Diários do fim do mundo IV

A primeira parte de Diários do Fim do Mundo está aqui.

Já a segunda parte está aqui.

E a terceira parte pode ser lida aqui.

Sexta-feira, 19 de julho de 2013, Juiz de Fora

Estou em Minas já tem alguns dias. Fomos resgatados em Sorocaba depois de quinze dias de muita privação. Aqui estamos bem melhor, dentro das circunstâncias, é claro. Há muitas barracas por aqui. Calculo por alto que tenha umas 10 mil pessoas nesse lugar. Estou dividindo a minha barraca com uma adolescente mineira que chora toda noite antes de dormir. Ela perdeu-se dos pais, que provavelmente estão mortos. Ela me lembra minha filha, mas não é de muita conversa, ainda está muito assustada. Temos comida e água suficientes, mas não sei até quando vamos continuar fugindo de um lugar para outro. Parece que esse pesadelo nunca vai acabar…

Domingo, 21 de julho de 2013, Juiz de Fora

Nem seu eu vivesse cem anos não teria tempo de contar todas as aventuras que passei nesses últimos seis meses. Nosso acampamento em Mogi da Cruzes foi arrasado por um terremoto. A maior parte das pessoas morreram na hora, e não tínhamos como retirar os soterrados. Foi terrível ver meus amigos que suportaram tanta coisa desde Santos morrerem daquele jeito. Depois de uns dez dias nos acharam e fomos mandados para Minas. O local é aqui é imenso, tem um rio por perto e não sei de onde está vindo comida. Estou dividindo a barraca com um carioca que fala chiado. Ele escreve nuns papéis, acho que também é um diário. Resolvi não falar nada para ele do meu, ele parece desconfiado e fala toda hora que estão escondendo a verdade da gente. Mas tenho que concordar com ele, o terremoto não foi sentido aqui, o que é estranho. Vamos ver até quando vamos ficar por aqui. Começo a perder as esperanças…

Terça-feira, 23 de julho de 2013, Juiz de Fora

Não se passa um dia que não chegue um caminhão lotado de refugiados por aqui. Quase não há espaço para mais barracas. Dei uma volta pelo acampamento e fui até o rio que nos abastece. Achei que o nível da água está muito baixo, se não chover logo vamos ter problemas. Tentei também chegar perto do heliporto, mas não deixaram. Parece haver mais aeronaves do que há um mês atrás. Será que vão nos transferir de novo ?

Segunda-feira, 5 de agosto de 2013, Juiz de Fora

Monique era o nome da garota que dividiu a barraca comigo no último mês. Era, porque ela faleceu ontem. Fiquei com ela até o fim. Pelo menos ela partiu em paz. Falam em um surto de cólera, e está todo mundo assustado. A água que nos servem está barrenta e quase não dá para beber. Sinto falta de um banho, agora os banheiros estão racionados a um banho de cinco minutos a cada três dias. A comida chega de helicóptero, percebi isso quando estava na enfermaria cuidando da Monique. Não há remédios para todos. Se não chover, estamos perdidos.

Quinta-feira, 19 de setembro de 2013, Juiz de Fora

Estou sozinho na minha barraca de novo. O paulista que morava comigo morreu de diarréia. Fiquei sabendo porque os militares vieram buscar as coisas dele. Encontrei uns papéis no meio das roupas dele. O cara tava escrevendo um diário ! Ele passou por muitas coisas, fugiu de Santos e até matou gente. Sinistro. Por isso que ele era tão caladão. A situação é ruim, tem muita gente morrendo. Os banhos foram suspensos de vez, estou fedendo a dias e não deixam ninguém chegar perto do rio. Água e comida estão racionadas. Os mais fracos estão morrendo como moscas. São enterrados numa cova coletiva do lado do acampamento. Espetáculo triste de se ver.

Terça-feira, 24 de setembro de 2013, Juiz de Fora

CHOVEU ! Sim, depois de tanto tempo, choveu. Nunca pensei que ia ficar tão feliz com uma simples chuva. Perdi a vergonha e tomei banho na chuva pelada. Muita gente fez o mesmo. A chuva foi pouca e durou só meia hora, mas já animou a todos. As coisas parecem que vão melhorar. Infelizmente muita gente já morreu. Tem muitas barracas vazias e faz muito tempo que não chega mais ninguém. Passei por uma barraca ao lado da minha outro dia e vi um jovem escrevendo umas folhas. Resolvi parar e falar com ele, é um carioca simpático. Bom encontrar afinidade com alguém no meio desse inferno. Ele brincou dizendo que seremos famosos no futuro quando publicarmos nossos diários. Ri depois de muito tempo, e estou de alma e corpo lavados.

A última parte de Diários do fim do mundo foi publicada aqui.

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6 comentários sobre “Diários do fim do mundo IV

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