Como um marinheiro superou 100 cientistas

Edmond Halley é um injustiçado. Primeiro porque quase ninguém escreve o nome  dele certo – é Edmond e não Edmund – e porque todo mundo só lembra dele por causa de um cometa que ele não descobriu mas que leva o seu nome.

Pouca gente sabe, mas foi uma idéia – ou um insight, para usar um termo atual – de Halley que levou ao primeiro empreendimento científico cooperativo internacional da história.

A idéia era simples: medir a posição de Vênus quando ele passar pela face do sol – o chamado trânsito de Vênus – de lugares selecionados da Terra e, com base nos princípios da triangulação, obter as distâncias da Terra até todos os outros corpos do sistema solar.

O problema é que os trânsitos de Vênus são bem irregulares. Eles acontecem em pares com oito anos de diferença, mas chegam a ficar mais de um século sem acontecer. No século XX, por exemplo, não aconteceu nenhum. Neste século aconteceu um em 2004 e vai acontecer outro em seis de junho de 2012 que, a propósito, é o último ano do Calendário Maia. Mas é claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ou não.

Mas, voltando ao Século XVIII, em 1761, quase 20 anos depois da morte de Halley, aconteceu um trânsito de Vênus. E os cientistas estavam preparados para ele.

Inglaterra, França, Irlanda, Rússia, Itália, Alemanha, Suécia e outros países enviaram mais de uma centena de cientistas aos quatro cantos do globo para medir o trânsito de Vênus e colocar a idéia de Halley em prática. O resultado ? Um fiasco.

Quase todo mundo teve problemas. Muitos observadores foram surpreendidos por guerras, doenças e naufrágios. Outros tiveram seus delicados instrumentos destruídos na viagem. Alguns nem retornaram para casa.

O francês Guillaume Le Gentil, por exemplo, foi escalado para observar o fenômeno na Índia. Seu barco se atrasou e ele perdeu o trânsito de 1761. Apesar disso ele aportou na Índia e esperou pacientemente pelo trânsito de 1769. Mas quando o grande dia chegou, o dia estava nublado e ele não conseguiu medir nada. Ao voltar para casa, ficou doente e seu barco foi afundado por um furacão. Quando finalmente conseguiu retornar à França, onze anos depois de ter saído, descobriu que a família o havia dado como morto e esbanjado toda a herança.

Mas não foram só os infortúnios e o azar dos observadores que fizeram o primeiro empreendimento científico colaborativo da história ser um fracasso. O maior problema, ironicamente, foi o excesso de observações. Os dados não batiam de jeito nenhum, fruto em grande parte de medições descuidadas.

Foi graças a uma medição bem feita do trânsito de 1769, efetuada no Taiti pelo amador James Cook (ele mesmo, o descobridor da Austrália), que o astrônomo francês Joseph Lalande pôde calcular que a distância da Terra ao Sol é de 149,59 milhões de quilômetros. Os dados seriam confirmados no século XIX por mais duas observações dos trânsitos de Vênus. E, se você gosta de exatidão, a distância exata é de 149.597.870.691 quilômetros.

Moral da história: às vezes é melhor contar  com um amador talentoso do que com uma centena de especialistas.

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