A carta de Jesus

Fundadores de religiões geralmente não deixam nada escrito para a posteridade. Uma das poucas exceções foi Mani, ou Manés, o fundador do maniqueísmo. Seus escritos foram preservados ao longo dos séculos até quase serem reduzidos a pó durante os bombardeios dos Aliados à Alemanha na Segunda Guerra Mundial, mas foram quase que milagrosamente salvos. Eu já escrevi sobre o maniqueísmo aqui, explicando até como ele viria a influenciar, séculos depois, o aparecimento da Inquisição.

Jesus Cristo, o fundador da religião mais popular do mundo, também não deixou nada escrito. Os relatos da sua vida são obras de segunda mão, compostas, a se acreditar na tradição, por um funcionário público, um professor, um médico e um pescador, sendo que os três primeiros provavelmente usaram uma mesma fonte primitiva, hoje perdida. Já o maior pregador da sua doutrina era um simples fazedor de tendas que tinha um problema de saúde e andava com um médico – o mesmo que escreveu um dos evangelhos, Lucas – a tiracolo. Eu também já escrevi sobre Lucas aqui. É, eu escrevo muito sobre teologia, para gáudio de alguns e irritação de muitos.

Mas existe uma história de uma carta escrita pelo próprio punho de Cristo. Como a fonte é boa, vale a pena dar uma olhada nela.

A fonte em questão é Euzébio de Cesaréia. Ele é um dos chamados “Padres da Igreja” ou “Pais da Igreja”, que é como a Igreja Católica chama os teólogos que viveram entre os séculos II e VII e que deixaram escritos sobre o período. Tudo o que você, cristão, não importa de qual ramo, acredita hoje, foi influenciado por esses homens notáveis.

Euzébio de Cesaréia escreveu, por volta do ano 300, um livro em dez partes intitulado “História Eclesiástica”, narrando como a igreja se desenvolveu desde o início, como suportou as perseguições, quem foram os mártires, a sucessão dos bispos nas cidades mais importantes e muito mais. E é nesse livro que ele não somente conta a história da carta escrita por Jesus, como ainda afirma que a teve em mãos e a transcreve na íntegra.

De acordo com ele, Abgaro, o Negro, rei de Edessa (que hoje fica na Turquia) ficou sabendo das pregações de Jesus e, como sofria de uma doença incurável enviou uma carta para Ele pedindo ajuda. A carta é citada na íntegra por Euzébio:

“Abgaro Ucama, toparca, a Jesus, o bom salvador que surgiu na região de Jerusalém, saudações:

Tem chegado a meus ouvidos notícias acerca de tua pessoa e de tuas curas, que, ao que parece, realizas sem empregar remédios ou ervas, pois pelo que se conta, fazes com que os cegos recobrem a visão e que os coxos andem; limpas os leprosos e retiras espíritos impuros e demônios; curas os que estão atormentados por longa enfermidade e ressuscitas mortos.
E eu, ao ouvir tudo isto de ti, pus-me a pensar que, de duas possibilidades uma: ou és Deus, que descendo pessoalmente do céu realizas estas maravilhas, ou és filho de Deus, já que fazes tais obras.
Este é, pois, o motivo para escrever-te rogando-te que te apresses a vir a mim e curar-me do mal que me aflige. Porque também tenho ouvido que os judeus andam murmurando contra ti e querem fazer-te mal. Muito pequena é minha cidade, mas digna, e bastará para os dois.”

Euzébio dá até o nome do portador da carta, Ananias. É uma história surpreendente, pois se for verdade mostra que Jesus teve sua fama espalhada por terras distantes enquanto ainda pregava. E Ele pregou por muito pouco tempo – de acordo com os três primeiros evangelhos, somente por um ano e meio. Já de acordo com João, teriam sido três anos.

Mais surpreendente ainda é que Jesus teria respondido à carta. E de próprio punho, de acordo com Euzébio. Jesus era, portanto, alfabetizado, coisa rara naquela época, se bem que nos apócrifos Ele aparece indo à escola – e confundindo os seus mestres. Eu já escrevi sobre isso também. Eis a resposta de Jesus, de acordo com a “História Eclesiástica”:

“Bem-aventurado tu, que creste em mim sem ter me visto. Porque de mim está escrito que os que me viram não crerão em mim, e que aqueles que não me viram crerão e terão a vida. Mas, acerca do que me escreves de ir para junto de ti, é necessário que eu cumpra aqui por inteiro minha missão e que, depois de havê-la consumado, suba novamente ao que me enviou.
Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença e trará a vida a ti e aos teus.”

Euzébio continua seu surpreendente relato afirmando que Tadeu, um dos setenta discípulos enviados por Jesus a pregar – não, Jesus não tinha só doze seguidores, Ele somente separou doze para serem os apóstolos, os mais íntimos Dele, digamos assim – foi até Edessa, curou o rei da sua enfermidade e pregou para o povo da cidade, convertendo todos. Euzébio termina a história afirmando que traduziu tudo a partir dos originais em siríaco.

A história pode parecer inverossímil em muitos pontos, e somente Euzébio a cita. Os originais das cartas, se é que existiram, nunca foram encontrados, o que não é surpreendente, muitos escritos daquela época chegaram até nós graças a cópias das cópias das cópias cujos originais, quando existem, não passam de fragmentos. Nem há registros sobre um rei chamado Abgaro em Edessa. Mas é intrigante imaginar que Jesus possa, um dia, ter deixado algo escrito. Se tivesse deixado mais, séculos de divergências teológicas poderiam ter sido evitadas. Ou não.

Anúncios

3 comentários sobre “A carta de Jesus

  1. Olá Henderson,

    Não creio que Jesus tivesse deixado algo escrito, e se deixou, deve ter ‘providenciado’ lá de cima que o escrito fosse destruído. Isso porque acredito que Ele não queria que seus escritos, desenhos, objetos pessoais ou mesmo Seu corpo fossem venerados como relíquias, pois o importante era a Sua mensagem.

    Ao lembrar dos milhares de lascas da santa cruz e retalhinhos do sudário que correram o mundo, acho que Ele estava certo…

    Mas se tivesse escrito, certamente seria algo semelhante à carta transcrita por você. Portanto, não é de todo inverossímil. Parabéns pelo artigo bem interessante, e um abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s