Diários do fim do mundo II

Leia antes a primeira parte de Diários do fim do mundo clicando aqui.

Sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013, Sorocaba

Meu pai saiu para tentar conseguir comida a dois dias e não voltou. Temo que esteja morto. Minha mãe só chora depois da morte da pequena Lili. A pouca comida que conseguimos arrombando um supermercado está no fim. Pelo menos parou de chover, mas o tempo continua nublado e pode voltar a cair água a qualquer momento. Não sei o que será de nós. Estou magra como um palito, minhas roupas dançam no meu corpo. Acho que não agüentarei por muito tempo.

Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013, Santos

Finalmente tenho boas notícias. Parou de chover a alguns dias. Meus ferimentos estão curados e já consigo andar sem muletas. Helicópteros jogaram comida hoje, foi um corre-corre que os militares tiveram trabalho para organizar. Estão comentando que haverá um resgate por helicópteros nos próximos dias, mas achei estranho eles não terem pousado hoje. De qualquer forma, parece que as coisas vão melhorar.

Segunda-feira, 4 de março de 2013, Sorocaba

Encontrei esses papéis na bolsa da minha filha. Acho que ela estava escrevendo um diário. Era uma menina muito inteligente. Morreu ontem, e foi muito valente e serena até o fim, sem nunca reclamar de nada. Sinto muito orgulho dela. Minhas duas filhas estão mortas e meu marido desaparecido. Acho que serei a próxima. Se alguém encontrar esses papéis, dê ao meu corpo um enterro digno, por favor.

Terça-feira, 26 de março de 2013, Santos

Como eu previa, não fomos resgatados. Os helicópteros só jogam comida uma vez por semana. Os próprios militares estão assustados. Muita gente está revoltada. Um grupo grande forçou a saída ontem e não foram impedidos. Quase fui com eles, mas decidi ficar, pois aqui pelo menos tem comida, mesmo que pouca. Não choveu mais, mas o tempo está encoberto e nada de sol. Está muito quente e abafado, mas temos água armazenada para alguns dias ainda.

Sábado, 30 de março de 2013, Petrópolis

Tive uma pneumonia e quase morri, mas já estou recuperado. O ginásio que nos serve de abrigo está mais vazio. Achei que tinham levado as pessoas para outro lugar mas uma senhora me contou que muita gente morreu desde que fiquei doente. Estou chocado. Comida e água não faltam, pelo menos por enquanto. Só a energia elétrica que nunca mais voltou. Esquisito, mas os militares não gostam de quem faz muitas perguntas, então mantenho a boca fechada que é melhor.

Sexta-feira, 12 de abril de 2013, Santos

Duas semanas se passaram e os helicópteros não trouxeram comida. Os militares se revoltaram, assassinaram seus superiores e foram embora, nos deixando para morrer sem comida nem água. Montamos grupos e reviramos a cidade atrás de comida, mas só encontramos escombros e mortos. Conseguimos um pouco de água, e é tudo o que temos a três dias. Um grupo encontrou um ônibus e gasolina. Vamos embarcar agora, só não sei para onde. É a nossa última esperança.

A terceira parte de “Diários do fim do mundo” está aqui.

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7 comentários sobre “Diários do fim do mundo II

  1. li agora as duas primeiras partes, está muito bom! parece que o fim do mundo está sendo causado pelo pânico e desorganização das próprias pessoas, o que era de se esperar, tendo em vista a natureza humana… 😦

    quero ver como isso termina…

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