O primeiro anti-Cristo

Hoje em dia quase ninguém sabe quem foi Apolônio de Tiana. Mas se você fosse um cristão do primeiro século teria grandes chances de considerá-lo uma séria ameaça ao nascente cristianismo.

Apolônio se iniciou no estudo da filosofia aos 14 anos em Egos, vizinha  de Tarso (sim, a terra natal de São Paulo). Depois de pular de um sistema filosófico para outro acabou conhecendo a filosofia de Pitágoras, que abraçou com entusiasmo: a crença na metempsicose, na abstinência sexual e de carne e no estudo da boa filosofia. Submeteu-se aos jejuns obrigatórios, deixou a barba e o cabelo crescer, deixou de tomar vinho, andou descalço, ficou cinco anos sem dizer uma palavra.

Já iniciado nos mistérios pitagóricos, passou a residir no templo de Esculápio, onde foi iniciado na técnica da cura mística, que ocorria através dos sonhos. Depois arrebanhou sete discípulos e passou a viajar pelo mundo. Esteve na Capadócia e ficou oito anos em Antioquia (onde os cristãos foram chamados pela primeira vez por esse nome) onde se esforçou para tentar restaurar o culto à Venus.

Sempre acompanhado de seus seguidores, partiu para uma longa viagem á Babilônia, Índia e Nepal. Ao conversar com os monges budistas suas convicções sobre a pluralidade das existências se confirmaram. Voltou diretamente para Éfeso onde os prateiros, que haviam acabado de expulsar São Paulo, receberam alegremente a sua pregação, pois ele falava o que o povo queria ouvir, especialmente quando estimulava a adoração às divindades femininas e a metempsicose.

Seu sucesso em Éfeso o levou a pregar em outros lugares: esteve em vários santuários gregos. Sua eloquência reencarnacionista e suas curas milagrosas fizeram muito sucesso em lugares como Lesbos, Creta, Olímpia e Atenas (onde São Paulo também não teve muito sucesso).

Também esteve em Roma, na Espanha, voltou à Grécia e chegou a ir ao Egito, onde conheceu o futuro imperador romano Vespasiano que, depois de subir ao trono, se correspondia regularmente com ele. Também foi amigo do imperador seguinte, Tito, a quem felicitou por ter recusado a celebrar a destruição de Jerusalém no ano 70.

Apolônio estava na “crista da onda” do sucesso em Alexandria quando o novo imperador, Domiciano, que já havia exilado São João em Patmos (onde ele escreveria o Apocalipse), ordenou a sua prisão. Dando uma mostra de coragem, ele partiu para Roma, onde foi preso e humilhado. Seu discípulo e biógrafo Damis conta que enquanto esteve preso na Cidade Eterna ele apareceu ao mesmo tempo a ele e a um outro discípulo que estava a quarenta léguas de distância.

Com a revogação do édito de Domiciano, Apolônio e São João escolheram o mesmo lugar para voltar: Éfeso.

Éfeso era importante para a expansão do cristianismo. Foi a cidade onde São Paulo passou mais tempo – um ano e meio. Seu importante porto a tornava o lugar ideal para pregação, que poderia se estender de lá a metade do império Romano.

Damis conta que em Éfeso Apolônio teve uma visão do imperador sendo morto, o que se confirmou depois. Os cristãos de Éfeso ficaram muito assustados com esse poder de Apolônio. Decidido a combate-lo, São João não saiu mais de lá, onde ressuscitou um morto e fez vários outros milagres para confirmar a fé dos neófitos.

No ano 97, já com mais de 90 anos, Apolônio voltou a Creta, onde entrou no templo de Diana para nunca mais sair. Seu biógrafo Damis conta que ele foi “elevado aos céus”. E seu corpo não foi mesmo encontrado no templo. E foi depois da sua morte que Apolônio deu mais trabalho ainda aos cristãos.

Em sua terra natal, Tiana, e em Éfeso, ele foi adorado com um deus. Em Roma ergueram-se estátuas em sua homenagem. Os pitagóricos e os platônicos, decididos a combater o então emergente cristianismo, passaram a compara-lo a Cristo. Pois, assim como ele, fizera viagens missionárias, efetuara curas, havia triunfado sobre a morte. Assim como Jesus entrou em Jerusalém, Apolônio foi a Roma: sem medo do perigo. Assim como os apóstolos após o Pentecostes, ele teve o dom das línguas. Inventaram até uma mitologia sobre o seu nascimento, com a participação do deus Apolo. Ou seja, ele foi considerado a antítese de Cristo. Ou o primeiro anti-Cristo, se você preferir.

Mas nem a eloqüência de Apolônio salvaria o decadente helenismo. O cristianismo já começava a se espalhar pelo Império Romano. Em 313 Constantino acabaria cessando a perseguição ao cristianismo. Seu sobrinho e sucessor Juliano tentou ainda uma última cartada para restaurar o helenismo, mas morreu jovem. E então Apolônio passou a ocupar somente os rodapés dos livros de história. Ou, como é mais comum, nem isso.

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4 comentários sobre “O primeiro anti-Cristo

  1. Apolonio de Tiana foi o filósofo mais famoso do século I. Depois que o Cristianismo assumiu o poder, com a ajuda do Imperador constantino, O Grande, em 313, a figura de Apolonio e outros filósofos que não aderiram ao Cristianismo começou a ser sistematicamente denegrida e, destruído tudo escrito que fizesse referência a ele, por parte da Igreja Cristã. Há uma obra sobre ele que, por sinal não foi traduzida em português: VIDA DE APOLONIO de autoria do filósofo Flávio Filóstrato. Tal livro, como muitos outros que não foram traduzidos para o prtugugês. foi traduzido para o idioma inglês. Vida de apolonio, traduzido por Berwuick. Existe uma obra em portugês da Editora Teosófica: Apolonio de Tiana: sábio e Renovador dos Mistérios, escrita pelo escritor Geroge Robert Stow Mead.

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