O filosofo desaparecido

Alberico era uma criança que poderia ser resumida em uma única palavra: curiosidade. Dona Albertina, a sua mãe, dizia, só de brincadeira, que ele não havia superado ainda a fase dos porquês. Pode parecer irritante, e era mesmo, mas as mães sempre valorizam o que há de melhor em seus rebentos.

Na escola, o jovem Alberico era o terror dos professores, sempre a cobrar explicações detalhadas. Dois pediram demissão depois de um ano, um teve um colapso nervoso e outro se jogou do telhado de casa, mas sobreviveu, apesar de ter ficado tetraplégico. Depois dessa tragédia, Alberico maneirou um pouco, para grande alívio de todos na escola.

Alberico se transformou num adolescente introspectivo, pessimista, sarcástico e orgulhoso. Passava a maior parte do tempo trancado no quarto, lendo compulsivamente, escrevendo no computador e ouvindo música clássica no último volume. Não tinha amigos – ninguém o suportava – ou namorada, o que só alimentava a maledicência de alguns contra ele.

Quando chegou na fase do vestibular, Alberico escolheu filosofia, para desgosto de dona Albertina, que queria ver o filho “virar doutor”, mas ele a tranqüilizou. Depois do primeiro doutorado (sim, ele pretendia fazer mais de um) poderia ser chamado de doutor também, explicou ele para a alegria da velha senhora.

Na faculdade, Alberico se destacou. Seus professores elogiavam sua inteligência e conhecimento ímpares. Era dono das melhores notas, e seus professores disputavam a tapa a honra de serem seu orientador no mestrado. Uma brilhante carreira acadêmica parecia se descortinar a sua frente.

Até que um dia, a poucas semanas do fim do curso, Alberico saiu de casa para fazer uma prova na faculdade e desapareceu. A eficiente polícia brasileira foi acionada, mas não havia nem sinal do rapaz. Ninguém o tinha visto nos lugares habituais e ele não tinha chegado à faculdade naquele dia. Depois de algum tempo, a investigação foi encerrada e Alberico foi dado como desaparecido, presumivelmente morto.

Então um dia Altamiro, o irmão mais velho e menos brilhante de Alberico, resolveu dar uma olhada no que o irmão escrevia tanto no computador. Encontrou centenas de textos. Poesias, contos, crônicas, roteiros de peças de teatro e filmes, o projeto de um livro. Altamiro achou que devia divulgar todo aquele material. Escolheu alguns contos e publicou um e-book pela internet, além de criar um blog para os textos menores. E, graças ao que ficaria conhecido depois como “a era de ouro da blogosfera”, que aconteceu depois da revolta contra os trolls de 2015, os textos de Alberico, o filosofo desparecido – que foi como Altamiro batizou os textos do irmão – ficaram muito conhecidos e começaram a fazer sucesso.

Em breve Altamiro estava assinando contrato com uma grande editora e publicando três livros do irmão em seqüencia. Uma peça sua foi montada com grande sucesso no eixo São Paulo-Belo Horizonte. Um outro conto foi adaptado e virou minissérie na Rede Globo, que na época ainda era a maior TV do Brasil. O sucesso foi estrondoso. No país todo só se falava do misterioso “filosofo desaparecido”. Seu sucesso repentino levou a reabertura das investigações sobre sua morte. Causou comoção no país a achada de uma ossada que seria dele, mas o exame de DNA provou que não era. Isso foi antes que o biólogo indiano Willian Khorana descobrisse em 2025 que os exames de DNA não eram precisos, é claro.

Altamiro soube gerenciar a carreira do irmão com muita perspicácia, soltando seus textos a conta-gotas nos anos seguintes, o que só fazia aumentar as vendas. Quando os textos de Alberico começaram a rarear, ele contratou um ghost-writer que tentou imitar o estilo do irmão, mas não deu muito certo. Então ele passou a lançar somente coletâneas e reedições das obras antigas.

Tudo ia bem, até que um dia Altamiro estava flanando nos jardins da sua mansão na Vila Nair, o bairro dos novos-ricos em São Paulo na época, quando o mordomo avisou que alguém queria falar com ele. Quando Altamiro chegou até o hall, um homem simples, de camisa rasgada, pele curtida pelo sol, barba por fazer e chapéu de palha o estava esperando. O estranho não precisou dizer nada, ele o reconheceu imediatamente. Era Alberico.

Depois do choque inicial, os dois irmãos se abraçaram. Alberico perguntou por dona Albertina. Estava morta a cinco anos, informou o irmão, para desgosto do outro. Passada a choradeira, Altamiro pode finalmente perguntar ao irmão o que afinal tinha acontecido.

Alberico então contou que tinha cansado da vida que levava na época. Tinha conhecido uma garota, se apaixonara e era correspondido. Decidiu abandonar tudo e fugir com ela para o sertão de Goiás, onde vendeu um rim e comprou um sítio – “Consegui um bom preço nele porque eu nunca tinha bebido nada alcóolico, explicou ele” – onde passara os últimos vinte anos longe da civilização, sem TV ou internet e praticando agricultura de subsistência. Recentemente sua esposa havia morrido por causa de uma gripe mal curada e como não tinha filhos, provavelmente por ter ouvido muita música  clássica na adolescência e ficado estéril, ele resolveu abandonar a vida de ermitão e voltar para casa. Tinha se surpreendido ao ver um livro seu na livraria e perguntou ao irmão porque ele tinha publicado as besteiras que tinha escrito na juventude.

– Besteiras ? Mas o Brasil, e até o mundo amam seus escritos ! – retrucou, espantado, Altamiro.

– Pura besteira, meu irmão. Coisas que escrevi quando era um jovem arrogante que achava que podia aprender sobre a vida nos livros. Só se aprende a viver vivendo, meu irmão. Quero que você suspenda a venda dos livros e…

Não chegou a completar a frase. Altamiro o atacou violentamente. Alberico lutou, era mais forte, mas a fúria do seu irmão mais velho lhe dava uma força descomunal. Menos de uma hora depois de se reencontrarem, Alberico jazia morto, estrangulado pelo próprio irmão.

Quando voltou a si, Altamiro escandalizou-se com o que tinha feito. Chamou então o mordomo, matou-o também – era o único que tinha visto Alberico – enterrou os dois no jardim, plantou uma horta de cenouras por cima e foi ligar para a editora para combinar a reedição de mais um livro. Em algum lugar do Além, dona Albertina balançou a cabeça negativamente, pensando que teria sido melhor seu filho mais novo ter cursado medicina…

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