Dos maniqueístas à Inquisição

Como uma doutrina criada 10 séculos antes pode influenciar a criação da Inquisição ? Simples. Foi uma tragédia em quatro atos. Acompanhe:

Pérsia, século III

Mani (ou Manes) é um jovem de 24 anos que dizia ter recebido uma revelação direta de Deus. Pessoas que dizem que receberam “ligações pessoais” direto de Deus são um perigo. Paulo gastou muita sola de sandália depois de uma dessas na estrada de Damasco. Maomé também faria um estrago considerável depois que recebeu não uma, mas várias ligações senão do próprio Deus, de um dos secretários particulares Dele. E a história de Manes, apesar de menos conhecida, também não vai acabar bem, como nós vamos ver.

Manes começou fazendo uma salada entre judaísmo, cristianismo, gnose, budismo e masdeísmo. Rejeitava o Antigo Testamento, acreditava na reencarnação e desprezava a criação e o corpo físico – vistos como obra do demônio. Sua doutrina era dualista: o Bem versus o Mal. Mas, ao contrário das outras religiões, no maniqueísmo ninguém sabe quem vai vencer. A batalha acontece permanentemente, no mundo e dentro de cada um também.

Ele pregava o vegetarianismo, ascetismo e dividia seus fiéis em duas categorias: os puros ou eleitos, que haviam conseguido fazer triunfar o lado bom e que não precisariam mais reencarnar e os crentes ou ouvintes, que eram duplos e que teriam que voltar várias vezes para até conseguirem se tornar “eleitos”.

Claro que Manes se considerava o último dos profetas de Deus, a última encarnação do espírito que teria sido antes Adão, Enoque, Sem e Jesus. E, como sua encarnação mais famosa, ele não ficou parado: pregou no Irã, no Turcomenistão, na Índia e no Tibete. Antes de morrer sua religião já tinha se espalhado até o Egito e Roma. Não demoraria muito e estaria espalhada por todo o Império Romano.

Tudo parecia ir bem para o maniqueísmo, mas Diocleciano e seus sucessores cristãos proibiram a religião criada por Manes. Os maniqueístas tiveram que se esconder por um bom tempo. Mas a história não termina aqui.

Armênia, século VII

Um certo Paulo resolve reformar a doutrina de Manes. Retomando a questão da dualidade ele crê que o Demiurgo, (identificado como o Deus do Antigo Testamento) é o “lado mal” de Deus e se opõe ao Deus dos Evangelhos, que seria o “Deus bom”. O mundo teria sido criado pelo Demiurgo e as almas teriam sido aprisionadas nos corpos, sujeitos a roda das reencarnações. Por isso o “Deus bom” mandou Jesus para libertar as almas, mas o Demiurgo se levantou de novo e introduziu na Igreja o formalismo judaico. Visto assim, em resumo, até que faz sentido, né não ?

Paulo, é claro, rejeitava os sacramentos e o Antigo Testamento. Seus partidários foram perseguidos pelos imperadores bizantinos até que se estabeleceram na Trácia, perto de onde hoje é Plovdiv, na Bulgária e foram deixados em paz por algum tempo. Tá, muito tempo.

Bulgária, século XII

No começo do século XII surge outro reformador do maniqueísmo: Basílio, chefe dos bogomilos (uma seita cristã criada no século X). Para ele, não havia sido o Demiurgo que havia criado o mundo, mas sim os anjos maus. De resto, o mesmo estoque de idéias de Manes: rejeição à eucaristia, às igrejas, ao batismo, às imagens e ao Antigo Testamento. Basílio acabaria morto e seus correligionários fugiram em direção ao sul da França, onde se estabeleceram na Occitânia. Receberam o nome de cataristas.

França, séculos XII e XIII

É agora que nossa história começa a esquentar. Literalmente.

Os cataristas ou catáros, se você preferir, desenvolveram as idéias de Manes ao extremo. Retomaram a dualidade entre os “perfeitos”, que não iriam mais reencarnar, e que eram obrigados a se abster de comer carne e fazer sexo, e os simples crentes, que ainda não estavam preparados para serem salvos da eterna roda dos renascimentos.

A doutrina se espalhou por toda a Occitânia, até que chamou a atenção do papado. Em 1206 o Papa Inocêncio II ordenou a destruição da cidade de Albi, na primeira de uma série de lutas sangrentas que terminaria somente em 16 de março de 1244, quando o que sobrou dos catáros estava cercada no castelo de Montségur (onde vinha resistindo desde 1212) preferiu se auto-imolar numa gigantesca fogueira a se entregar.

Os catáros foram extintos, mas não as lendas sobre eles. Onze em cada dez “bruxos” juram que tiveram uma encarnação naquela época, inclusive Brida O’Fern, amiga de Paulo Coelho e que é a personagem principal do livro Brida, publicado por ele em 1990. Dizem também que os catáros estariam de posse do Santo Graal, que teria sido tomado deles pelos Templários. O fato de que não há registros históricos da presença dos Templários na guerra contra os catáros é irrelevante, é claro.

A ação enérgica contra os catáros foi a primeira da temida Inquisição. E tudo isso por causa de uma suposta revelação de Deus 10 séculos antes. Bem dizem que os planos Dele amadurecem lentamente…

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3 comentários sobre “Dos maniqueístas à Inquisição

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