Duelo literário: Alencar vs Nabuco

Rio de Janeiro, final de 1875. Dois grandes personagens das letras brasileiras estão com um duelo marcado. O campo de batalha será as páginas do jornal “O Globo”. Vamos acompanhar esse embate histórico.

De um lado, o campeão de vendas de sua época, deputado, ex-ministro da Justiça, dramaturgo e advogado, José de Alencar, já doente e quase no fim da vida (morreria menos de dois anos depois). Do lado do desafiante, o então imberbe Joaquim Nabuco, recém chegado da Europa e com somente um livro de poesias em francês publicado.

A guerra foi declarada por causa de um artigo de Nabuco sobre a peça “O jesuíta” que tinha sido escrita por Alencar vinte anos antes mas só encenada em setembro de 1875. A peça foi um fracasso de público, e Alencar jogou a culpa na população que não sabia apreciar uma boa obra e falou até em um imaginário boicote maçom à sua obra. Nabuco escreveu sobre a peça em “O Globo” e, apesar de elogiá-la, não deixou de alfinetar Alencar ao dizer que talvez a obra tivesse que ter sido “modernizada” antes de subir ao palco.

Alencar não gostou. Ele era um mala polemista notório. No começo da carreira sua primeira grande polêmica foi criticar abertamente Gonçalves de Magalhães e sua obra “A Confederação dos Tamoios” o que rendeu até intervenções do próprio imperador Dom Pedro II, que escreveu anonimamente aos jornais para defender o amigo. Dessa vez, Alencar provaria do próprio veneno e deixaria de ser pedra para se tornar vidraça.

Com a resposta ruim de Alencar a sua crítica, Nabuco decidiu declarar guerra aberta à ele. Apesar de elogia-lo, declarou aos leitores que em artigos futuros iria analisar toda a obra do escritor. Alencar ficou fulo da vida. Escreveu ao jornal dizendo que não via “autoridade intelectual” em Nabuco para analisar a sua obra. E conseguiu convencer O Globo a lhe dar um espaço para responder semanalmente às criticas recebidas. A guerra ia começar.

Nabuco começou bem light. Criticou as primeiras colunas de Alencar aos jornais, chamando-as de “salada insossa”. E criticou também os neologismos de Alencar e suas citações freqüentes de vocábulos indígenas em suas obras. “Sempre me pareceu um esforço mal compensado esse que emprega o sr. José de Alencar para formar uma língua que só pode ser falada por ele e por um ou outro índio do Amazonas” disparou ele. Alencar respondeu desqualificando o adversário: “No meio de tão grande acervo de palavras, as idéias são raras, quase imperceptíveis. Fora preciso ao espírito, para ocupar-se desses átomos, o mesmo esforço que faria um homem a esgrimir de lança em riste com um mosquito” escreveu ele.

Nas semanas seguintes Nabuco resolveu pegar mais pesado. Criticou pesadamente a obra prima de Alencar, “O guarani”. Disse que era um plágio dos romances indigenistas de Chateaubriand. Ataca também os personagens, tidos como superficiais e ingênuos. E volta a criticar a forma como Alencar escrevia. Para ele, o velho escritor se preocupava mais com a sonoridade das frases do que com o seu conteúdo. Criticou ainda o teatro de Alencar, e o chamou de incoerente por em suas peças supostamente defender a abolição da escravatura e como deputado ter sido contra a Lei do Ventre Livre. E ainda reclamou do “sensualismo torpe” de outro sucesso de Alencar no teatro, a peça “As asas de um anjo”.

Alencar, que até então tinha levado a disputa em banho maria, resolveu engrossar o tom. Lembrou a Nabuco que ele havia crescido num país de escravos, e que tinha uma família ilustre servida por escravos, e que se a escravidão a aborrecia, que pedisse ao pai (que era senador) que a abolisse imediatamente. Partiu também para a ironia, chamando Nabuco de “pudico” por ter criticado a sensualidade de suas peças de teatro. “Que atrozes convulsões não sofreria o sr. Nabuco lendo então o “Édipo” ? pilheriou Alencar.

A disputa esquentou. Nabuco atacou de novo com a acusação de plágio ao dizer que “Lucíola” era uma imitação barata de “A dama das camélias”. Criticou mais uma vez a sensualidade da obra de Alencar, escrevendo que “esse romance só deve ser lido nas casas de tolerância”. Alencar partiu para o humor de novo. “Qualquer destes próximos domingos o nosso beato folhetinista começa o artigo fazendo o pelo sinal” escreveu ele. Depois, falou sério e escreveu que Nabuco estava fazendo uma análise muito simplória das suas obras.

Nabuco não gostou. Partiu para o ataque de novo criticando as repetições freqüentes nas obras de Alencar. “As mulheres do sr. Alencar estão sempre a colear o talhe flexível ou a críspa-lo. Dir-se-ia que todas sofrem de doenças nervosas desconhecidas” atacou ele. Reclamou também da expressão “lábios túrgidos”: “Todas as suas heroínas tem os lábios inchados, o que também não é um traço fino” reclamou ele. Alencar reclamou que o oponente estava apelando. “Mais uma semana, o folhetinista domingueiro ficará reduzido a dois leitores, ele e eu: ele, por devoção; eu, por obrigação.” escreveu ele. E deu um ultimato ao jovem Nabuco: ou eleva o tom das críticas ou vou te deixar falando sozinho.

Aí chegamos no momento decisivo dessa contenda. Nabuco se encheu de brios e atacou Alencar de frente. “A minha opinião é que o sr. José de Alencar teve a mais decisiva e também a mais funesta influência sobre o desenvolvimento intelectual do nosso país” disse ele no artigo seguinte, em que atacava mais uma vez a forma como Alencar escrevia e dizia que o velho escritor tinha tentado, sem sucesso, criar uma literatura e uma língua totalmente desvinculadas da portuguesa. “Os nossos tempos são de esterilidade, de mediocridade. Virão talvez dias mais brilhantes, eu creio que hão de vir” profetizou Nabuco, já prevendo o fim do Romantismo para breve.

Alencar acusou o golpe. Sua resposta não foi a altura. Nabuco então pôs a pá de cal na disputa, que já durava dois meses, ao atacar o oportunismo de Alencar no campo da política. Alencar chegou a responder escrevendo que “política estava acostumado a discutir com seu pai” que era senador do império, mas por algum motivo desconhecido ele não chegou a enviar o texto ao jornal. Ele só foi encontrado depois de sua morte entre seus papéis. E Nabuco venceu a disputa por WO.

Mais do que uma disputa entre dois egos, o embate Alencar vs Nabuco foi uma disputa entre dois sistemas literários. O Romantismo, do qual Alencar foi o grande nome, estava morrendo, assim como o escritor. Menos de dois anos depois da disputa, Alencar morreria. Logo em seguida o Realismo/Naturalismo entrariam “na moda”, com a publicação de “O Mulato” e de “Memórias póstumas de Brás Cubas” em 1881. Nabuco estava certo. Novos dias chegaram, e Alencar só não foi esquecido completamente nos anos seguintes porque era amigo de Machado de Assis, que o elevou a patrono de uma das cadeiras da recém-fundada Academia Brasileira de Letras. Da própria cadeira ocupada por ele, inclusive.

Se você gostou desse pequeno e imperfeito resumo da disputa Alencar vs Nabuco, sugiro a leitura da biografia de José de Alencar, “O inimigo do rei”, do jornalista Lira Neto, que foi a minha fonte primária para escrever esse texto. Imperdível se você gosta de uma boa biografia.

Anúncios

3 comentários sobre “Duelo literário: Alencar vs Nabuco

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s