O grande roubo de 1983

O ano era 1983. Ou 1984, talvez.

O mês era outubro. Mas pode ser que tenha sido em novembro também.

O dia era uma quarta-feira. Mas é possível que tenha sido numa quinta-feira. Só tenho certeza que não foi numa sexta-feira.

O cenário, um quintal e um pé de tangerina. Ou poncã. Ou mexerica. Eu nunca soube identificar direito essas frutas cítricas, nem naquela época e nem hoje.

Os personagens são meia dúzia de moleques – pré adolescentes, para usar um termo mais “moderno” – e uma velha ranzinza senhora idosa, dona Esmerinda, proprietária do quintal e do pé de tangerina em questão.

Dona Esmerinda não permitia que ninguém tocasse em suas frutas. No seu quintal também havia um pé de manga “coração-de-boi” que nós cobiçávamos. Mas nossa primeira opção sempre foram as tangerinas. Aos nossos olhos juvenis, aquelas frutas caindo no chão de tão maduras e apodrecendo era uma injustiça sem tamanho.

Então, no fatídico dia, o Rodrigo (ou será que foi o Ricardo ?) chegou esbaforido na minha casa com a notícia que dona Esmerinda tinha saído. E que o Trovão, o cachorro que ela usava para nos intimidar, também não estava a vista.

O Universo conspirava a nosso favor. Meus pais não estavam e minha casa era o ponto ideal para o ataque ao pé de tangerina porque fazia fundo com o quintal de dona Esmerinda, a poucos metros do pé das cobiçadas frutas.

Eu e o Rodrigo, ou o Ricardo, mais que depressa convocamos o resto do pessoal. Veio o trio de irmãos, Fernando, Ricardo e André. Eles não se davam, mas aquele momento exigia uma trégua. Veio também a dupla dinâmica Anderson e Luciano. Acho que o Nelson e o irmão dele, que esqueci o nome, também foram convocados, mas não me lembro direito.

Mandamos um batedor até as hostes inimigas. Acho que foi o Fernando. Ele voltou do teatro de operações com a notícia confirmada: nem dona Esmerinda e nem Trovão estavam a vista.

Organizei o ataque meticulosamente. Peguei uma bacia e dividi o pessoal. Uns dois ou três subiram no pé para colher as tangerinas, os outros ficaram embaixo pegando as frutas e passando para o quintal da minha casa.

Na minha cabeça a gente ia fazer uma incursão rápida e pegar só algumas tangerinas. Mas a coisa saiu de controle rapidamente. Eram anos de opressão que estavam acabando. Sabíamos que não íamos ter outra chance tão cedo. Aquela ia ser a nossa desforra, o roubo de tangerinas que ia acabar com todos os roubos de tangerina. Só faltou uma trilha sonora épica ao fundo.

Ensandecidos, não íamos parar até que a última fruta fosse colhida. E se desse tempo íamos pegar umas mangas também. Ou quem sabe roubar umas galinhas. Invadir a casa, talvez.

Mas dona Esmerinda estragou nossa festa. Tínhamos depenado só metade do pé de tangerina quando ela voltou e literalmente soltou o cachorro sobre nós.

Corre-corre geral. Alguns pedaços de shorts ficaram enroscados na cerca de arame farpado. Mas a situação mais delicada era do Fernando, que estava no galho mais alto do pé de tangerina. Ele acabou cercado pelo cachorro e com dona Esmerinda se aproximando o mais rápido que os seus muitos anos permitiam. E com uma vassoura na mão, que era para não termos dúvidas das suas intenções.

Situações desesperadas exigem medidas extremas. O Fernando então pegou impulso e pulou de cima do pé de tangerina, deu um salto mortal e caiu do meu lado da cerca. Ele só não quebrou uma perna ou o pescoço porque o anjo da guarda dele devia estar a postos. Foi a coisa mais excitante que ele tinha feito na vida até aquele dia, com certeza.

Deixamos dona Esmerinda nos xingando lá no fundo e corremos para a frente da minha casa e dividimos as frutas. Alguns comeram (ou seria chuparam ?) as tangerinas ali mesmo na hora, apesar das advertências de que fruta quente dava dor de barriga. Nunca uma tangerina foi tão gostosa. Nem chegava perto das que os nossos pais compravam na feira.

Claro que dona Esmerinda não ia deixar a coisa barata. Ele chegou a reclamar com nossos pais, mas eles não deram bola para ela. Então ela cortou o pé de tangerina. Foi um choque. Num dia fomos à escola de manhã e quando voltamos ele estava tombado no chão, derrubado impiedosamente por machadadas insensíveis.

Mais de vinte anos já se passaram. Hoje aquele bando de moleques está na casa dos 30 anos. São programadores, funcionários públicos, técnicos em segurança do trabalho, policiais (quem diria !). Sempre que dois deles se encontram gostam de relembrar os velhos tempos. Só duas coisas não mudaram. O quintal continua lá, com o que sobrou do pé de tangerina soterrado debaixo de camadas de terra. E dona Esmerinda, contra todos os prognósticos, ainda está viva, o que só reforça a teoria que tínhamos desde aquela época de que ela era parente do Highlander ou do Mum-Há.

E, com esse post saudoso, eu comemoro meu primeiro aniversário a frente do Depokafé. 33 anos, quem diria. Acho que está na hora de criar juízo. Ou não. Feliz aniversário para mim !

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2 comentários sobre “O grande roubo de 1983

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