Os ossos da discórdia

Já que o assunto da moda na blogosfera continua sendo os macacos daquele-jornal-que-não-devo-dizer-o-nome, nada mais apropriado dar uma passada de olhos na teoria que diz que todos nós somos “primos” dos macacos.

A teoria está longe de estar completa, como vamos ver a seguir, e como eu não sou nenhum paleontólogo esse texto tem algumas simplificações e omissões propositais e tem a intenção de mostrar somente um panorama geral da situação. Portanto, só utilize-o no seu trabalho escolar se estiver totalmente desesperado.

Um dos problemas com a teoria de que nós e os macacos temos um ancestral em comum é a escassez de ossos. Bill Bryson, em seu excelente Breve História de Quase Tudo (leitura altamente recomendável) estima o número de indivíduos descobertos pelos paleontólogos chega a uns cinco mil, no máximo. Você poderia juntar todos os ossos de hominídeos conhecidos na carroceria de um caminhão, de acordo com ele. É pouco, e ainda por cima estão bem espalhados pelo globo. Na Índia toda, por exemplo, há só um esqueleto pré-histórico.

Com tão poucos indícios, a paleontologia hoje está mais para uma atividade digna de Sherlock Holmes. Ainda por cima, há a briga de egos. É impressionante como um osso recém-descoberto se encaixa perfeitamente na teoria daquele paleontólogo que o descobriu. Por isso, estamos longe de um consenso sobre os nossos ancestrais. Mas a teoria mais aceita é mais ou menos a que se segue.

Cerca de sete milhões de anos atrás, na África, um grupo de chimpanzés começou a se destacar dos outros. Foram os austrolapitecos. Eles desceram das árvores e começaram a andar sob duas pernas. Temos um esqueleto quase completo de um deles, batizado de Lucy (na verdade era uma fêmea), encontrado em Hadar, na Etiópia, além de alguns outros, que se julgam serem até mais antigos, mas não há consenso sobre isso.

Entre 2 e 3 milhões de anos parece que existiram umas seis espécies de hominídeos na África, até que os austrolapitecos subitamente sumiram. Foram subjugados, pelo que se acredita, pelo Homo habilis, o primeiro hominídeo a usar ferramentas. Sabemos muito pouco sobre o habilis: se conseguíssemos ressuscitar todos os indivíduos de que temos conhecimento hoje eles não encheriam um ônibus.

O habilis, por sua vez, foi sucedido pelo homo erectus, o primeiro a caçar, a usar o fogo, a deixar sinais de acampamentos e a cuidar dos fracos e frágeis. Acredita-se que pudesse falar. Até a década de 80, porém, pouco se sabia dele, até fantásticas descobertas no Lago Turkana, no Quênia.

Supõe-se que o homo erectus tenha sido o primeiro a sair da África para povoar o mundo, mas a teoria é controversa, porque parece que isso aconteceu muito rápido. Mas, como há ossos dele espalhados por literalmente meio mundo, sabemos que isso aconteceu.

A partir daqui as coisas ficam mais complicadas. O erectus se espalhou pelo mundo e evoluiu separadamente em vários lugares, fazendo surgir, por exemplo o homo neandrthalensis na Europa. Então, uma segunda onda de hominídeos saiu da África, a cerca de 100 mil anos: o homo sapiens.

Não há consenso sobre essa data, também. Há poucos ossos de homo sapiens antigos para se estudar. A primeira aparição de homo sapiens antigos  comprovada aconteceu em Israel (o que não deixa de ser curioso) há cem mil anos, mas são poucos os exemplares disponíveis.

A partir daí, tudo é obscuro. Não se sabe como o homo sapiens extinguiu os nossos primos, só sabemos que aconteceu porque estamos aqui hoje e eles não. De qualquer forma, foi um massacre e por isso a diversidade genética humana é tão reduzida. Há mais variação genética num grupo pequeno de chimpanzés do que em toda a humanidade junta. Isso significa que descendemos todos de um pequeno grupo de homo sapiens que deixou a África para conquistar o mundo e exterminar todos os nossos “primos” menos evoluídos.

Pelo menos é o que se acredita, apesar dos testes genéticos não serem conclusivos. É possível extrair DNA dos ossos antigos e isso já foi feito muitas vezes, o que resultou em descobertas como a de que os neandertais tinham um DNA totalmente diferente do nosso e que um cruzamento entre eles e nós resultaria em indivíduos estéreis, como as mulas. Mas os resultados dos testes não são totalmente confiáveis, como nos lembra o já citado Byll Bryson, já que existe contaminação do material genético na manipulação dos ossos.

Resumindo e encurtando a (nossa) história: um caminhão (literalmente) de ossos dispersos pelo mundo, testes genéticos pouco confiáveis e paleontólogos vaidosos. É sobre esse frágil esqueleto – com trocadilhos – que se sustenta a teoria da evolução do homem. Não é de se estranhar que ainda existam por aí teorias como o criacionismo ou “design inteligente” como está na moda hoje em dia. Ainda há muito o que descobrir.

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