Mitos – parte 3

10 de outubro de 1971.

Morre Sir Cyril Burt, um dos mais importantes psicólogos britânicos. Seu trabalho sobre a hereditariedade da inteligência, baseado em 53 pares de gêmeos idênticos separados ao nascer, influenciou toda uma geração de psicólogos educacionais britânicos e americanos e foi decisiva na reestruturação escolar britânica depois da II Guerra Mundial.

1974

Leon Kamin, psicólogo de Princeton, chama a atenção para “esquisitices estatísticas” nos relatórios dos estudos dos gêmeos de Sir Cyril Burt. Entre o primeiro estudo com 20 pares de gêmeos e o famoso segundo estudo, com 53 pares, as porcentagens permanecem idênticas !

1976

Olivier Gillie, repórter do Sunday Times, tem acesso aos cadernos de pesquisa de Sir Cyril Burt. A farsa cai de vez. A maioria dos gêmeos do estudo nunca existiu, assim como as senhoritas Howard e Conway, que supostamente haviam feito as entrevistas com eles !

Seria cômico se não fosse trágico. Sir Cyril Burt, cavaleiro do Império Britânico, enganou todo mundo. E morreu sem ser pego.

O estudo sobre os 53 pares de gêmeos idênticos de Cyril Burt parecia ser o sonho de qualquer psicólogo. Gêmeos separados são o estudo de caso perfeito para separar o que é hereditário do que é adquirido no contato com a família ou com o meio em que se vive.

Na época do estudo de Cyril Burt os partidários de que a inteligência é mais influenciada pela educação e pelas condições de vida do que pela hereditariedade estavam ganhando terreno. Mas a pesquisa de Cyril Burt dá novo fôlego à disputa. Suas conclusões são óbvias: a genética e a hereditariedade têm mais peso na inteligência do que o meio que se vive e a família.

Vários psicólogos se apóiam nesse estudo para proclamar a origem genética das desigualdades sociais e raciais. Governos conversadores na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos citam a sua pesquisa para justificar cortes drásticos nos orçamentos de ajuda social e nos programas de educação para os menos favorecidos. É, o estrago foi grande.

Mas não foi a única farsa de Cyril Burt. Ele também falsificou outros trabalhos, como o que pretendia mostrar a degradação do QI médio dos ingleses no último século. Ainda tentou se fazer passar como o inventor da análise fatorial, um complexo método estatístico, na verdade concebido por Charles Spearman no início do século. E escreveu, com nomes falsos, dezenas de “cartas de leitores” se auto-elogiando para jornais e revistas cientificas.

É, parece que Sir Cyril Burt precisava mesmo era de… um psicólogo. Irônico, não ?

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