Cervejarqueologia

Um post sobre cerveja em plena sexta-feira. Sim, meu leitor habitual, esse blog já foi menos óbvio…

A cerveja foi a primeira bebida alcoólica descoberta pelo homem. E por um homem distraído: um anônimo qualquer que deixou entrar água no seu depósito de grãos em algum lugar do Crescente Fértil alguns milênios antes de Cristo.

A cerveja foi a bebida mais popular no Egito e em todo o Oriente Médio no alvorecer da História. Era usada inclusive como moeda: na antiga Mesopotâmia os trabalhadores braçais recebiam o equivalente a um litro por dia. Funcionários mais graduados recebiam cinco vezes mais, mas não porque eram alcoólatras: eles usavam a parte que não bebiam para pagar seus funcionários. Os sumérios tinham inclusive uma deusa da cerveja, Ninkasi.

A cerveja também foi usada para pagar os trabalhadores que labutaram na construção das pirâmides. Um dos grupos que ajudou a construir a pirâmide de Gizé passou para a história como “os beberrões de Miquerinos”. A ração padrão desses empregados era três ou quatro pães e quatro litros de cerveja, por dia. Até as crianças eram encorajadas a beber cerveja para assegurar o seu desenvolvimento saudável. Eu conheço muita gente que adoraria ter vivido naquela época…

Mas a cerveja bebida naquela época era muito diferente da atual. Primeiro porque ela era mais doce, já que o lúpulo só seria acrescentado à cerveja entre os séculos XII e XV. E, apesar de ser filtrada, ela continha pedaços de grãos e palha. Isso fazia com que ela fosse bebida através de canudos, vindos de um recepiente único colocado sobre a mesa. Isso reforçou o caráter “socializante” da bebida, que era compartilhada por todos. Esse lado “social” da cerveja permanece até hoje. Algumas coisas não mudam, mesmo depois de muitos milênios, não é mesmo ?

Com toda a tecnologia atual, algumas pessoas tentaram recriar hoje em dia as cervejas que foram bebidas pelos faráos e seus contemporâneos. A cervejaria americana Anchor produz a cerveja Ode a Ninkasi, que foi recriada a partir de uma receita da Mesopotâmia de 1.800 a.C. Os entendidos dizem que ela tem um gosto adocicado para os padrões modernos, fruto, é claro, da falta de lúpulo.

A antiga cerveja egípcia foi recriada pela Universidade de Cambridge depois de analises de resíduos de cerveja com um microscópio eletrônico. Produzida em quantidade limitada pela cervejaria Scotish and Newclastle, a cerveja Tutâncamon é uma das mais caras do mundo. É uma cerveja doce com gosto frutado e cor dourada, ligeiramente turva.

tutankhamen-brew

A cerveja dos faraós. E aí, vai um gole ?

Fora essas raridades é muito difícil encontrar uma cerveja que se aproxime das “originais” egípcias e mesopotâmicas, porque não há muitas cervejas comerciais que não usem lúpulo, porque ele ajuda na conservação do precioso líquido. Uma das poucas excessões é a cerveja inglesa King Cnut, produzida pela cervejaria St Peter’s. Feita de cevada, junípero, casca de laranja e limão, urtiga (!!!) e condimentos, tem um gosto doce e pegajoso, parecido com o vinho. Acho melhor ficar com a nossa cerveja nacional mesmo… E não se esqueça: se for dirigir não beba, se for beber não me chame…:)

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