A Opus Dei será uma nova Ku Klux Kan ?

Quando, em meados da década de 40, do século passado, Stetson Kennedy resolveu lutar contra a temível Klu Klux Kan, ele teve uma idéia simples mas ao mesmo tempo muito eficaz: se infiltrou na organização, descobriu os seus segredos e os veiculou para toda a nação através de um programa de rádio, “As aventuras do Super-homem”.

Stetson, é claro, não acabou com a Ku Klux Kan, mas refreou sua expansão por décadas. Ele descobriu, na prática, o poder da informação. Espalhando os segredos da Klu Klux Kan para que todos soubessem, Stetson fez mais do que os tribunais e os ativistas negros para afundar a organização racista.

Hoje em dia tem algo parecido acontecendo. E com a Opus Dei.

Se você nunca leu o “Código da Vinci”, a Opus Dei (do latim “Obra de Deus”) é uma prelazia católica fundada por São Josemaría Escrivá de Balaguer (beatificado durante o papado de João Paulo II) em 1928 em Madri, na Espanha. Seus membros principais, chamados de “numerários”, não são monges enclausurados, trabalham e estudam normalmente mas moram nas casas da ordem. Há também membros casados, chamados de supernumerários, que não moram nas casas. Ou seja, você pode ter um membro da Opus Dei ao seu lado e nem saber.

O tristemente célebre “Código da Vinci” guindou a Opus Dei às manchetes no mundo todo. E deu mais visibilidade a grupos que lutam contra ela a tempos. Assim como Stetson, esses grupos tentam lutar contra a Opus Dei espalhando seus segredos para as massas.

Só em português foram lançados nos últimos anos 5 livros sobre a Opus Dei, muitos deles escritos por ex-membros. (Veja a lista completa na capa do site OpusLivre).

Eu não pretendo entrar no mérito das práticas da Opus Dei. Mortificação corporal, a discriminação às mulheres, a absurda e anacrônica lista de livros proibidos aos membros, as técnicas sujas de recrutação de novos membros, o desprezo aos membros mais velhos ou que se retiram, isso tudo e muito mais você encontra muito melhor escrito nos livros que citei. O que eu quero discutir com esse post é: será possível mudar ou derrubar a Opus Dei somente com o poder da informação compartilhada ?

A Opus Dei não é a Ku Klux Kan, é claro. É muito mais poderosa.

Seu imenso sucesso financeiro e em número de membros faz dela hoje uma organização que a Igreja Católica não pode abrir mão. Até hoje muitos adeptos da Teoria da Conspiração dizem que foi o dinheiro que a Opus Dei supostamente entregou ao Vaticano para cobrir o rombo da quebra do banco Ambrosiano que acabou comprando a beatificação de seu fundador. Mesmo que seja mentira, só a canonização de um personagem tão polêmico como Escrivá já mostra o poder que a Opus Dei tem nos bastidores da Cúria Romana.

E o conservadorismo do Papa Bento XVI agrada muito à Opus Dei, que ainda não engoliu a modernização da Igreja Católica depois do Concílio Vaticano II. Aposto que a cúpula da Opus Dei está, por exemplo, comemorando a volta das missas em latim. Agora só falta o Vaticano ressuscitar o Index (lista de livros proibidos aos católicos, que foi extinto no Concílio Vaticano II) e a Santa Inquisição (que foi substituída pela Congregação pela Defesa da Fé pelo mesmo Concílio) para as coisas ficarem do jeito que a Opus Dei gostaria: uma volta ao tradicionalismo da Igreja Católica, praticamente um revival da Idade Média, sem as fogueiras. Ou com elas.

Ou seja, a Opus Dei tem aliados poderosos. E está começando a se mexer.

Marc Carroggio, responsável da relação do Opus Dei com os meios de comunicação internacionais, disse em entrevista a agência católica de notícias Zenit, na época do lançamento do filme “O Código da Vinci” que a Opus Dei quer “fazer dos limões uma limonada”, dando a entender que a prelazia não vai recuar e vai tentar virar a situação a seu favor.

Então, de um lado temos uma poderosa organização com tentáculos sociedade e na burocracia que sustenta a Igreja Católica. Do outro lado, alguns ex-membros dispostos a mostrar os seus segredos sobre a Opus Dei. Muitos deles, utopicamente , parecem acreditar que é possível “salvar” a Opus Dei de alguma maneira, mudando algumas de suas práticas consideradas inaceitáveis.

Ao lado dos acusadores da Opus Dei está a mentalidade “moderna” dos tempos atuais, em que costumes como auto-flagelação e outras práticas comuns à Opus Dei são vistas como algo politicamente incorreto e extemporâneo. Mas a Igreja Católica não dá bola para a opinião pública, nunca deu e não seria agora que isso iria mudar.

Meu palpite: empate. A Opus Dei vai continuar existindo, mas com um número reduzido de membros. Sem tantos membros, perderá prestígio dentro da Cúria Romana, mas continuará a existir e a tramar o seu retorno aos melhores dias. Exatamente como a Ku Klux Kan.

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4 comentários sobre “A Opus Dei será uma nova Ku Klux Kan ?

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