la após a morte. Tinha certeza que ela havia morrido uma semana depois dele só para poder infernizar a sua pós-vida o mais rapidamente possível. Respirou fundo de novo.

– Onde está o novato ? – quis saber ela.

– Não veio com o corpo – resmungou Astolfo.

– Já verificou na capela ?

– Claro que sim, irmãzinha – e a última palavra foi dita com o maior desprezo que um fantasma quase centenário pode ter.

– E se ele tiver sido enterrado vivo ?

– Isso não acontece mais hoje em dia – respondeu Astolfo, enquanto pensava se devia infernizar a vida do seu trineto para ele mudar seu tumulo de cemitério.

– Vou verificar – e antes que Astolfo pudesse dizer algo ela despareceu na terra.

Invadir o tumulo de outra pessoa era considerada a maior grosseria que um fantasma pode fazer. Só mesmo Emengarda para fazer isso, pensou Astolfo enquanto imaginava como faria para descobrir qual é o melhor cemitério da cidade.

– Astolfo, tem uma coisa esquisita lá. Desce para ver – Emengarda já tinha voltado.

– Eu não vou fazer isso – respondeu Astolfo, resolutamente.

– Astolfo de Melo Proença ! Desce lá agora ou…

– Ou o que ?

-Eu chamo a nossa mãe !

-Você não ouse perturbar o descanso da nossa mãe. Ela não sai do tumulo desde…você sabe.

Emengarda sabia. O enterro de um sobrinho-bisneto de somente três anos havia confinado a mãe deles ao tumulo pelos últimos cinquenta anos. Se arrependeu da ameaça na hora.

-Se quiser saber porque o novato não apareceu desce lá – disse Emengarda, e desapareceu.

Astolfo respirou profundamente. Ele estava respirando profundamente vezes demais para um fantasma que não precisava respirar profundamente.

Olhou para os lados para ver se ninguém estava olhando. Desceu.

O caixão estava cheio de pedras.

-Malditos fraudadores de seguro !

A espiã

Assim que entrou no apartamento ela jogou a bengala e o óculos escuro num canto e desabou no sofá. Estava exausta. Aquele disfarce de pianista cega tinha sido um erro. A Central gostava desses planos elaborados. Teria sido mais fácil se disfarçar como uma simples garçonete.

Talvez o erro tivesse sido entrar para a Central, pensou ela, mas depois afastou esse pensamento. Era divertido na maior parte do tempo. Como aquela vez no Marrocos, onde passara seis meses como agente de viagens ou no Brasil, como vendedora de biscoito na praia.

Ah, o Brasil. As praias, o calor, o sacolé de uva. Um dia ainda passaria férias lá.

Como se eu tivesse férias, pensou ela, enquanto tirava os sapatos. Não havia férias na Central. E nem plano de aposentadoria. Pelo menos o salário era bom. E a minha família está viva e bem. Suspirou.

Soltou os longos e belos cabelos loiros. Estavam fedendo a fumaça de tabaco, assim como suas roupas, e ela fez uma careta. Era melhor tomar um banho antes de fazer o relatório para a Central. Nem havia muito a reportar, o alvo não apareceu no bar pela terceira noite seguida, o que era muito incomum. Bom, pelo isso dava para colocar no relatório.

Se despiu e só então deu falta do seu relógio de pulso. Devia ter perdido, ou então ter sido roubada. Ia ter que fazer um formulário 13-B para reportar a perda, já que tinha sido enviado pela Central. Ela odiava o formulário 13-B. Burocratas malditos.

Entrou no chuveiro e procurou esquecer o formulário 13-B, a taverna esfumaçada e o disfarce incomodo. Relaxou. Do apartamento vizinho vinham sons que ela conhecia bem. A vizinha enxerida do 319 estava transando de novo. Antes da missão acabar eu tenho que dar um jeito naquela loira aguada, pensou ela.


A pianista cega polonesa Janel Kowalski foi encontrada morta ontem em seu apartamento, informou a autoridade policial do trigésimo distrito. O corpo da artista, desaparecida a uma semana, foi encontrado no banheiro do seu apartamento. A suspeita é que ela tenha sofrido um acidente doméstico enquanto se banhava depois da sua última apresentação no Toogood and Sons Bar. A embaixada polonesa foi avisada e está cuidando dos tramites legais para o traslado do corpo.


Serguei tinha uma má notícia para dar para o seu chefe, e odiava isso. O chefe também odiava, e isso era um problema, porque quando ficava de mau humor o homem gostava de fazer a vida de todos ao seu redor o mais miserável possível. Respirou fundo, bateu na porta e entrou.

