Trinta dias

Trinta dias. Eu só tinha trinta dias.

Eu só me lembro da expressão levemente compungida, mas profissional, da pessoa que me deu a notícia. Do resto do dia não me recordo de muita coisa. Tenho poucos flashs, que envolvem garrafas de uísque barato e pessoas dizendo que “a vida é assim mesmo”, e nada mais.

Acordei de ressaca no dia seguinte, é claro. Pensei em ligar para a minha mãe, mas desisti. A velha estava ainda abalada com a morte recente de meu pai e não seria a hora de pertuba-la com mais uma má notícia. Ela ficaria sabendo, de qualquer jeito.

Não sei como, mas a notícia se espalhou rapidamente no meu trabalho. Comecei a receber sorrisos e atenção de quem nunca tinha notado minha presença antes. Hipócritas, pensei. Até seria divertido, se não fossem as pessoas cochichando e apontando para o meu cubículo e o silêncio do tipo “quietos, o assunto chegou” toda vez que eu ia tomar um café. Resolvi ignorá-los.

Quando só faltavam vinte e um dias, eu estava num estado péssimo. Barbado, magro, com olheiras e bebendo mais uísque do que água, eu teria pena de mim mesmo, se a ressaca deixasse. No trabalho, a minha “nova” aparência não ajudou muito. A “rádio corredor” estava agitadíssima, todos comentando que eu partiria mais cedo. Porque será que eles achavam que eu não estava percebendo nada ?

Quinze dias. Agora só faltavam quinze dias, e eu estava no fundo do poço. Tinha faltado três dias seguidos no trabalho e ninguém tinha ligado para me cobrar. Bem que eu achei que meu chefe estava mais sorridente do que o normal. Não, eu é que devia estar muito bêbado. O entregador de pizza hoje até comentou que eu estava com uma cara péssima. Mandei ele pastar e não dei gorjeta. Finalmente liguei para a minha mãe. Mas não disse nada. Ela pode esperar mais um pouco.

Uma semana. Tudo bem, certas coisas são inevitáveis, então temos que encara-las. Estou sóbrio a três dias. Joguei a última garrafa de uísque no ralo e  fui comprar um terno. Os meus estão muito puídos, e vou precisar de um novo, dadas as circunstâncias. Aproveitei e comprei um bom, fazenda inglesa, de acordo com o vendedor. Levei também uma calça, gravata e sapatos novos. Ficarei bem elegante, disso não há dúvidas. Comemorei o bom dia tomando coca cola.

Três dias. Incrivelmente, estou me sentindo muito bem. No trabalho, perdi a paciência e dei um fim à indústria de boatos ao confirmar “oficialmente” que vou partir. Recebi alguns apertos de mãos e tapinhas nas costas. Falsos. Humpf. Só a loirinha da Contabilidade me pareceu levemente comovida. Acho que vi uma lágrima no canto dos olhos dela. Coitada, deveria ter dado mais atenção aos olhares fugazes que ela me dirigia toda vez que eu passava por lá. Uma pena, até que ela é bonitinha, e eu nunca tinha reparado.

Dois dias. A depressão hoje está braba, e eu estou sem uísque. Para piorar, minha mãe ligou. Não sei como ela ficou sabendo. Deve ter sido alguém do trabalho. Acho que tinha alguém da minha cidade trabalhando lá também, mas não consigo me lembrar quem é. Chorou muito, coitada. Menti para ela e disse que ia ficar tudo bem. Ela pareceu se conformar. Queria vir para cá, não deixei. Depois de umas cervejas, me animei um pouco. O rapaz da pizza estava mais simpático hoje. Dei uma gorjeta gorda para ele, que arregalou os olhos e se derramou em agradecimentos. Nunca mais compro lá.

Último dia. Não dormi a noite toda, mas levantei disposto. Comi o resto da pizza de ontem com cerveja no desjejum. Fui para a academia e cancelei o contrato. Fazia tanto tempo que eu não aparecia que a mocinha da recepção não me reconheceu. Paguei também a videolocadora, o bar do Seu Zé, o açougue, o bar do Chicão, o sex shop, a lavanderia, o bar do Antônio e a dona Francisca, que passava a minha roupa. Sou um homem sem dívidas agora. E sem dinheiro também. Almocei uma lauta refeição e fui para o trabalho. Passei no RH e assinei os papéis da minha demissão. A mocinha que me atendeu parecia ligeiramente feliz. Ou eu que estava muito contente. Ou ambos.

Fui embora sem me despedir de ninguém. Tinha ouvido falar de uma festinha de despedida. Eles que comam aqueles salgadinhos gordurosos sozinhos. A partir de amanhã vou distribuir currículos por aí, de terno novo e sorriso colgate no rosto. E a vida segue, porque ser demitido não é o fim do mundo.

Anúncios

3 comentários sobre “Trinta dias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s