Há algo de podre no reino da Bélgica

Quem reclama da política brasileira o faz de barriga cheia. A coisa na Bélgica está muito mais feia do que aqui. Álias, se alguns colunistas políticos brasileiros – que o censurado Paulo Henrique Amorim chama de “colonistas” – vivessem na Bélgica já teriam morrido de ataque apoplético. Depois de prever a desintegração total do país, claro.

A Bélgica é até um país legal. Tudo bem, ninguém liga muito para a Bélgica. Os seus vizinhos liberais da Holanda são muito mais conhecidos, por exemplo. No ano passado, os belgas ficaram em sétimo lugar numa pesquisa que mediu a felicidade dos europeus. Os primeiros foram os seus outros vizinhos – os dinamarqueses.

Pois bem. A Bélgica ficou sem governo durante nove meses. Isso mesmo. Nove meses. Ainda bem que é um país civilizado. Já imaginou o caos que seria se acontecesse no Brasil ?

O problema se resume no fato da Bélgica ser um país dividido. Os flamengos (não, nada a ver com o time do Rio de Janeiro) são 60 % da população e são mais ricos que os valões, que são os outros 40 %. E ainda tem uma pequena comunidade alemã, com mais ou menos umas 73 mil pessoas – num total de 10,5 milhões de habitantes.

Toda essa bagunça étnica não podia dar certo, mesmo num país altamente civilizado como a Bélgica. Já em 1987 os belgas tiveram que esperar cinco meses para a formação do governo. Dessa vez foram nove meses até Yves Leterme assumir o cargo de primeiro ministro ontem. Tomara que na próxima vez não demore tanto…

Só para complicar as coisas ainda tem o rei. Sim, a Bélgica tem um rei, Alberto II. E cada uma das regiões lingüísticas tem um parlamento próprio. Há também três línguas oficiais – o neerlandês (em Flandres), o francês (na Valônia) e o alemão, na pequena comunidade alemã no leste do país. E ainda existem 450 tipos de cerveja na Bélgica. Alguns, inclusive, só existem lá. E cada tipo tem seu próprio tipo de copo também.

Essa mistura explosiva tem mexido com os ânimos dos belgas. A cada eleição a rica Flandres quer se separar do resto do país. Outros querem (mais) autonomia para as regiões. Outros ainda querem a união com a Holanda. Afinal, quase todo mundo confunde a Holanda com a Bélgica, e vice-versa. Outros ainda ficam de saco cheio e querem mesmo é se mudar para um país menos complicado. A Suiça, talvez. Lá pelo menos os cantões não ficam brigando por independência. Por enquanto…

O fato é que se cada grupo étnico europeu quiser ter seu próprio país o mapa da Europa vai virar uma colcha de retalhos maior do que já é. Não nos esqueçamos, por exemplo, dos bascos, que querem abocanhar um pedaço da Espanha e da França para fazer seu próprio país. Ou dos separatistas italianos (tutto buona gente !) que querem dividir o norte industrializado do sul (a parte “da bota” se você não é muito bom de pontos cardeais) atrasado, ou a verdadeira bagunça que é a Alemanha, que demorou para se unificar e, se implodisse, ia gerar pelo menos uma dúzia de velhos países novos. Se bem que ia ser até legal ter a Prússia de novo no mapa. Bom, talvez a Prússia vá querer de volta um pedaço da Polônia que lhe foi tomado depois da Segunda Guerra. E talvez o Sarre quisesse se unir à França de novo, o que ia compensar a perda do país basco…

É, não ia dar certo. Por isso, para o bem da União Européia e das escolas do mundo todo que não agüentam mais ficar atualizando os livros de Geografia (o Timor Leste é de 2002. Nem deu tempo de atualizar todos os atlas ainda) é melhor os belgas se entenderem. Quem sabe um bom copo de cerveja possa ajudar, não é mesmo ?

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