O chefe parecia de bom humor, ou entendiado, nunca dava para ter certeza. Serguei deu seu melhor sorriso falso e resolveu ir direito ao ponto.

-Senhor, tenho novas informações sobre a morte da agente 32 em Londres mês passado.

-Ótimo. O chefe tentou sorrir, mas como não estava muito acostumado a fazer isso o máximo que ele conseguiu foi uma careta indistinta. Descobriram quem a matou ?

-Não senhor, é que…

-Como não ??? Está na cara que o MI6 descobriu o disfarce dela e…

-O corpo encontrado no apartamento não era dela, senhor. Era de uma civil inglesa chamada Emma que morava no apartamento ao lado.


Numa praia do sudeste do Brasil uma bela mulher de curtos cabelos negros e olhos azuis fez um gesto com a mão e num sotaque carregado pediu ao vendedor um sacolé de uva. Se refastelou na sua cadeira de praia e suspirou com a felicidade que só aqueles que não vão ter quer preencher nunca mais um formulário 13-B conhecem.

Fabrício

No final de uma ruazinha de trezentos metros num bairro tranquilo ficava a casa da família Silva e Souza. Era uma casa comum, com dois quartos e uma garagem grande, num bairro periférico repleto de outra casas bem parecidas.

Naqueles dias, a reservada família Silva e Souza era composta pelo pai, um comerciante quase cinquentão que estava perdendo os cabelos, a mãe professora de artes, um pouco mais nova e fumante e Fabrício, o filho do casal.

Fabrício era um garoto (na época não se usava o termo pré-adolescente ainda) de doze anos absolutamente comum. Altura mediana para a idade, cabelos e olhos pretos, gostava de futebol, de andar de bicicleta e tirava notas entre sete e oito na escola. Não era popular, nem CDF. Simplesmente não chamava a atenção de ninguém.

Depois de mais um dia absolutamente comum e rotineiro, a família Silva e Souza foi dormir cedo, como sempre. Bem alimentados, felizes e com planos para o dia seguinte.

Dois dias depois, alertados pelos professores de Fabrício, os policias entraram na simpática casinha dos Silva e Souza no final daquela rua tranquila e a encontraram vazia. Não vazia figurativamente falando, mas na prática mesmo. Tudo havia sido retirado da casa, incluindo móveis, eletrodomésticos e até as cortinas da janela.

Atônitos, os policiais foram ouvir os vizinhos. Ninguém havia notado nada de diferente, nem tinha visto nenhum caminhão de mudança. Era o começo do mistério.

As investigações se voltaram então para a parte financeira. Os Silva e Souza deveriam ter sumido para não pagarem as suas dívidas. Uma devassa minuciosa foi feita em todas as contas, da empresa e da família. Não havia débitos impagáveis. Pelo contrário, tudo estava indo muito bem.

Sem opções, a polícia se voltou para a imprensa. Policiais foram até a TV pedindo por informações da família. Os jornais e os programas de rádio cobriram o caso diuturnamente por semanas. Nada funcionou. Ninguém ligou. Ninguém sabia de nada.

Vinte anos depois, dois advogados se apertaram as mãos e depois foram beber juntos. O imbróglio judicial sobre as propriedades da família Silva e Souza finalmente tinha sido resolvido. A agora depreciada casinha que pertenceu à família foi a leilão e acabou arrematada por um bom preço pela família Pereira.

Os Pereira eram bem diferentes dos Silva e Souza. O pai tinha cerca de trinta anos, de porte atlético e jovial. A mãe tinha dez anos a mais e era uma dona de casa dedicada que fazia excelentes tortas. O filho, de sete anos e lindos cabelos negros, por uma incrível coincidência, também se chamava Fabrício.

Os Pereira reformaram a casinha e viveram cinco felizes anos no final daquela ruazinha de trezentos metros. Eram a alegria do bairro, sempre organizando festas e participando dos eventos da comunidade.

Uma certa noite, numa sexta-feira como muitas outras, os Pereira foram dormir felizes depois de um excelente jantar com os Camargo da casa em frente. E foi a última vez que eles, seus móveis, eletrodomésticos e cortinas foram vistos por alguém.

As extensas investigações também não deram em nada. Advogados foram contratados.

Muitos anos depois, os próximos donos daquela casa no final da rua foram os Medina. O sexagenário e culto casal tinha um filho, Fabrício, de onze anos e penetrantes olhos negros.

