A favor do bullying literário

Eu sou a favor do bullying literário. Pronto, falei. Quem me conhece já desconfiava disso, porque eu divido as pessoas em dois grupos: as que leram e as que não leram “Cem anos de solidão”, mas é sempre bom colocar as coisas às claras. O meu raciocínio é simples. Se você é o que você come, você também é o que você lê. E se você lê lixo, você é um lixo, e merece ser lembrado disso sempre. Simples assim.

E, para não acharem que eu sou “modinha”, já era a favor do bullying literário antes mesmo de saber que o termo existia. Por exemplo, eu ridicularizava meus amigos que diziam ser nerds mas nunca tinham lido “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. Desculpe, mas não dá para ser nerd sem ter lido a trilogia de cinco livros de Douglas Adams. Seria a mesma coisa de um judeu comer costeletas de porco. É algo incompatível, entende ?

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Douglas Adams: a melhor forma de separar nerds de posers

Antes, muito antes disso, eu quase cometi um adolescenticidio quando uma colega no ensino médio disse que queria prestar vestibular para Letras e eu perguntei se ela já tinha lido Saramago. Ela me respondeu que nem sabia quem era Saramago. Para sorte dela, e azar do resto da humanidade, eu não era forte o suficiente. Hoje ela se formou e tortura os seus alunos obrigando-os a fazer análises sintáticas todos os dias.

Aos que por acaso quiserem dizer que bullying nunca é bom, mesmo que eu tenha bons argumentos a respeito, eu digo que nós temos que tomar uma posição nessa vida. Não dá parar ficar em cima do muro o tempo todo (a menos que você seja do PSDB). Se nós nos calarmos, o mundo vai ficar cada vez mais idiota. Se a coisa continuar assim em breve os idiotas dominarão o mundo e vão regar as plantas com Gatorade.

Quem quiser questionar o meu critério para separar o joio do trigo, ele é simples: bons livros são eternos. Eles continuam a ter leitores e a serem reverenciados depois de séculos. E quem quiser, eu faço o seguinte desafio: eu deixo uma autorização por escrito para você depredar o meu túmulo e queimar o que sobrar dos meus ossos numa fogueira se daqui 50 anos alguém ainda se lembrar do esoterismo pop do Paulo Coelho, da literatura “sobrenatural teen” iniciada com Crepúsculo, da auto-ajuda do Lair Ribeiro ou do Padre Fábio de Melo ou da biografia do Fiuk e da Geisy Arruda. Vai encarar ?

E antes que alguém venha com o raciocínio rasteiro de que eu sou contra tudo o que é popular, é bom deixar claro que muita coisa popular é boa. Harry Potter, por exemplo, pode estar alguns degraus abaixo do excelente, mas é bom. Jostein Gaarder pode não saber colocar um final num livro, mas está acima da média e pode ser interessante para algumas faixas etárias. E Luis Fernando Veríssimo escreve o equivalente literário a um chiclete, mas faz uma boa análise da sociedade atual. Isso só para dar três exemplos bem populares. Sem simplificações, por favor.

E aos que me julgarão um pseudo-intelectual de merda, lamento decepcioná-los, mas não tenho estofo intelectual nem para isso. Quem lê meus comentários de livros publicados aqui todas as quartas sabe que eu luto com todas as forças para manter a cabeça acima do nível da mediocridade reinante, e nem sempre consigo. Então, nem tente começar essa linha de argumentação, ela não terá futuro.

Se você compartilha das minhas ideias, os comentários estão aí para a gente interagir. E se não concorda também. Mas, antes de comentar, dois conselhos: leia a coluna “aviso” aí na direita do blog e repare na categoria em que esse post foi enquadrado. Boa sorte.

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5 comentários sobre “A favor do bullying literário

  1. Oba, estou quase escapando do rol de vítimas do seu bullying literário: já li Cem anos de solidão e vou ler (em breve, espero) a trilogia de cinco livros do mochileiro.

    Para ser sincera, mesmo não querendo ser preconceituosa na área cultural, afinal o sol nasceu pra todos e gosto não se discute (se lamenta…), não dá pra não reparar que o nível de qualidade está firme ladeira abaixo. Certo, nem tudo que é popular é ruim, mas (a maioria d)as pessoas está se contentando com muito pouco; leem os best-sellers da veja (nada contra) e só isso. Não têm curiosidade em ler algo novo, ainda que seja antigo. Deixam de apreciar coisas diferentes por falta de curiosidade ou, vejam só, preconceito.

    Pode até ser que daqui a 50 anos Paulo Coelho seja lembrado (afinal, vendeu um bocado, entrou para a ABL e é notório pela falta de revisão), assim como o “fenômeno” Crepúsculo, mas com certeza a biografia da Geyse e do Fiuk não serão. Cuidado com os ossos!

    Abraços!

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