O rapaz do ponto de ônibus – pt2

Se você perdeu a primeira parte da história, clique aqui. Ou não clique e fique sem entender nada. A decisão é sua. Eu clicaria, se fosse você. É sério.

———

O dia seguinte, depois de uma noite cheia de pesadelos, foi normal. Aline saiu pouco de casa, somente foi à Igreja. Passou a maior parte do tempo estudando, ou então na Internet. E o misterioso rapaz de camisa vermelha não apareceu mais.

A mesma coisa aconteceu no domingo, e Aline foi dormir mais tranqüila nessa noite, achando que tudo não tinha passado de uma grande coincidência, e de uma pequena dose de paranóia da sua parte.

A segunda-feira feira amanheceu chuvosa e chata como só as segundas-feiras conseguem ser. Ao ir para a faculdade, ela passa novamente defronte ao ponto de ônibus. Que estava vazio. Com um sorriso de desdém, ela diz para si mesma: “Deixa de ser paranóica, menina. Foi tudo só coincidência.”

Depois das aulas, a fraca chuva da manhã tinha virado uma tempestade. Correndo, Aline entra no carro e dá a partida. De novo a mesma avenida, o mesmo sinal fechado…e o mesmo rapaz no ponto de ônibus !

Ele estava com as mesmas roupas da sexta-feira. Sozinho no ponto de ônibus, distraído, sem parecer se importar com a tempestade que caia a sua volta, ou com a jovem ansiosa que a observa do carro.

O sinal abriu e Aline pisou fundo no acelerador, querendo se afastar o mais rápido dali. “É tudo só uma grande coincidência”, repete para ela mesma.

Mas alguma coisa a dizia que não podia ser só coincidência. Agindo por impulso, Aline pega o primeiro retorno que encontra e volta até o ponto de ônibus.

Ele continuava lá, na mesma posição. Ela para o carro ao seu lado, e abaixa o vidro. Pingos de chuva molham o banco.

– Ei rapaz, não quer uma carona ? – ela teve quase que gritar, a chuva fazia muito barulho.

O rapaz pareceu se assustar quando percebeu que estavam falando com ele. Lentamente foi até o carro, sem se importar com o fato de que estava se molhando.

– Para onde você está indo ? Posso te dar uma carona ? – insistiu ela.

Ele deu um endereço do outro lado da cidade, bem longe da casa da Aline. Mas ela não ia desistir assim tão fácil.

– Eu estou indo justamente para lá – mentiu ela, sem nem ficar vermelha – Entra aí que te dou uma carona.

O rapaz entrou lentamente. Tudo nele parecia lento, calmo, controlado. Até sua voz era macia. Enquanto seguia em frente, Aline tentou conversar com o enigmático rapaz.

– Você também faz faculdade ? Qual curso ? – foi sua primeira tentativa.

– Não faço faculdade – foi a resposta seca do rapaz, sem nem olhar para ela.

– Ah… – Aline estava desapontada. – Achei que tinha te visto lá – tentou justificar ela.

Alguns minutos de um constrangido silêncio se passaram, enquanto Aline começava a achar que não tinha sido uma boa idéia dar carona ao rapaz. Então, surpreendentemente, ele quebrou o silêncio.

– Ainda estou fazendo cursinho – ele retomou a conversa como se os longos minutos não tivessem se passado. Quero fazer Engenharia – concluiu ele e, pela primeira vez desde que entrara no carro, olha pra Aline e sorri.

“Que sorriso lindo” pensou Aline, enquanto sentia uma vontade irresistível de beijá-lo ali mesmo. Ao invés disso, disse:

– Que legal ! Tenho amigos que fazem Engenharia…é bem difícil, tem muita matemática.. – começou ela, enquanto seu Id rangia os dentes e seu superego batia palmas.

– Mas eu gosto de matemática. – disse o rapaz, com um tom de quem estava encerrando a conversa. Mas Aline não ia deixar a conversa morrer de novo. Ela queria ver aquele sorriso lindo novamente. Resolveu arriscar uma pergunta pessoal.

– E como você se chama ?

– Alberto Carvalho – ele estava de novo com aquele jeito seco do início, para grande desapontamento de Aline.

– Eu me chamo Aline – se apresentou ela, já prevendo que o calado Alberto não ia perguntar.

Alberto fez então o seu primeiro movimento rápido desde que entrara carro. Olhou fixamente para Aline e disse:

– Minha mãe também se chama Aline – e um sorriso iluminou novamente o seu rosto.

“Se ele sorrir assim de novo eu não vou resistir” pensou ela. Mas o supergo atrapalhou de novo.

– Que coincidência ! E você tem irmãos ? – disse ela, enquanto seu Id balançava a cabeça, furioso.

– Tenho uma irmãzinha de dez anos…linda. Chama-se Júlia. – Fez uma pausa. – Tenho tantas saudades delas – concluiu ele, e calou-se de novo, emocionado.

“Que estranho…será que ele não mora com a família ?” pensou ela, mas decidiu não falar nada. Alberto parecia muito emocionado.

Aline tinha dirigido rápido. Até onde ela conhecia aquela parte da cidade, estavam quase chegando no endereço que Alberto havia lhe dado. Havia um pequeno congestionamento à sua frente. Parece que a chuva que caía desde cedo tinha alagado um trecho da rua. Havia um posto de gasolina bem em frente. Enquanto Aline pensava num jeito de chegar até lá para pedir informações, Alberto disse:

– Lembre Aline: nunca use drogas. Nunca, me ouviu ? A droga acaba com a vida de uma pessoa…

Aline se virou para perguntar porque ele havia dito isso, mas só encontrou um banco vazio ao seu lado. Alberto havia sumido.

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Para onde foi Alberto ? Vejam amanhã (ou depois, ou na semana que vem) no último capítulo de O rapaz do ponto de ônibus.

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2 comentários sobre “O rapaz do ponto de ônibus – pt2

  1. Pois é, Carlos, essa segunda parte ficou grande mesmo. Não ia fazer sentido dividir, senão a história ia ficar pouco fluente. Foi tentar ser menos profílico da próxima vez…

    Obrigado pela visita e volte sempre.

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