Nazaréville – as aventuras do jovem Jesus

Aproveitando que o Papa Bento XVI ainda está entre nós – por pouco tempo, para gáudio de alguns – vou escrever mais um post sobre religião. Sei que estou correndo o risco de algum desavisado cair por aqui e concluir que esse é um blog para discutir religião, mas acho que vale a pena.

Well, se o meu caro leitor ou a minha querida leitora freqüentou as aulas de catecismo (mesmo que obrigado) ou a Escola Dominical ou se teve a curiosidade de ler os Evangelhos uma vez na vida então sabe que a infância e a adolescência de Jesus foram deixadas em segundo plano pelo funcionário público Mateus, pelo professor Marcos, pelo médico Lucas e pelo pescador João.

O melhor que temos nos quatro evangelhos sobre a infância de Jesus foi escrito por Lucas (curiosamente, o único autor não judeu de toda a Bíblia), que lacônico, nos diz que “o menino crescia, e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. … E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens.” (Lucas 2:40, 51-52).

Mas o que talvez o meu caro leitor e a minha querida leitora não saibam é que existem alguns evangelhos apócrifos (escritos que não entraram na lista autorizada pela Igreja para fazerem parte da Bíblia) que se dedicam a contar a fascinante história da infância de Jesus.

Muitas passagens desses evangelhos são desconcertantes, para dizer o mínimo. Nelas Jesus se parece muito com o Clark Kent em Smallville, aprendendo a usar os seus “superpoderes”, daí o título do post. Claro que muitas delas podem não ser verdadeiras, mas isso se aplica também aos evangelhos canônicos, não é mesmo ? Vamos ver algumas dessas passagens.

No Evangelho Pseudo-Tomé (aquele mesmo, que teve que ver para crer) vemos Jesus, num sábado, brincando de fazer passarinhos de barro. Foram reclamar com José que Jesus estava profanando o sábado. E vejam o que aconteceu:

“José veio ao local e ralhou com ele, dizendo: Porque fazes no sábado o que não é permitido fazer ? Mas Jesus, batendo palmas, dirigiu-se aos passarinhos de barro ordenando-lhes: Voai ! E os passarinhos foram todos embora, gorgeando.”

Fantástico, não ? Mas Jesus já mostrava naquela época a indignação que o faria arrasar os vendilhões do templo. O filho de Anás (o sumo sacerdote que no futuro condenaria Jesus) estava por lá e fez escoar umas poças de água que Jesus estava represando. Foi uma má idéia:

“Ante essa atitude, Jesus indignou-se e disse: Malvado, ímpio e insensato. Será que as poças de água te estorvavam ? Ficaras agora seco como uma árvore sem que possas dar folhas , nem raiz nem frutos.”

E o rapaz ficou imediatamente seco. Mas Anás um dia ia dar o troco em Jesus, apoiando a sua condenação à cruz. Olho por olho, dente por dente.

O jovem Jesus também podia ser meio vingativo. Um dia esbarraram nele no meio da multidão e ele caiu,. E, “Irritado, Jesus lhe disse: Não prosseguirás o teu caminho. E imediatamente o rapaz caiu morto.”

Depois de tudo isso, José achou que devia dar uma boa bronca em Jesus. O garoto estava dando muita dor de cabeça. Nem a Super Nanny resolveria o caso. Metade da cidade estava falando mal dele. Então “José chamou Jesus à parte e o admoestou da seguinte maneira: “Porque fazes tais coisas, se elas se tornam a causa de eles nos odiarem e nos perseguirem ? Jesus replicou: Bem sei que estas palavras não vêm de ti. Mas calarei por respeito à tua pessoa. Esses outros, ao contrário, receberão o seu castigo. E no mesmo instante aqueles que haviam falado mal dele, ficaram cegos”.

Temperamental o jovem Jesus, não ? Mas José não deixou por menos. Invocou a sua autoridade de pai e “quando José percebeu o que Jesus havia feito, agarrou sua orelha e a puxou fortemente”. Menos mal que o pai o jovem Jesus respeitava e que, depois de humilhar um professor que José contratara para ele (carpinteiros deviam ganhar bem naquela época) Jesus fez uma pregação e todos voltaram ao normal. Ufa !

Mas o jovem Jesus não dava só trabalho. No Evangelho Árabe da Infância (uma espécie de versão “revista e ampliada” do Evangelho do Pseudo-Tomé) vemos que Jesus era um filho dedicado. Um dia, viajando com seus pais, Maria reclamou que o calor estava muito forte. Jesus deu um jeito na situação:

“Então Jesus fincou no solo um pau seco que tinha na mão e que servia-lhe como bastão, dizendo com voz imperiosa: Proporciona nesse momento uma sombra agradável para minha mãe. E no mesmo instante aquela vara converteu-se em uma árvore copada e frondosa.”

Jesus também era um bom irmão. Um dia saiu para catar lenha com o irmão Tiago (meio irmão na verdade, porque José já fora casado e era viúvo quando desposou Maria, mas isso é outra história) e “quando chegaram ao lugar onde ficava a lenha, Tiago começou a apanhá-la e eis que uma víbora o mordeu, e ele se pôs a gritar e a chorar. O Senhor Jesus, vendo-o naquele estado, aproximou-se e soprou o local da mordida e Tiago foi imediatamente curado.”

Depois desses pequenos trechos, fica evidente o porque desses evangelhos não terem sido escolhidos para fazer parte da Bíblia, não é mesmo ?

Se você gostou desses trechos, ou se interessou pelo assunto, recomendo fortemente a leitura de Apócrifos – os proscritos da Bíblia, uma série de quatro livros da Editora Mercúrio que traz a tradução de alguns apócrifos e que serviu de fonte para as citações que fiz nesse post.

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4 comentários sobre “Nazaréville – as aventuras do jovem Jesus

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