Ele sabia que tinha só mais um ano nesse plano de existência.

O desaparecido

Era o dia 10 de janeiro de 1942 quando Edmundo desapareceu.

Se não fosse o seu lamentável desaparecimento, aquele teria sido um dia bom para Edmundo. Era o seu tão aguardado décimo terceiro aniversário e sua mãe tinha feito a sua comida favorita: frango com quiabo.

As testemunhas diriam depois que a última vez que viram Edmundo foi naquela tarde, quando ele desceu a ladeira da sua casa e virou à direita na praça do mercado, com as moedas que havia ganho da madrinha tilintando no bolso da sua calça curta. Estava feliz indo comprar um refrigerante na venda do português.

Era o dia 12 de janeiro de 1942 quando Letícia informou à polícia o desaparecimento do seu filho.

Os policias prontamente subiram o morro e interrogaram várias pessoas sobre o desaparecimento do garoto. Não encontraram nenhum indício de crime. A ocorrência teria morrido ali mesmo se não fosse Astolfo, o jornalista.

Era o dia 13 de janeiro de 1942 quando Astolfo publicou uma matéria no jornal local classificando o desparecimento de Edmundo como “misterioso” e fazendo um perfil pouco elogioso da sua mãe.

Letícia era uma jovem viúva. Seu marido, segurança da fábrica de móveis, um homem forte e honrado, havia sido encontrado morto na sua cama seis meses antes do desaparecimento de Edmundo. Duas tragédias em tão pouco espaço de tempo deveriam suscitar suspeitas sobre o envolvimento de Letícia, escreveu Astolfo.

A opinião pública reagiu muito mal depois da matéria de Astolfo. Letícia era apontada, à boca pequena, com a responsável pelo desparecimento do seu filho. O burburinho cresceu até o ponto das autoridades não poderem mais ignorar a situação.

Era o dia 17 de janeiro de 1942 quando a polícia prendeu Letícia.

A jovem viúva e mãe foi interrogada duramente por várias horas na delegacia. Ao final do depoimento o delegado Everton declarou à imprensa que havia “fortes indícios” da participação de Letícia no desparecimento do filho e que ele pediria ao juiz a exumação do cadáver de seu falecido marido para esclarecer as “verdadeiras circunstâncias” da sua morte. A suspeita permaneceria presa “para mais interrogatórios” concluiu o policial.

O jornal que Astolfo trabalhava nunca vendeu tanto como na edição do dia 18 de janeiro de 1942.

Era o dia 25 de janeiro de 1942 quando o dr. Roberto ingressou com um habeas corpus no Fórum local em favor de Letícia. O juiz o deferiu no mesmo dia. Letícia foi solta.

O dr. Roberto era um jovem advogado recém formado na capital. Filho do segundo maior comerciante de secos e molhados da cidade, havia retornado a pouco tempo ao município, onde pretendia exercer a sua profissão. Era tido pelas moças casadoiras como um dos melhores partidos da cidade.

O povo da cidade reagiu indignado à soltura de Letícia. Todos tinham certeza da sua culpa. As mais mirabolantes histórias já circulavam sobre como ela tinha matado o próprio marido e depois, o filho. O jornalista Astolfo nunca trabalhou tanto como naqueles dias de fim de janeiro, publicando uma matéria atrás da outra sobre o assunto.

Era o dia 12 de fevereiro de 1942 quando dr. Roberto e Letícia foram vistos na estação de trens pegando o expresso para a capital juntos. Não faltou quem reparasse que os dois estavam de mãos dadas e que Letícia tinha uma bela e nova aliança no seu dedo. Eles nunca mais voltaram à cidade, nem quando o pai do dr. Roberto o deserdou.

A fuga do casal suscitou o maior burburinho que a cidade já tinha visto desde a sua fundação a cinquenta anos atrás. Cada um tinha sua teoria a respeito, não faltavam testemunhas que juravam terem informações que ninguém mais tinha e os que afirmavam categoricamente que sempre souberam que Letícia não prestava.

Com o tempo a versão que se tornou mais aceita foi de que Letícia envenenara o marido pobre e depois sacrificara o próprio filho num ritual de amarração mágica para conseguir o amor do abastado dr. Roberto. Devidamente enfeitiçado, o advogado a libertara da prisão e os dois fugiram juntos.

Era o dia 10 de janeiro de 1962 quando Edmundo reapareceu. Ele ainda tinha tinha treze anos e o bolso cheio de moedas.