O rapaz do ponto de ônibus – pt3

Esta é a terceira e última parte do nosso conto. Se você chegou agora, leia a primeira parte e a segunda. A menos que você queira ficar boiando, o que não faz nenhum sentido. Ou não.

 

Aline raciocinou rápido. Ele poderia ter saído. Mas ela não tinha ouvido a porta do carro abrir. E porque ele sairia sem se despedir ? Em desespero, saiu do carro, sem se importar com a chuva que caía ainda mais forte naquele momento. Olhou em volta. Nem sinal de Alberto. Era como se ele houvesse evaporado. Mas isso não era possível. Ninguém some do nada, raciocinava ela….talvez ele tivesse ido até ao posto de gasolina. Sob o olhar atônito dos outros motoristas, foi correndo até lá, sem se preocupar nem em desligar o carro.

O frentista do posto havia percebido que ela tinha saído correndo do carro e se aproximou, solícito:

– Algum problema com o carro, moça ?

– Você viu alguém saindo do meu carro ? – perguntou ela, esbaforida.

O frentista franziu a testa.

– Não moça, eu não vi ninguém não…

– Tem certeza ? Era um rapaz alto, de camisa vermelha e mochila nas costas – agora ela estava quase ás lágrimas.

– Não, eu vi nada não… – insistiu o frentista.

– Não é possível. Ele disse que se chamava Alberto Carvalho, e que morava aqui por perto… – e não conseguiu continuar, pois o choro veio com força. Será que ela estava ficando louca e tendo alucinações ?

A testa do frentista se franziu mais ainda.

– Deve estar havendo algum engano moça….o Alberto Carvalho morava naquela casa ali – e apontou vagamente com o dedo – mas morreu assassinado faz mais de cinco anos…todo mundo aqui na vizinhança soube…

Se o frentista contou mais detalhes, Aline nunca soube, pois ela não agüentou e perdeu os sentidos.

Era uma velha casa de madeira. Pequena e pobre, como muitas naquela vizinhança. Ficava numa rua que sempre inundava quando chovia mais forte. Quando o Sol surgiu naquela manhã, suas duas únicas moradoras estavam ocupadas em limpar os estragos que a chuva que caíra durante todo o dia anterior havia causado.

Naquela manhã, foi com curiosidade que os vizinhos viram um carro dobrar a esquina do posto de gasolina e parar defronte a casa. Durante alguns longos minutos sua única ocupante ficou olhando fixamente para a casa, até que finalmente pareceu se decidir, desceu do carro e bateu palmas. Entrou. E ficou lá a manhã toda. E, depois que ela foi embora, uma estranha estória passou a circular entre os vizinhos.

Mas não foi a única vez que a jovem do carro apareceu. Ela voltou no dia seguinte, com cestas básicas e roupas. E voltou várias outras vezes, sempre que havia enchente, ou quando estavam precisando de algo. Aquela casa continuava pequena e pobre como sempre tinha sido, mas agora havia uma diferença: alguém estava tentando ajudar.

Aline nunca entendeu completamente o que aconteceu naquele dia. Ela havia visto, e mais de uma vez, uma pessoa que estava morta a cinco anos. E também tinha falado com ele. Era um fantasma ? Uma aparição sobrenatural ? Aline nunca soube. Naquela manhã, depois de conversar com a mãe de Alberto e descobrir que ele havia morrido assassinado por um traficante para o qual devia dinheiro, e ter visto a dificuldade que ela e sua filha Júlia estavam passando, Aline achou que não podia ficar de braços cruzados.

Quando se formou e montou seu primeiro consultório, Aline contratou Júlia como secretária. Continuou ajudando a família com o que podia. Bancou os estudos de Júlia, que passou no vestibular e acabou cursando Engenharia, exatamente como seu irmão Alberto havia sonhado.

Mesmo quando foi morar no exterior, Aline continuou mantendo contato com Júlia e sua mãe. Muitos anos se passaram, e quando ela voltou para o Brasil pôde conhecer o primeiro filho de Julia: um lindo garotinho chamado Alberto.

Outros anos se passaram, e Aline passou a dar aulas na mesma faculdade em que havia se formado. Todos os dias ela passava por aquela mesma esquina onde havia encontrado Alberto. E sempre se perguntava: porque ? porque eu ?

Até que um dia, uma segunda-feira, chovendo a cântaros, Aline parou naquele mesmo semáforo. Olhou instintivamente para o ponto de ônibus, como sempre fazia. Só havia uma pessoa no ponto. Um rapaz alto, magro, de camisa vermelha e mochila nas costas. Mas isso já é assunto para outra história…

Anúncios

7 comentários sobre “O rapaz do ponto de ônibus – pt3

  1. Os mortos nao sabem de nada, e nao podem interceder na vida dos vivos, aparentemente e uma bela historia, mas as pessoas vivas e que precisam ter carater e atitude como, o unico que morreu e ressuscitou ao terceiro dia Jesus Cristo…. obs: nao sou evangelico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s