Um morto muito louco

“Descansar em paz”  pode ser algo difícil para alguns defuntos, por mais famosos que tenham sido em vida. Um que deu muito trabalho para conseguir o repouso eterno foi  Nicolló Paganini.

Paganini foi um gênio. Compositor, revolucionou a arte de tocar violino. Era tão bom no que fazia que surgiram boatos que ele tinha um pacto com o diabo (sua aparência não ajudava muito) ou que era um assassino condenado que havia aprendido tocar violino na prisão, onde só podiam lhe oferecer uma corda.

Teve uma vida agitada, excursionando pelas principais capitais européias e ganhando rios de dinheiro, apesar do seu vício pelo jogo e de seu “Cassino Paganini” ter falido em Paris em 1838.

Mas os gênios também morrem, e Paganini bateu as botas aos 56 anos de idade em Nice, na França. Era o dia 27 de maio de 1840, e o violinista morreu de tuberculose. Mas mesmo depois de morto ele não sossegou.

Paganini não tinha sido um católico exemplar. Por isso o bispo de Nice negou a ele a extrema-unção e um enterro cristão. No dia seguinte a sua morte o caixão foi deixado num porão alugado, sendo transferido depois de poucos dias para um quarto particular no hospital de Nice.

Achillino, filho de Paganini com a bailarina Antonia Bianchi, entrou com uma ação contra o bispo de Nice para conseguir uma sepultura cristã para seu pai. Perdeu. Apelou, e o caso acabou indo parar no Tribunal Papal em Roma. Perdeu de novo.

Enquanto isso o corpo de Paganini foi transferido para o lazareto (misto de hospital e asilo para leprosos) de Villefranche.

Mas depois de um mês o corpo começou a exalar mau cheiro e Paganini acabou enterrado por amigos na praia, ao lado de uma velha torre circular, e fechado com uma lápide. Nessa ocasião já fazia um ano que o compositor havia morrido.

Mas seu filho achava essa uma sepultura indigna para um grande mestre como Paganini. Alugou um barco, desenterrou o pai e pretendia leva-lo para Genova, onde o compositor havia nascido. Mas as autoridades da quarentena de Genova recusaram-se a aceitar o desembarque do barco pois eles tinham partido de Marselha, onde havia um surto de cólera. Deram meia volta então e tentaram desembarcar em Cannes, mas também sem sucesso. Sem alternativas Achillino, a contragosto, enterrou o famoso pai na rochosa e desabitada ilha de Sainte Ferreól, defronte de Croisette.

Paganini ficou quatro anos enterrado ali, debaixo de uma pedra, até que o seu zeloso filho conseguiu transferir o corpo para Parma, onde o violinista tinha vivido durante muitos anos. Mas, sem poder enterrar o pai num cemitério cristão, acabou sepultando-o no jardim de sua casa mesmo.

Oito anos depois o corpo de Paganini foi desenterrado, reembalsamado e enterrado de novo no mesmo local. Então descansou por longos 23 anos (ufa !).

Só depois desses 23 anos que o Papa amoleceu e resolveu conceder uma sepultura cristã ao grande Paganini. Ele foi então desenterrado e sepultado na igreja de Madonna della Staccata, em Parma. Enfim parecia que ele ia descansar em paz, 36 anos depois de morto !

Final feliz ? Nada disso. Ainda havia um último ato a ser encenado.

Em 1893 um violinista húngaro disse ter certeza que o corpo enterrado na Igreja era de um impostor. Paganini foi mais uma vez desenterrado e seu filho, então com 67 anos, foi chamado. Quando caixão foi aberto Achillino reconheceu o esfarrapado sobretudo do pai, além da “face magra e descarnada, as costeletas e o longo cabelo que caía pelo pescoço e cobria os ossos brancos dos ombros e das costeletas brilhantes”. Foi o último ato da agitada vida post morten de Paganini.

Hoje em dia os restos mortais que deram tanto trabalho para finalmente descansarem em paz se encontram num belo mausoléu no cemitério Della Villetta em Parma, conforme esta página do site FindaGrave.com. Nada mal para alguém  que tinha sido enterrado pela primeira vez na praia, não é  mesmo ?

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