Os amadores também vencem

O Osvaldo Cruz FC passou a existir em fevereiro de 2004. Três anos depois disputava a série A2 do Campeonato Paullista. Da quinta e última para a segunda divisão do campeonato estadual mais importante do Brasil em apenas três anos. Um exemplo de organização e administração ? Não, pelo contrário. Um exemplo de amadorismo, improvisação e sorte que acabou dando certo. É essa a história que vou contar para vocês hoje.

Até a fundação do Osvaldo Cruz FC as maiores glórias esportivas da cidade que leva seu nome eram o Campeonato Sul-Americano de basebol (!) juvenil em 1956 e o fato de ter sido a cidade em que nasceu a jogadora de basquete “Magic” Paula .

Em 2004 a prefeitura, no melhor estilo “pão e circo” decidiu que a cidade precisava de um time de futebol profissional. A primeira tentativa foi “ressuscitar” a velha Associação Esportiva Osvaldo Cruz, que havia disputado campeonatos profissionais nas décadas de 60 e 70 e que estava falida desde 1987, mas não deu certo. Surgiu então o Osvaldo Cruz F.C.

Uma parceria com o Marília Atlético Clube trouxe jogadores e comissão técnica para o nascente clube. As teias de aranha foram tiradas do estádio municipal, o vice-prefeito que também era médico cuidava da saúde dos atletas, uma academia da cidade cedeu os aparelhos para os jogadores se condicionarem – nos horários de menor movimento, claro – e estava pronto um time para disputar a Série B1-B do Campeonato Paulista (na prática a quinta divisão). Tudo muito profissional e organizado, como vocês podem ver.

A estréia foi contra o Prudentino em Presidente Prudente, dois meses depois de fundado o time. Apesar da vitória de 2 a 1 o time não foi tão bem no campeonato e não conseguiu o acesso para a quarta divisão. Mas o Osvaldo Cruz deu sorte: no ano seguinte a FPF aboliu as séries B1-A e B1-B e criou a série B1. Na prática o que aconteceu foi que a quinta divisão foi extinta e passou a existir só uma “inchada” quarta divisão. Assim o Osvaldo Cruz subiu seu primeiro degrau. Na base da pura sorte, ou de estar no lugar certo na hora certa.

E 2005 acabaria sendo o melhor ano para o Osvaldo Cruz FC. Com uma ótima campanha, superando fases e mais fases de um regulamento esdrúxulo, chega ao vice-campeonato da série B ao perder a final para o São Carlos FC, na casa do adversário. Mas consegue o seu segundo acesso. Faz também boa campanha na Copa Federação Paulista de Futebol daquele ano. Um grande trunfo para um time que havia trocado de presidente – por razões políticas, é claro, já que havia mudado o prefeito – no começo do ano.

Em 2006 a parceira com o Marília foi desfeita. O time é montado às pressas, outro presidente é eleito. Mas mesmo assim o time chega na quarta colocação na sua estréia na série A3 e consegue o acesso para a A2.

Sem ganhar nenhum título, com trocas constantes de presidente, de comissão técnica, de jogadores, sem patrimônio, sem estrutura, com um time montado por empresários. Foi assim que um time que três anos antes sequer existia chegou na segunda divisão do campeonato paulista. Se isso não for prova da decadência do nobre esporte bretão em terras tupiniquins, eu não sei mais o que é.

Mas toda essa sorte do Osvaldo Cruz FC tinha que acabar um dia. E acabou. Em 2007 ,disputando a Série A2 mais difícil de todos os tempos , com times que já foram grandes como Guarani, Portuguesa e Botafogo-RP , o mais uma vez montado às pressas Osvaldo Cruz FC não resistiu e acabou caindo para a série A3 , frustrando os planos da Prefeitura que havia investido muito dinheiro para ampliar o estádio municipal para 15 mil lugares – metade da população da cidade, a propósito.

Muita gente achou que a curta história do Osvaldo Cruz FC acabaria ali mesmo. Mas esse ano tem eleições e é claro que o prefeito não ia deixar a cidade sem seu time. A equipe passou quase o ano todo de 2007 sem presidente. Um foi eleito às pressas no fim do ano, um time de empresários foi montado e lá está o Osvaldo Cruz FC disputando de novo a série A3. Depois de dois resultados ruins o empresário que é literalmente o dono do time mandou o treinador e 17 jogadores embora – isso mesmo, mais de um time inteiro – e a equipe se recuperou. Hoje estaria classificada para a próxima fase. Considerando o nível dos adversários, não vai ser surpresa se o time subir de novo para a A2.

E assim o amadorismo vai se perpetuando:  o próximo prefeito, em seu primeiro ano, não vai querer deixar o time morrer, vai colocar um aliado seu na presidência, e o status quo vai continuar o mesmo. Ninguém vai investir em categorias de base, nem dar oportunidades aos jovens da cidade e região. A administração continuará sendo feita “nas coxas” como é hoje. O time continuará sendo montado por empresários oportunistas. Mas ninguém vai ligar para isso. Afinal, o que importa é a população ter diversão aos domingos, não é mesmo ?

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