Os segredos perdidos da Arca Sagrada – parte II

Se você quiser entender este post, é imprescindível, obrigatório e altamente recomendável que você leia a primeira parte antes. Você foi avisado. Obrigado.

Bem, se você acha tudo o que foi descrito na primeira parte desse post é improvável, você não viu nada, meu caro leitor. Como vimos, para Gardner, a Arca foi escondida em  nos subterrâneos do Templo construído por Salomão e somente um grupo de homens sabia da sua localização. A Arca teria ficado escondida lá até 1119, quando os templários a encontraram, graças a dicas de seus guardiões.

Agora, pense comigo. Durante 1600 anos, mais ou menos, um grupo de pessoas conseguiu guardar um segredo desse tamanho, sem que ele se perdesse. Contando com uma geração a cada 25 anos, como é habitual, seriam necessárias 64 gerações guardando o mesmo segredo, sem falhas. E mais: porque os guardiões, supostamente zelosos israelitas, não revelaram o segredo antes ? A região passou por muitos “perrengues” nesses mil e seiscentos anos. Teve a rebelião dos Macabeus, os levantes contra os romanos em 70 e 135 dC. Porque o segredo não foi revelado e o poder da arca usada nesses episódios ? Como eles sabiam que o paradeiro da arca deveria ser revelado só aos Templários ?

Gardner nem passa perto de explicar sobre essas questões. Ele reafirma a ladainha que os Templários só se tornaram poderosos porque encontraram a Arca da Aliança. Para o pessoal que acredita na história que Maria Madalena era esposa de Jesus, os templários ficaram poderosos porque descobriram esse segredo. Parece que esses escritores de livros polêmicos não chegam a um acordo sobre o que, afinal, os templários encontraram, se é que eles encontraram alguma coisa.

Curiosamente, nenhum deles parece disposto a estudar a história dos Templários. Se fizessem isso, veriam que a ordem não se tornou poderosa da noite para o dia, tendo que “ralar” muito antes de se estabelecer como uma ordem poderosa. Eles também saberiam que São Bernardo, que foi o maior incentivador da nova ordem, tinha sido cavalheiro na juventude e que tinha todos os motivos do mundo para apoiar uma ordem de cavalaria no estilo dos templários, não precisaria nem de arca nem de Maria Madalena para isso. E o que São Bernardo apoiasse ia para frente, já que ele era um excelente administrador. Tirou a Ordem Cisterciense da quase “falência” para uma das ordens mais poderosas do seu tempo, e isso antes que existissem Templários e todo o resto. A história pode ser tão simples, para que complicar, né ?

Mas Gardner gosta de complicar. Para ele, os Templários encontraram a Arca, levaram para a França (porque sempre a França ?) e passaram a utiliza-la para conseguir poder e riqueza no seio da cristandade. Aí ele mistura as bolas ao dizer que a Cruzada Albingense – onde nasceu a Inquisição – foi uma tentativa do poder de Roma de tomar a Arca, quando na verdade o inimigo eram os cátaros. O fato de não haver registro dos templários nessa cruzada não quer dizer nada para ele. Então passemos à frente.

Chegamos agora ao fim da linha. Todo mundo sabe que os Templários foram extintos em 1312 porque um rei da França devia uma grana para eles. Para Gardner, o verdadeiro motivo da perseguição aos Templários foi conseguir a Arca. Porque demoraram 200 anos para fazer isso ele não explica. Mas então a arca se perdeu, ou está nas mãos da Igreja Católica, certo ? Errado. A arca está na Catedral de Chartres, na França. Não escondida lá, mas a vista de todo mundo. É que ela está invisível. Ou, melhor dizendo, está em outra dimensão.

Sim, meu caro leitor, Gardner já começa errado ao afirmar que a construção da Catedral de Chartres tem algo a ver com os Templários, o que é algo polêmico, para dizer o mínimo. Depois ele afirma que o labirinto que existe na catedral na verdade fazia parte de um sistema, junto com uma bacia de cobre e um teto de ouro (que, convenientemente, não existem mais) que permitiu a “energização” da arca, que começou a “vibrar em outra freqüência” e foi para outra dimensão.

Eu não vou entrar no mérito se existem ou não outras dimensões e se é possível “viajar” entre elas, já que eu não sou físico e a teoria é complexa. Mas Gardner adora citar teorias que ele não entende, como supercordas e afins. Ele só não explica porque os templários “sumiram” com a Arca e não a esconderam, afinal os tempos mudam, a Igreja muda, e a tal Arca já tinha ficado escondida por 1600 anos, porque não ser escondida de novo ? Só para que nós não tenhamos nenhuma prova para refutar a teoria dele, é o que eu diria.

O resto do livro esbarra nas teorias da conspiração ao dizer que o súbito interesse pelo ouro depois da descoberta dos ORME é prova dos poderes curativos desse material – nas palavras de Gardner, ele teria o poder de “relaxar as hélices do DNA, reparando-as” – e que a Maçonaria sabe de toda a história da Arca Sagrada desde o início, além de fazer a clássica – e errada – conexão entre a Maçonaria e os Templários. Nada novo, e nada provado, como quase tudo o que ele escreve, é claro.

Em resumo, o livro é mais uma daquelas viagens na maionese. O problema é que ele pode enganar os menos atentos. A obra tem muitas citações, o que parece depor a favor da sua credibilidade, mas quando você vai analisar, são os mesmos escritores de sempre – o Zecharia Sitchin, o von Daniken, até para o Werner Keller sobrou. Ou seja, sempre o mesmo grupinho que defende teorias sem comprovação e que serve de fonte um para o outro. Então, a menos que você queira se irritar, fique longe desse livro e das teorias malucas que ele propõe.

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2 comentários sobre “Os segredos perdidos da Arca Sagrada – parte II

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