Lido: Inocência roubada

INOCENCIA_ROUBADA

Elissa Wall tem pouco mais de 20 anos e já publicou a sua autobiografia. Ela não é uma cantora nem uma atriz famosa, e tampouco ficou célebre por participar de algum reality show. O que Elissa fez de importante então ? Ela teve coragem.

Elissa nasceu e foi criada na Igreja Fundamentalista dos Santos dos Últimos Dias (IFSUD), uma seita dissidente do mormonismo que ainda pratica a poligamia e os casamentos arranjados. Ela foi a décima-nona filha de uma família que chegou a três esposas e vinte quatro filhos no total. Tanta gente junta num mesmo lugar raramente dá certo, e divergências internas em sua numerosa família fizeram com que ela fosse fragmentada. Vários de seus irmãos abandonaram a seita e sua mãe biológica foi dada em casamento a outro homem. Foi aí que seus problemas começaram.

Vinda de uma família tida como rebelde, Elissa foi escolhida para “servir de exemplo” e foi obrigada a se casar aos 14 anos com um primo em primeiro grau. Ela lutou com todas as forças contra esse casamento arranjado, mas nada pode fazer. A descrição da sua cerimônia de casamento e de sua primeira noite com o marido são perturbadoras, para dizer o mínimo, mas foram escritas sem sensacionalismo.

A descrição dos quatro anos em que Elissa passou casada são a parte mais pesada do livro. Ela precisou de muita força de vontade e tenacidade para sobreviver ao sexo forçado com o marido, aos seguidos abortos e a outras provações. Mas, como nos contos de fada, tudo deu certo para ela, que conheceu um ex-membro da IFSUD e  depois de muitos questionamentos e hesitações, acabou abandonando a seita e recomeçando a sua vida com ele.

A última parte do livro mostra a redenção de Elissa. Ela processou o “profeta” da IFSUD que arranjou e celebrou o seu casamento. Os EUA podem ter muitos defeitos, mas a justiça por lá ainda funciona, e em pouco tempo o “profeta” estava preso e seria condenado a dez anos de cadeia. Mas a coragem de Elissa lhe custou caro: sua mãe biológica e suas irmãs mais novas foram impedidas de entrar em contato com ela, um fato que ela não deixa de lamentar várias vezes.

A história da vida de Elissa pode ser chocante, mas o livro não cai no sentimentalismo barato nem pode ser encarado como uma vingança. A autora deixa claro que há muita gente boa no seio da IFSUD e credita o que aconteceu a uma liderança egoísta e mal intencionada e a um sistema de crenças ultrapassado e machista. Ela faz questão de frisar que passou bons momentos na infância com sua numerosa família e em nenhum momento perdeu a sua fé em Deus, o que para mim é, por si só, um milagre.

Veredito final: uma história chocante escrita com rara sensibilidade e sem apelar para o pieguismo. Altamente recomendável. Nota nove.

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4 comentários sobre “Lido: Inocência roubada

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