Harpa na madrugada

Era um prédio normal em uma cidade grande qualquer. Comum, até. Não tinha nada que o destacasse das outras dezenas de prédios quase iguais que existiam na mesma rua. Tinha um nome francês praticamente impronunciável que tentava, sem muito sucesso, dar um ar de nobreza ao lugar, algumas centenas de moradores, um síndico aposentado, problemas no  estacionamento e conflitos entre os vizinhos. Como se vê, tudo normal.

Numa sufocante madrugada de novembro o silêncio do prédio foi quebrado repentinamente. Alguém estava tocando algum instrumento desconhecido. Aos poucos as luzes dos apartamentos foram acendendo e os moradores saindo, atônitos, até as sacadas.

Marcos ainda estava meio sonolento quando cambaleou até a sacada do seu apartamento, puto da vida, para saber da onde vinha aquele som estranho. Levou um choque ao perceber que pelo menos metade dos seus vizinhos tinham feito o mesmo.

– É harpa – disse uma voz a sua direita.

Ele se virou e seu coração quase falhou uma batida ao perceber Gisele, a vizinha ao lado, trajando somente uma camisola diáfana e sorrindo da sacada do apartamento ao lado.

– Harpa ? –  balbuciou ele.

– Harpa – ela confirmou, com segurança. E está tocando “Stairway to heaven” – completou, parecendo embevecida com o estranho show.

Embevecido também ficou Marcos ante a visão da vizinha, que de tão concentrada chegava a fechar os olhos para acompanhar melhor a melodia. Ela parecia não notar que estava só de camisola e sendo observada por vários pares de ávidos olhos masculinos.

– Vem para cama, Marcos… a voz sonolenta de Mariana, esposa de Marcos, o tirou da sua contemplação para o mundo real. Marcos voltou para a cama, mas não dormiu enquanto a estranha música não acabou. Quando finalmente adormeceu, estava sorrindo.

No dia seguinte, Marcos nem ficou bravo quando o estranho som começou de novo, na mesma hora do dia anterior. Um pouco ansioso, ele saiu para a sacada. Gisele já estava lá. Mais vestida do que na noite anterior, ela bebia uma taça de vinho.

– Hoje ele está tocando “La valse d’Amélie” – disse ela, que parecia tão emocionada como na noite anterior.

– A valsa…

– “A valsa de Amélie”. Daquele filme, “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, lembra ?

Ele fez que sim, mas não lembrava. Não lembrava nem da última vez que tinha ido ao cinema. Mas não deixou de notar que o francês dela era perfeito. Com certeza ela devia ser a única que sabia falar o nome do prédio sem errar.

– Tão tocando essa música estranha de novo ? Alguém precisa falar com o síndico – dessa vez Mariana havia se dignado a levantar da cama para reclamar. Viu Gisele, não gostou nada e puxou Marcos, a contragosto, de volta para a cama.

No dia seguinte o síndico foi acionado. Dois dias seguidos de sono perturbado, um absurdo. “Seu” Pereira, o síndico, não tinha ouvido nada. Tomava dois Diazepan 10 mg antes de dormir, justificou ele, que prometeu uma visita ao “Maluco do 402”. Aquilo só podia ser obra dele.

“O maluco do 402” tinha nome, é claro, mas quase ninguém sabia. Raramente era visto no prédio. Não recebia e muito menos fazia visitas. Nunca havia participado de uma reunião do condomínio, nem das festas, nem de nada. Tinha gente que até jurava que ele era uma lenda urbana, só criada para assustar as crianças. Apesar disso, ele pagava o condomínio em dia, e “Seu” Pereira não tinha como expulsá-lo, por mais que quisesse. Era a chance de pegá-lo fazendo algo errado e se livrar dele.

No fim do dia os moradores incomodados foram procurar o “Seu Pereira”. Sim, ele tinha estado no apartamento do Adenílson.

– Adenílson ?

– O “maluco do 402” – explicou o síndico.

E “Seu” Pereira podia assegurar que o Adenílson era inocente. Não tinha nenhuma harpa no apartamento dele. Foi preciso todo o poder de persuasão – e uma forçada de porta – para que Adenílson autorizasse a entrada do síndico em seu apartamento. Mas, fora uma TV preto-e-branco, uma coleção de selos, uma camisa do Corinthians e uma banheira de hidromassagem de última geração, não havia nada de estranho no apartamento dele.

Na terceira noite, Marcos já estava acordado quando a música começou a tocar. Se levantou rapidamente.

– E hoje, está tocando o que ? – perguntou ele, assim que chegou na sacada, como se aquela fosse a situação mais normal do mundo.

Gisele não respondeu logo. Estava absorta pela música, praticamente em transe. Deu um longo suspirou antes de responder para Marcos.

– “Still loving you”. É lindo, não é ?  – E pareceu para Marcos que ela estava à beira das lágrimas.

– Eu vou chamar a polícia – sentenciou Mariana lá de dentro, e como ela era uma chata, cumpriu sua ameaça. Mas não adiantou nada.

A harpa misteriosa continuou tocando por mais 10 dias. Apartamentos de suspeitos foram revistados, patrulhas noturnas foram organizadas, emboscadas foram planejadas, mas ninguém conseguiu descobrir quem realmente estava tocando o instrumento. O tempo passou, e hoje em dia “A harpa da madrugada” é só uma história que os moradores mais velhos contam, para a incredulidade dos recém chegados.

O prédio voltou a ser o lugar normal e sem graça de antes. Somente uma coisa mudou. Marcos se separou de Mariana e foi morar com Gisele. O escândalo foi tão grande entre os condôminos conservadores e hipócritas – ou seja, a maioria – que os dois tiveram que se mudar do prédio. Na mudança, Marcos encontrou casualmente um CD intitulado “Harpa moderna”. Curioso, abriu o CD e percebeu sem demora que a lista de músicas era igual a da misteriosa e já lendária “Harpa da madrugada”. Parecia até que alguém tinha feito uns riscos de lápis no nome das músicas e depois apagado. Sorrindo, ele colocou o CD de volta na caixa e partiu, mais seguro do que nunca, de que havia encontrado o amor da sua vida.

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Um comentário sobre “Harpa na madrugada

  1. Excelente o conto, gostei mesmo.
    Não sei se foi de propósito, mas você deixou algo de estranho no ap do Maluco do 402, pois o cara tinha uma tv preto e branco, porém adquirira uma banheira de última geração. Um toque excelente para demonstrar a estranheza da pessoa.

    Parabéns!

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