Um dia normal

Ela acordou com o despertador do celular tocando. Quem é ela ? Não interessa, é só uma anônima, não precisa de um nome. Quantos anos ela tem, o que faz da vida, em que cidade mora, nada disso importa. Se você quer ler algo com muitos detalhes, vá até uma biblioteca e pegue “Cem anos de solidão”.

Mas bem, ela acordou. Cambaleou até o banheiro e depois de lavar o rosto já estava mais parecida com um ser humano. Uma xícara de café e um pãozinho amanhecido com margarina com baixos níveis de colesterol foi todo o seu desjejum. Voltou ao quarto, que deixou arrumado mais rápido do que recruta novo com medo do sargento, uma troca de roupas, uma lufada de desodorante antitranspirante 24 horas de duração e uma escovada de dentes foi tudo o que ela fez antes de sair e pegar o elevador.

No elevador, a velinha do andar de cima reclamou de novo das dores nas costas, da diabete e da osteoporose. Ela escutou tudo, mas não ouviu. Meneou a cabeça afirmativamente algumas vezes e soltou alguns chavões automáticos. A velinha desceu no térreo, decepcionada. Queria só uma palavra de carinho, ou quem sabe um abraço. Claro, a velinha também não tem nome.

Na garagem, o cheiro de gasolina a deixou enjoada. Estava enjoando com facilidade por aqueles dias. Rezou uma prece muda, pedindo para não estar grávida. Pensou que deveria passar na farmácia e comprar um teste para confirmar. Mas não tinha tempo. Nem para o teste, nem para estar grávida.

O primeiro congestionamento do dia a alcançou – ou ela alcançou o congestionamento ? nunca saberemos – quinze minutos depois de sair. Presa no transito, ela se lembrou que comprar uma bicicleta estava entre as suas resoluções de ano novo. Paciência. Ia ter que adiar essa resolução para o ano que vem. Ou quem sabe para o outro…

Depois de um tempo absurdo perdido engolindo monóxido de carbono alheio, ela desvencilhou-se do trânsito. Acelerou para compensar o tempo perdido. Outros carros ficavam para trás. Fechou uma ou duas motocicletas, mas nem ligou para isso. Ela nem reparava mais nos motociclistas. Eles se transformaram nos mendigos do asfalto: todo mundo sabe que existem, mas não os veem a menos que estejam fazendo algo de errado. Ou atrasando o trânsito.

Chegou ao trabalho, milagrosamente, no horário. Deus existe e gosta de mulheres determinadas, pensou ela. Crachá no peito, passou pelos colegas de trabalho distribuindo sorrisos quem, em sua maioria, eram falsos e foi ocupar seu cubículo, exatamente igual às dezenas de outros que existiam naquela sala artificialmente climatizada.

Passou as próximas 4 horas entre telefonemas, planilhas, emails, xícaras de café e idas ao fumódromo. Um burburinho corria entre os colegas de trabalho, algo que dizia a respeito de corte de custos, fusão, demissão, mas ela não deu atenção. Ninguém em são consciência a demitiria. Era eficiente, determinada, e disposta a vender a própria mãe – e entregar – para subir na carreira. Quem demitiria uma funcionária assim ?

O almoço foi no restaurante a quilo a duas quadras do trabalho. Estava acompanhada das mesmas colegas do trabalho de sempre, a loirinha do cubículo ao lado e a gordinha da terceira fileira a esquerda, contando a partir da porta que dava para o elevador. Ou seria quarta fileira a esquerda ? Não importa. Comeu frugalmente, aturou por um tempo as colegas discutindo sobre namoros e dietas – onde mais uma vez exercitou a arte de escutar mas não ouvir – até que sua paciência se esgotou e voltou mais cedo ao trabalho. Não podia se dar ao luxo de ter uma hora de almoço. Era muito eficiente para isso. E, advinha ? Isso, as colegas de trabalho também não precisam de um nome.

O período da tarde foi basicamente igual ao anterior. A reunião agendada com o sub-gerente do Departamento de Marketing foi adiada. Parece que o tal sub-gerente havia sofrido um enfarte. Pena que Marketing não é a minha área, pensou ela. Era uma boa chance de promoção. Paciência. Um dia a sua dedicação e seu trabalho duro seriam recompensados por aquela organização. E o sub-gerente de Marketing é tão insignificante que eu nem preciso dizer que ele…bom, deixa para lá.

Às seis horas, quando saiu do trabalho, o transito estava ainda pior do que de manhã. Pena, não ia dar tempo de passar na farmácia. Quem sabe amanhã…

Chegou ao seu apartamento e a primeira coisa que fez foi tirar os sapatos. Deu um suspiro de alívio. Uma dor de cabeça forte a acometeu de repente. Não teve tempo nem de se levantar do sofá. Foi se sentido cada vez mais sonolenta, até que no fim foi tomada por uma paz quase intra-uterina, uma sensação de estar voltando para casa. Morreu ali mesmo.

Seu corpo só foi encontrado dez dias depois, quando arrombaram o apartamento. Ninguém havia sentido sua falta no trabalho ou no condomínio. Sua mãe já não ligava a anos. No enterro, a firma mandou uma coroa de flores das mais baratas e a gordinha da terceira ou quarta fileira, já disse que não importa, como representante. Quase na hora do enterro chegou um rapaz da Contabilidade. Ajudou até a carregar o caixão, e parecia deveras compungido. Nos dias posteriores a gordinha espalharia o boato de que ele era apaixonado por ela, mas que nunca tinha sido correspondido.

Agora o corpo dela descansa, supostamente em paz, num cemitério absolutamente normal, numa quadra sem graça e num túmulo padrão “não quero gastar muito com essa pessoa mas não posso deixar que seu corpo seja comido pelos cães”. Em algum lugar do Além, um Ser balança a cabeça negativamente, enquanto Outro faz mais um risco na parede…

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5 comentários sobre “Um dia normal

  1. Olá Henderson!

    Caramba, já tinha ficado assombrada com os ‘pensamentos ao vento’, e agora descubro este ótimo conto; sua produção literária está mesmo boa, não a esconda não…

    E blog é para isso mesmo, o dono é quem decide o que publicar. Estou gostando!

    Grande abraço!

    Cristine

  2. Que bom que você também gostou, Cristine. Estou numa fase criativa, então vou postar mais alguns contos por aqui, e quem sabe um dia reúna tudo num livro, ou num ebook, ou em ambos.

    Amplexos e volte sempre.

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