Assim se embebeda a humanidade

O Brasil pode até não ser um país sério, mas ninguém pode negar que não seja um país exagerado. Saímos de uma lei ridícula, onde você podia beber a noite toda, atropelar uma família inteira e voltar para casa como se nada tivesse acontecido – só precisando contratar um advogado e tomar um Engov – para uma lei seca tão rigorosa que não é permitido sequer comer bombons de licor. Coisas do Brasil.

O fato é que não há lei seca que mude a tendência que nós, criaturas descendentes dos macacos, temos de gostar de uma branquinha, cachaça, “mardita” ou qualquer outro sinônimo que você ache melhor para “bebida alcoólica”.

Tom Standage, no seu livro “História do mundo em seis copos” praticamente defende a tese que a humanidade só desenvolveu uma civilização complexa por causa da cerveja. Exageros a parte, a cerveja foi a primeira bebida alcoólica largamente utilizada pela humanidade.

Na época dos faraós um egípcio típico bebia mais cerveja do que o Zeca Pagodinho hoje em dia. O pagamento diário para os trabalhadores que construíam as pirâmides era três ou quatro pães e quatro litros de cerveja. Isso para os trabalhadores braçais. Gerentes e supervisores recebiam mais. Crianças em idade escolar bebiam duas jarras de cerveja por dia. Não é a toa que os construtores da pirâmide de Miquerinos passaram para a história como “os beberrões de Miquerinos”.

Quando o centro do poder na Antiguidade deslocou-se do Oriente Próximo para a Europa a bebida favorita passou a ser o vinho. Gregos e romanos bebiam vinho da forma “civilizada” ou seja, misturado com água. Só os bárbaros bebiam vinho puro. Já os vinhos de qualidade inferior, que eram servidos para a ralé, eram “batizados” com ervas ou água do mar para mascarar a baixa qualidade.

Os romanos gostavam tanto de vinho que deixaram registrado para a história que a melhor safra de todos os tempos foi a safra do falerno opimiano, datada de 121 a.C. O dissoluto Calígula, em 39 d.C, parece ter bebido a última ânfora dessa safra famosa, o que foi amplamente considerado um desperdício de um vinho bom com um mau imperador.

Na Idade Média, graças aos árabes, a destilação tornou-se conhecida na Europa. O vinho destilado, chamado ora de aqua ardens (água ardente) ou de aqua vitae (água da vida) era considerado uma verdadeira panacéia: acreditava-se que podia preservar a juventude, melhorar a memória, tratar doenças do cérebro, nervos e articulações, curar problemas cardíacos, abrandar dor de dente, curar a paralisia e muito mais.

O fato é que antes da destilação o homem nunca havia bebido nada com tanto teor alcoólico. As bebidas fermentadas não passam de 15 % de álcool, enquanto que a aqua vitae chegava a 70 % !

Com a popularização da destilação as bebidas mais fortes se espalharam pela Europa, principalmente nos países de clima mais frio. Não fosse a chegada do café – que precisou até de autorização do Papa para se estabelecer – e a revolução científica do Século das Luzes podia ter morrido afogada num copo de uísque.

E foi por causa do uísque que os Estados Unidos quase entraram em guerra. Em 1791 o jovem governo americano impôs uma taxa aos produtos destilados, como forma de arrecada dinheiro para pagar as dívidas com a guerra da independência.

Donos de alambiques no oeste da Pensilvânia não gostaram nem um pouco do novo imposto. Naquela época havia um alambique para cada seis pessoas naquela região. Quando a nova lei entrou em vigor, eles se recusaram a pagar o imposto, atacaram as tropas federais e, sob a liderança de David Bradford,  decretaram a independência – e tudo isso sem estar sóbrios ! Mas a ressaca chegou e quando as tropas federais chegaram o movimento se desfez rapidamente.

Graças a cana as Américas foram pródigas em criar novas bebidas destiladas. Os portugueses aqui no Brasil criaram a cachaça a partir do suco da cana ou da espuma retirada da sua fervura. Já em Barbados o rum começou a ser feito a partir do melaço, que era bem mais barato e não diminuía a produção de açúcar, o que o tornou um excelente negócio, já que ele podia ser trocado na África por escravos que eram usados para plantar mais cana, e produzir mais açúcar e rum, e assim sucessivamente. Por que os portugueses não pensaram nisso antes é um mistério.

Por uma dessas ironias, hoje o seu moderno carro total flex pode beber quanto álcool quiser. Já você, meu caro leitor, minha prezada leitora, vai ter que se contentar com uma coca-cola mesmo.

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3 comentários sobre “Assim se embebeda a humanidade

  1. Só uma correção: o trecho anterior da lei tinha limite de consumo de álcool, sim: 6dg/l (equivale a 2 chopes). O problema é que as “otoridades” resolveram fiscalizar o cumprimento da lei só agora…

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