Osvaldo Cruz, cidade que produz…parte 2

Depois de apresentar aos meus nobres leitores os filhos ilustres de Osvaldo Cruz, chegou a hora de contar uma das histórias mais pitorescas acontecidas na cidade: a instalação do presídio.

Como todo mundo deve lembrar, o Picolé de Chuchu, digo, o governador Alckmin queria ser presidente e precisava de algo de impacto para as propagandas da TV, por isso decidiu demolir o Carandiru. Como ele não podia fazer isso com os presos dentro (não que isso não fosse uma idéia considerada boa por algumas pessoas) ele tinha que arrumar um lugar para colocar os “hóspedes”. Aí ele saiu oferecendo presídios em cidades pequenas do interior. Boa parte desses presos acabou vindo aqui para a região oeste do estado de São Paulo, onde tem um monte de cidades carentes de investimentos estaduais, sejam eles quais forem.

Isso criou algumas situações bizarras, como a cidade de Pracinha, que fica aqui perto, que tem “hospedados” no presídio o equivalente a metade da população da cidade. E isso foi considerado um progresso pela prefeitura, já que a cidade ganhou seu primeiro posto de gasolina e sua primeira padaria. Sim, isso aconteceu, podem acreditar.

Osvaldo Cruz era então, como hoje, governada por alguém do mesmo partido do governador, e não poderia ficar de fora dessa festa, manifestando interesse em ter um presídio na cidade. Mas encontrou grande oposição da população. Mas que acabou não adiantando nada, a não ser para criar mais um bode expiatório, como nós vamos ver.

Para conseguir o presídio, a Câmara Municipal tinha que aprovar a desapropriação e doação de um terreno para a construção do mesmo. O prefeito tinha maioria na câmara, o que levou a oposição à construção do presídio a pressionar os vereadores da situação a votarem contra. Eles se focaram principalmente em um deles, ligado a movimentos sociais da Igreja Católica. O plano era empatar a votação com o voto negativo dele, e transferir todo o ônus da vinda do presídio para o presidente da Câmara, que daria o voto de minerva, na débil esperança que ele “pipocasse” na hora decisiva.

Contam as más línguas que até o padre da cidade participou de uma reunião com o dito vereador que, dizem, se comprometeu a votar contra. Então, a oposição armou um grande circo no dia da votação. O comércio fechou e metade da cidade estava em frente da câmara na hora da votação. Pela segunda vez em sua história Osvaldo Cruz viu a tropa de choque aparecer na cidade. A primeira tinha sido na época da Segunda Guerra Mundial, quando um descendente de japoneses assassinou uma pessoa num dos bares da cidade e desencadeou uma onda de fúria contra a comunidade nipônica da cidade. Foi um momento histórico. Eu estava lá, fui “testemunha ocular” da história. Da votação, claro. Eu não sou tão velho assim…:)

Mas o tal vereador votou a favor do presídio, e o presidente da câmara escapou ileso. Mesmo contra a vontade de boa parte da população, a construção do presídio ia começar. Mas não foi assim tão fácil. Enquanto alguns tentaram de toda forma embargar a obra do ponto de vista jurídico alegando, por exemplo, falta de estudo de impacto ambiental, outros “puseram a mão na massa” e sabotavam as máquinas no canteiro de obras. Mas não adiantou nada, no máximo retardou a obra. O presídio foi concluído, e foi escolhido como sendo um dos dois no estado a abrigar somente presos condenados por crimes sexuais.

Ter cerca de 800 tarados, estupradores e molestadores de mulheres a menos de 10 km do centro da cidade pareceu uma péssima idéia para muita gente, e alguém tinha que ser culpado por isso. Quem foi o escolhido ? O prefeito ? O governador ? Não, aquele vereador que tinha se comprometido a votar contra e refugou na última hora. Ele nunca mais se elegeu. Na eleição seguinte, teve menos da metade dos votos. Na outra, teve menos votos ainda. Nem sei se ele ainda pretende se candidatar de novo algum dia, mas acho que deveria. A memória do povo é curta.

É verdade que hoje a oposição ao presídio, tirando alguns poucos chatos como eu, é praticamente nula. Ajudou o fato de nunca ter havido uma rebelião por aqui, que depois de um tempo o presídio voltou a ser “normal” – e não um depósito de tarados – e o fato de que muita gente da cidade passou no concurso para trabalhar lá. Mas também há aspectos que pouca gente comenta, como a sobrecarga nos péssimos serviços de saúde da cidade e o aumento da violência depois que o presídio foi inaugurado.

Eu sei que é primário atribuir o aumento da violência à chegada do presídio. E, de acordo com alguns, até preconceituoso. Mas os números não mentem. A cidade está mais violenta sim, com roubo de carros, assassinatos e outros crimes que não se viam muito por aqui. Se isso foi obra do presídio, “coincidência” ou somente um aumento natural da violência, eu deixo para os especialistas discutirem. Mas não enxergar o aumento da violência é miopia. E parece que a imprensa daqui (que também vai ganhar um post só para ela em breve) tá precisando muito de óculos…

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