Diários do fim do mundo V

Terça-feira, 15 de outubro de 2013, Brasília-DF

Chegamos ontem de Minas. Estamos no que um dia foi o campus da UnB, amontoados nas salas de aula. Mas pelo menos é melhor do que dormir numa barraca. Não foram todos que vieram para cá, o que é estranho. As ruas estão molhadas, sinal de que andou chovendo por aqui. Faz muito calor, não houve inverno esse ano. A comida é farta, serviram até frutas frescas, não sei como conseguiram. Bem que estou precisando, já que estou muito magro. Não vi minha nova amiga paulista, a escrevedora de diários. Acho que ela não veio para cá. É uma pena, era uma pessoa inteligente.

Sexta-feira, 31 de outubro de 2013, Juiz de Fora

Estou no último grupo a deixar nosso acampamento. Me ofereci para ajudar no hospital e por isso fui ficando. Agora estamos indo para Brasília. Os últimos dias foram péssimos. A água de baixa qualidade e a pouca alimentação levaram a muitas doenças. A maioria morreu de cólera. Vi muito sofrimento, mas já me sinto meio anestesiada depois de tudo pelo que passei. Os militares dizem que a situação está melhor em Brasília, porque lá eles estavam preparados. Será que o governo já sabia de algo ? Esquisito, mas talvez seja só paranóia minha.

Sexta-feira, 15 de novembro de 2013, Brasília

As coisas estão melhorando por aqui. A energia elétrica voltou, recebemos roupas e materiais de higiene. Me barbeei pela primeira vez em muito tempo ! A sensação é ótima. Depois descobrimos porque disso tudo, nossa presidente veio fazer uma visita. Fez um rápido pronunciamento e falou em uma “tragédia global”, mas foi otimista e disse que em breve tudo deve voltar ao normal. Não sei, mas achei que ela estava nervosa demais e o discurso parecia ensaiado. Minha colega diarista de São Paulo  chegou, mas não está nada bem. Vou até a enfermaria visitá-la hoje.

Sábado, 16 de novembro de 2013, Brasília

Sinto-me fraca. Estou no hospital improvisado desde que chequei. Os médicos passam rapidamente por aqui e não me dizem nada. Não tenho forças sequer para escrever, estou ditando essas palavras para o meu amigo carioca escrever. Vou deixar meus diários com ele, caso algo pior aconteça. Não vi a presidente ontem, mas me contaram que foi um discurso bonito. Meu amigo fez uma careta quando ditei isso…risos. Acredito que vou me recuperar e que vamos todos sair dessa. Tenho fé nisso. E vou ficar famosa com meu diário !

Terça-feira, 26 de novembro de 2013, Brasília

Chorei hoje como a muito tempo não fazia. Bárbara, a minha amiga paulista do diário, morreu. Nos últimos dias não falava e nem se mexia, mas mesmo assim eu ia visitá-la todos os dias. Fiquei com o seu diário. Agora já são dois diários comigo, o do santista assassino e o dela. Deve haver algum sentido oculto nisso tudo, mas eu não consigo entender qual é. Estou desanimado, mas as coisas parecem correr bem por aqui. Pena que a Bárbara não estará por aqui para ver…

Sábado, 21 de dezembro de 2013, Brasília

Estava relendo o diário do santista que ficou comigo e hoje faz um ano que tudo começou. Tantas mortes, tanta luta. Daria um excelente filme, se é que ainda existem cinemas. Não consigo imaginar quando isso vai acabar. As coisas parecem melhorar por um tempo, depois pioram. O tempo continua maluco, ora chove dias seguidos, depois fica meses sem chover. As pessoas que vem para cá são do país todo, e cada um tem uma história tenebrosa para contar. Será que sobreviveremos todos ?

Post scriptum

Mário sobreviveu até fevereiro de 2014 do Calendário Antigo, quando morreu em um surto de cólera. Seu diário e outros que estavam com ele foram encontrados e preservados pelos militares brasileiros. Vinte e cinco anos depois, quando a situação se estabilizou, esses diários foram publicados, primeiramente na Terra de Santa Cruz, e depois traduzidos em outras línguas. Alcançaram grande sucesso, trazendo esperança para aqueles que estavam reconstruindo a Nova Terra. Os corpos dos envolvidos nessas histórias jamais foram encontrados. No lugar do acampamento de Juiz de Fora e na antiga UnB foram erguidos monumentos em homenagem a eles e a todos que morreram na Grande Tribulação.

O Editor, em 15 de Epep de 30 NC (Novo Calendário)

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3 comentários sobre “Diários do fim do mundo V

  1. Caramba! gostei do final, apesar das tragédias e grandes mudanças o mundo não acabou, mas seguiu na reconstrução de uma nova sociedade.

    Pessoalmente acredito que vamos ver algumas mudanças, mas não que tudo seja tão dramático e catastrófico como se prevê. Uma nova consciência seria muito bem-vinda, com mais respeito ao planeta, às outras pessoas e aos animais. Só espero que não haja tanta destruição… (gosto de Mogi, não queria um terremoto por aqui)

    Grande abraço, e parabéns pelo texto!

  2. Nossa, que coragem a dos militares de publicarem diários com críticas. Para mim, essa é uma prova de que o mundo novo realmente seria melhor. Mas é uma pena que a UnB tenha sido destruída, planejava ir para lá D=

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