2007: o ano em que vimos a primeira guerra virtual

História é algo complicado. Geralmente nós só percebemos a grandeza ou as conseqüências de certos acontecimentos depois de muito tempo.

Ainda está longe o momento em que compreenderemos, por exemplo, todas as implicações do atentado de 11/09 ou da invasão do Iraque. Ainda nem digerimos direito o fim da URSS e do comunismo na Europa Oriental, vejam só. E isso aconteceu no século passado…

Nessa linha, talvez 2007 seja reconhecido pelos historiadores do futuro como o ano em que as guerras cibernéticas começaram.

E tudo começou por causa de uma estátua. Na Estônia.

A Estônia é uma das ex-repúblicas da URSS que aproveitou o colapso do regime comunista em 1991 e declarou independência. Desde então tem tido um crescimento econômico invejável (tem renda per capta de US$ 3.000) e aderiu à União Européia.

Mas a Estônia tem um problemão para resolver: cerca de 30 % da sua população é de russos. Fruto da estratégia de Stalin, que deslocou russos para praticamente todas as repúblicas da URSS com o intuito de arrefecer o nacionalismo nelas.

Como parte da sua política de se livrar da influência russa, a Estônia tomou uma decisão simples, mas com um simbolismo muito forte: mandou remover um monumento em homenagem aos soldados do Exército Vermelho mortos na luta com os nazistas na II Guerra Mundial, que havia sido erguido em 1947 (veja notícia na BBC Brasil aqui).

A remoção do monumento causou dois dias de protestos dos russos que moram na Estônia, com um morto e quarenta feridos. O governo russo também protestou. Mas não ficou só nos protestos.

Logo depois da remoção do monumento, uma série de ataques cibernéticos praticamente isolou a Estônia do resto da Internet.

Os ataques foram do tipo DDOS (negação de serviço distribuído). Uma série de computadores foi infectada com bots que dispararam quantidades enormes de dados em direção aos servidores estonianos, sobrecarregando também os switches e roteadores.

Em uma semana os estonianos, com ajuda dos finlandeses, dos eslovenos e dos alemães, já tinham conseguido bloquear a maior parte do ataque. Mesmo assim, o servidor de e-mails do parlamento estoniano ficou fora do ar por quatro dias. Mas o pior ataque estava para acontecer.

Antecipando o pior, uma verdadeira operação de guerra foi montada na Estônia. A Internet é vital para os quase 1,5 milhão de estonianos. Lá, inclusive, se vota pela Internet e a penetração de telefones celulares é altíssima. Firewalls foram criados, servidores adicionais foram instalados, prioridades foram estabelecidas, especialistas de outros países foram chamados. A Estônia preparou uma verdadeira trincheira virtual para resistir aos ataques russos.

No dia 9 de maio, feriado na Rússia em comemoração ao dia da vitória sobre os nazistas, o ataque recomeçou com força total.

Estima-se que cerca de um milhão de computadores “zumbis” participaram do ataque à rede estoniana. Os 10 maiores ataques lançaram cerca de 90 Megabits de dados por segundo nas redes estonianas, durante dez horas seguidas. O maior banco do país ficou sem acesso à Internet durante mais de uma hora. Na pior fase do ataque, a Estônia ficou praticamente isolada do resto da Internet.

Os ataques arrefeceram depois do dia 10, mas continuaram por vários dias seguidos, principalmente a servidores de bancos e de sistemas financeiros. Mas os estragos foram menores do que se poderia esperar, graças à estratégia de defesa estoniana.

Passado o ataque, a Estônia partiu para cima da Rússia no campo diplomático. O Ministério da Defesa estoniano acusou formalmente o governo russo de estar por trás dos ataques e disse ter provas de que os ataques se originaram de IPs russos. O governo da Rússia, é claro, nega.

O ataque, tenha sido ele obra do governo russo ou não, marcou época. Essa semana em Genebra, durante o Geneva Security Forum, o ataque foi qualificado como “a primeira guerra cibernética”.

“Estamos presenciando uma corrida armamentista digital. Ela pode provocar enormes danos econômicos”, de acordo com Carlos Moreira, fundador e presidente da uma empresa suíça especializada em segurança informática, na abertura do Geneva Security Forum. (veja matéria completa sobre o evento nessa página da Swissinfo).

Os suíços tem razão em estarem preocupados. Com a alta informatização do país, um ataque ao estilo do que aconteceu na Estônia poderia ter graves conseqüências junto ao sistema financeiro mundial, devido à força dos bancos suíços nesse mercado. Por isso, desde 2003 o Ministério das Finanças e a Polícia Federal suíça juntaram esforços para a criação de uma central de inteligência cibernética com o intuito de monitorar possíveis ataques à infraestrutura de TI na Suíça.

Ainda é cedo para dizer, mas 2007 pode ter assistido à primeira de uma série de guerras cibernéticas. Com o mundo cada vez mais conectado, esse deve ser o caminho a ser seguido. Um ataque bem feito poderia literalmente paralisar toda a infraestrutura de comunicação de um país, causando o caos na vida real. Países mais ricos e tecnologicamente desenvolvidos já estão preparados para esse tipo de ataque. Estima-se que países como a China já tenham unidades de guerra cibernéticas prontas para agir. E o Brasil ? Bom, nós não conseguimos nem manter aviões no ar, quanto mais resistir a uma guerra virtual. Nossa sorte é de que somos um país pacífico e bem visto no mundo. Se bem que…será que existem muitos hackers na Argentina ?

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