O último

Em algum lugar do Brasil em 2020:

Marcos parou o carro numa rua paralela. Pareceu ser um bom lugar, bem iluminado e com algum movimento ainda, apesar de já ser madrugada. Trancou o automóvel e saiu, mãos no bolso, tentando parecer natural.

Não precisou caminhar muito. Ele conhecia o caminho, já o tinha percorrido muitas vezes. Chegou defronte a uma casa decrépita. Bateu três vezes na porta, e um rouco e seco “entre” foi tudo o que recebeu em resposta.

O seu fornecedor estava lá, como sempre estava. Idade indefinida entre os 30 e os 40, barba sempre por fazer e o jeito desconfiado de todos os da sua profissão.

“O de sempre” – Marcos tentava fazer a desagradável estadia naquele recinto infecto ser a mais breve possível.

“Lamento, chefe, mas o Marlboro acabou. Recebi um carregamento pequeno esse mês…” – o fornecedor se desculpou.

Marcos gemeu. Estava cada vez mais difícil conseguir a sua marca preferida.

“O que você tem ?” – perguntou, nervoso.

“Lucky Strike e Marlboro Light” – respondeu o fornecedor.

“Me vê um de cada então” – se não há outro jeito, pensou Marcos.

“Está aqui, chefe. São cem reais” – o fornecedor lhe estendeu os dois maços.

“Cem reais ? Mas da última vez foi sessenta, e por dois Marlboros…”

“Desculpe, chefe, mas o preço subiu. Tá faltando mercadoria nas paradas. É pegar ou largar” – o fornecedor puxou os maços de volta, e sua voz demonstrava que não haveria negociações.

Marcos se irritou. Ele não precisava passar por aquilo. Deveria ter parado de fumar desde que a perseguição aos fumantes começou em 2008. Deu um suspiro e estendeu a nota.

“Foi bom fazer negócio com você de novo” – sorriu o fornecedor, checando a autenticidade da nota.

Marcos tinha se virado para ir embora quando a porta foi arrombada. Policiais do esquadrão anti-fumo invadiram a casa. Foi tudo muito rápido. Quando se deu conta, ele já estava algemado na traseira de um camburão.

Ele sabia para onde o estavam levando: para uma clínica de desintoxicação forçada para fumantes. Desde a invenção do revolucionário tratamento com antinicotinazol, em 2012, passando pelo registro obrigatório de fumantes em 2016 e da desintoxicação obrigatória para todos os fumantes decretada em 2018 já vira acontecer com vários amigos seus. Marcos só tinha continuado a fumar porque comprava cigarros no mercado negro, porque sua esposa também era fumante e porque aprendera pela Internet como bloquear os detectores de fumaça instalados em todas as residências e prédios.

Deitado de bruços no chão frio do camburão, Marcos não lamentou por sua esposa, que com certeza também seria pega, nem por ter fumado por tantos anos. Só lamentou que não poderia fumar o último cigarro da sua vida.

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10 comentários sobre “O último

  1. Eu tenho muito medo quando o Estado começa a se intrometer na vida particular das pessoas. O que está sendo feito com os fumantes é errado, e pode ter consequências perigosas. Só espero que nada muito radical como no meu conto…

  2. Po cara!Quem te iluminou?Julio Verne!Sendo assim ,vou começar uma contra e sair ás ruas em protesto a favor dos direitos dos fumantes!!Obrigado pela dica. Vou começar agora mesmo juntando o pessoal!

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