O papa pop

E o Papa Bento XVI vem aí. Habemus Papa, então ! (tá, eu sei, essa foi péssima. Desculpem.)

A blogosfera (pelo menos a parte dela que eu leio) me pareceu muito critica com relação a visita do Sumo Pontífice. Alguns criticando os gastos, outros a segurança, outros fazendo associações equivocadas com o fato de Bento XVI ter sido da Juventude Hitlerista. Um dos poucos textos realmente bom que eu li foi, curiosamente, de uma atéia assumida (o que tem de ateu “dentro do armário” é uma grandeza), a Liliana do Chá de Hortelã. Vale a visita, caso vocês não conheçam.

O fato é que o Papa atual não tem o mesmo carisma que tinha seu antecessor. João Paulo II se parecia mais com  um avô amoroso. Bento XVI inspira mais respeito, para não dizer medo. Parece um daqueles professores severos de Matemática. Ou de História. Eu tinha um professor de história que…bom, deixa para lá, vamos seguir o foco.

Outro fato inegável é que Bento XVI dificilmente vai entrar para a história com a mesma importância de João Paulo II. O papa polonês ajudou a derrubar o comunismo, tinha um carisma invejável, viajou o mundo todo, fazia exorcismos aos 80 anos de idade e morreu aclamado pelo povo como santo. Por mais que Bento XVI se esforce, seu papado será de transição. Transição exatamente para que ninguém sabe, mas isso não importa agora. A menos que aconteça algo extraordinário, a história pouco se lembrará de Bento XVI.

Enquanto isso o povo aclama João Paulo II como santo, apesar de seu pontificado ter sido marcado por alguns acontecimentos esquisitos. A começar pela morte misteriosa de João Paulo I, somente um mês depois de assumir o cargo.

Já em 1984 David Yallop em “Em nome de Deus” levantava a hipótese de João Paulo I ter sido assassinado. Pode parecer “teoria da conspiração” demais para alguns, mas algumas coisas nessa história fazem sentido, principalmente se considerarmos o escândalo da “quebra” do Banco Ambrosiano em 1982 e que João Paulo I estaria investigando no momento que teria sido, supostamente, assassinado.

Esse escândalo rendeu muito pano para manga em anos posteriores, culminando com a condenação do cardeal Paul Marcinkus, secretário de Estado do Vaticano e diretor do Instituto de Obras Religiosas (IOR) pela Justiça italiana. Baseado na Concordata para afirmar que a Itália não tem jurisdição sobre o Vaticano, João Paulo II se recusa a entregar o cardeal à Justiça italiana, que por causa disso tem que acabar absolvendo-o.

Sobre a Teologia da Libertação, que se voltou a falar tanto hoje em dia, eu não creio que tenha sido algo que desabone o Papa. Leonardo Boff & Cia. Ltda. tentaram aproximar demais o cristianismo do marxismo. Tentar pegar o Papa de surpresa na reunião dos bispos latino-americanos em Puebla, no México, em 1979,  e jogar na cara dele a teologia de libertação também não foi algo muito delicado.. O que queriam os teólogos da liberdade ? Que um Papa que havia lutado contra o comunismo em seu país abraçasse a teologia da libertação, que diz que Marx foi um “companheiro de jornada” ? Faça-me o favor, né ? E o Leonardo Boff hoje é “asssessor especial” da presidência da República. De Gaulle estava mesmo certo. O Brasil não é um país sério.

Os adeptos da “teoria da conspiração” e fãs do Dan Brown também estranham a canonização de José Maria Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei, em 1992. Se tudo o que você sabe sobre a Opus Dei foi aprendido no “Código da Vinci”, esqueça.  A Opus Dei é MUITO pior do que o mais inspirado Dan Brown poderia fazer parecer. Comece lendo “Opus Dei: os Bastidores” de Dario Fortes Ferreira,  Jean Lauand e Marcio Fernandes da Silva para ter uma pálida idéia de como essa seita, esse verdadeiro câncer dentro da Igreja Católica age. É lamentável que o Papa João Paulo II tenha sucumbido ao poder da Opus Dei e canonizado seu fundador. No livro que citei fica bem claro como o “prestigio” de ter um fundador santo ajuda a Opus Dei a conseguir mais membros, ou melhor, mais vítimas. Para mim, canonizar o Escrivá foi a maior bola fora do João Paulo II.

E, para dizer que não falei das flores, os escândalos de abusos sexuais de crianças por partes de padres, que também “estouraram” no pontificado de João Paulo II. Uma das críticas a atuação do Papa naquela época foi a não punição rápida e exemplar dos acusados. Mas peraí. A Igreja não prega o perdão ? Então o Papa errou em dar uma segunda chance aos acusados de abusos sexuais ? Queriam que ele pregasse uma coisa e fizesse outra ? Um Papa hipócrita, era isso que a mídia queria ? Lógico que os acusados tem que ser julgados civilmente e ficarem presos como qualquer cidadão comum, mas isso não deve exclui-los da Igreja caso, claro, se arrependam.

Outra critica nessa mesma época foi o “limpa” que João Paulo II mandou fazer nos seminários expulsando os seminaristas homossexuais. OK, pode se criticar a postura da Igreja com relação aos homossexuais, mas a partir do momento que a Igreja adota uma postura homofóbica, para usar um termo “politicamente correto” (argh !) seria uma contradição ela aceitar padres homossexuais em seu seio. Esse é um raciocínio tão simples e tão lógico para mim que eu tenho dificuldade em entender porque esse assunto causa tanta polêmica.

Com um antecessor tão marcante como João Paulo II, praticamente canonizado pelo gosto popular e ao mesmo tempo dono uma biografia que não deixa de ter alguns pontos polêmicos e que gera discussões até hoje, o Papa Bento XVI vai ter que se conformar em ser um coadjuvante na história dos Papas. A menos é claro, que uma falha na segurança aconteça e que algum fundamentalista neo-pentecostal mate o Papa aqui no Brasil. Não seria algo inédito. João Paulo II sofreu um atentado e em 1979, aqui mesmo no Brasil, um protestante zeloso entrou na Basílica de Nossa Senhora Aparecida e transformou a imagem em 200 cacos espalhados pelo chão. Talvez essa seja a única chance de transformar Bento XVI em um papa pop. Ou não.

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3 comentários sobre “O papa pop

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