O primeiro best-seller da história

Nossa história começa em cerca de 1970. Antes de Cristo. No Egito, reinava o faraó Sesóstris I. Shinue, nosso personagem principal, narra a história em primeira pessoa. Ele era um nobre ou alto funcionário da corte do poderoso faraó. Envolvido numa intriga palaciana, ele consegue fugir dos guardas que vigiavam a “Muralha dos Príncipes” que servia para proteger o Egito dos ataques vindos a partir de Canaã. (atuais Israel e Palestina, se você está perdido no mapa-múndi). Mas a terra é desértica e ele quase morre de sede. Mas a sorte sorri para ele: é salvo por um beduíno:

…quando cheguei ao lago Amargo, caí. A sede me dominou e tinha a garganta em fogo. Disse eu: tal é o sabor da morte! Mas, reanimando o coração e reunindo todas as forças dos membros, ouvi o mugido de gado e avistei beduínos. O chefe deles, que tinha estado no Egito, reconheceu-me. Deu-me água, aqueceu leite para mim e eu fui com ele para sua tribo. O que eles me fizeram foi bom.

Shinue se dá bem na terra de Canaã. Se torna protegido do rei Ammiênchi, que governava uma parte ao norte da atual Palestina. Ele se casa, tem terras e passa anos felizes:

Ele me fez príncipe de sua tribo na melhor parte do seu país. Diariamente eu bebia vinho, comia pão, carne cozida e ganso assado, além de caça do deserto que abatiam para mim, sem falar da que apanhavam os meus cães de caça… e leite, preparado de diversas maneiras. Assim passei muitos anos, e meus filhos se tornaram homens fortes, cada um deles o mais valente da sua tribo.

Mas a velhice chega e Shinue tem saudades da casa. O faraó o perdoa e convida-o a voltar ao Egito. E Shinue vai. Afinal, o faraó prometera para ele um funeral de gala, no melhor estilo apoteótico egípcio:

Pensa no dia em que te levarão à sepultura e serás venerado. Serás preparado à noite com óleo e com faixas da deusa Tait. No dia do teu sepultamento, terás um cortejo. O caixão será de ouro e a cabeça de lápis-lazúli, e serás colocado no esquife. Serás puxado por bois, à tua frente marcharão cantores e à porta do teu túmulo será dançada a dança dos anões. Serão recitados ofertórios para ti e haverá sacrifícios no teu altar.

Shinue coloca o filho mais velho no seu lugar em Canaã e volta para o Egito. O primeiro contato com o faraó foi meio traumático:

Ali encontrei Sua Majestade sentado no grande trono do salão de ouro e prata. Depois foram chamados os filhos do rei. Sua Majestade disse à rainha: ‘Vê Sinuhe que volta feito asiático e se tornou beduíno!’ Ela soltou um grande grito e os filhos do rei gritaram todos ao mesmo tempo.

Ele é cercado de luxo e opulência. Cortam seu cabelo, aparam sua barba. Ele toma banho (algo raro naquela época, digno de nota), tem o corpo ungido com óleo e usa roupas de linho. E chega a exclamar, em júbilo: voltei a dormir numa cama ! É, não deve ter sido fácil dormir tantos anos no chão…e assim, Shinue viveu honrado pelo faraó até o dia da sua morte. FIM.

Não se sabe se a história de Shinue é verdadeira. Arqueólogos a encontraram no começo do século passado (não se esqueça, o século passado é o século XX). E não encontraram um só exemplar: encontraram vários. A história de Shinue parece ter sido muito popular. Será que existia algum Dan Brown egípcio ou a história é “baseada em fatos reais” ? Numa época em que poucos liam e escreviam e que os escribas eram poderosos, porque se deram ao trabalho de fazer tantas cópias ? Quem eram os leitores ? Jamais saberemos. Mas, pela quantidade de exemplares encontrados, a história de Shinue pode ser considerada o primeiro best-seller da história.

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