J de vingança

Era uma vez um casal de classe média, Juliana e Jairo. Na primeira gravidez Juliana teve gêmeas: Josefina e Joaquina. Como se percebe, era um casal sem muita imaginação.

Pouco imaginativos mas antenados com as modernas teorias psicológicas para criação de filhos, o casal fez questão de criar suas filhas de forma independente, sem que uma precisasse ser a cópia da outra. Por causa disso, Josefina e Joaquina cresceram bem diferentes.

Josefina era quieta, introspectiva, estudiosa e tímida. Joaquina era o oposto: alegre, carismática, limitada e namoradeira. Mas as duas se deram bem até a adolescência.

A coisa começou a mudar quando as duas, por pressão dos pais, prestaram vestibular para Medicina. Na bolsa de apostas da família, todo mundo apostava que Josefina ia passar. Mas quem passou, para a surpresa de todos, foi Joaquina, o que fez a alegria de Jonas, o avô das duas, que ganhou um bom dinheiro com as apostas.

Enquanto Josefina se esfalfava doze horas por dia num cursinho para tentar novamente o vestibular, Joaquina não dava muita importância ao curso, para desespero da sua irmã. No ano seguinte, Josefina não conseguiu passar de novo e teve que se contentar com Enfermagem, sua segunda opção. Mas a grande notícia do ano foi quando Joaquina anunciou, na noite de Natal, que iria trancar o curso para se casar com José, 20 anos mais velho do que ela e imensamente rico.

Essa última desfeita acabou com a amizade das irmãs. Nos anos seguintes, Josefina se formou em Enfermagem. Rígida, perfeccionista e detalhista, ela facilmente conseguiu um bom emprego num dos melhores hospitais da cidade. Enquanto isso Joaquina levava uma vida de dondoca e teve dois filhos: João e Juliana, o que prova que a falta de criatividade pode ser genética.

Joaquina engravidou de novo, mas uma complicação no parto a levou a fazer uma cesárea no hospital em que sua irmã trabalhava. Mas houve um problema com a anestesia e ela entrou em coma após o parto de Jeferson. Josefina, demonstrando que havia esquecido das rusgas do passado, cuidou com muito desvelo da irmã. Quando os médicos decretaram que a morte cerebral de Joaquina era irreversível, ela tomou para si a penosa tarefa de desligar os aparelhos de suporte à vida da irmã.

A família ainda se recuperava da tragédia quando Josefina anunciou que ia se casar com seu ex-cunhado José e assumir a criação dos três filhos da irmã. Ela foi uma madrasta exemplar para as crianças, até que engravidou pela primeira vez.

Sua gravidez ia adiantada quando João começou a apresentar graves problemas de saúde. Diarreia, vômitos e sangramentos. Josefina cuidou com carinho de seu enteado, não saindo do lado da sua cama por dias, mas nem seus cuidados nem os melhores médicos puderam evitar a morte precoce do menino.

A dor pela perda de João foi amenizada pelo nascimento, na semana seguinte, de Joaquim, o primeiro filho de Josefina e José. E logo a família se confortou ao tipo de existência feliz que cerca uma criança em crescimento.

Mas a felicidade não duraria muito. Menos de um ano dos trágicos eventos havia se passado quando Juliana, num descuido da babá, acabou morrendo atropelada por um Trabant azul. A polícia chegou a prender o jornalista Flavio Gomes para averiguação, mas como ele tinha um excelente álibi – estava postando no Twitter – foi liberado. E ninguém acabou punido pelo atropelamento, o que infelizmente acontecia no Brasil naquela época.

A dor da perda de Juliana fez com que José levasse toda a família para morar em uma das fazendas que ele tinha no sertão de Goiás. E os anos se passaram felizes. Josefina, por insistência de José, engravidou de novo e teve uma menina, batizada, a contragosto dela, de Joaquina. Tornou-se uma excelente mãe para seus dois filhos e uma boa madrasta para Jeferson. Fazia trabalho voluntário no único posto de saúde da pequena localidade onde estava a fazenda e era adorada pelos empregados.

E então, como o tempo passa rápido, os três já eram adolescentes. Jeferson pensava em fazer faculdade de Administração para tocar os negócios do pai, já velho e aposentado, quando apareceu morto com uma seringa ainda enfiada no braço. Overdose por heroína foi a causa declarada da sua morte, para espanto de todos, que não sabiam que o garoto era viciado nem que existia heroína no sertão de Goiás. Depois de mais essa perda trágica, José não durou muito tempo e também morreu, “de tristeza” como disse depois Josefina.

Josefina levou os filhos de volta para a “cidade grande”. Para seu orgulho, os dois se formaram em Medicina. Joaquim se tornou andrologista e Joaquina dermatologista. Ela viveu muitos anos e morreu em casa, cercada pelos filhos e netos.

Durante o inventário, Joaquim encontrou entre os papéis de sua mãe uma carta endereçada a ele. Depois que a leu ele passou várias horas pensando sozinho. Em seguida queimou a carta. Na semana seguinte, a tragédia se abateu novamente na família: o carro em que sua irmã Joaquina, seu marido Jobson e sua filha Julieta estavam perdeu os freios, caiu numa ribanceira e todos os ocupantes morreram, tornando Joaquim o único herdeiro da fortuna da família. Em algum lugar do Além, Josefina sorriu. Podia ter demorado, mas seus planos deram certo.

PS: Meus penhorados agradecimentos à @dehcapella, @fwtoogood e @lunaomi pela ajuda com os nomes dos personagens pelo Twitter.

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