Lido: O mistério do eterno retorno

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“O mistério do eterno retorno” é um livro sobre reencarnação. Mas não é um livro espírita. Pelo contrário, adeptos de Kardec podem até não gostar do tom adotado pelo autor para criticar o codificador de suas crenças.

O livro é claramente dividido em duas partes. A primeira é mais histórica. Nela, Prieur discorre sobre a gênese da crença da existência em vidas sucessivas e a situa na Grécia antiga. Aponta quais filósofos gregos apoiavam ou não essa crença e faz paralelos entre a metempsicose que os gregos acreditavam e a reencarnação atual.

Prosseguindo na senda histórica, o autor mostra como o cristianismo primitivo se chocou com a gnose e os sistemas filosóficos da época e mostra a total incompatibilidade entre eles. Nesse ponto há dois excelentes capítulos sobre Apolônio de Tiana e Simão de Samaria, que são muito esclarecedores.

A partir daí a obra avança mostrando outras figuras históricas que defenderam a crença em vidas sucessivas, como Campanella e Cyrano de Bergerac. Ele dá ênfase a personagens franceses, o que não é de admirar, já que o autor é de lá.

Quando a cronologia chega em Kardec o tom do livro muda do histórico para o panfletário. Usando de palavras duras o autor “põe o dedo na ferida” e critica a reencarnação como apresentada por Kardec, apontando contradições e falhas na teoria do seu patrício.

Para justificar o seu pensamento o autor usa da Bíblia e de relatos de psicografias conseguidos através de anos de pesquisa. Item após item ele vai demolindo a teoria da reencarnação e sobre esse edifício destruído ele enfim deixa claro o objetivo do seu livro: propor a sua própria teoria, que ele chama de “reencarnação de misericórdia”.

Prieur alega que a reencarnação não é “ampla, geral e irrestrita” como quer Kardec mas sim “rara, excepcional e voluntária”. Para resolver o problema dos espíritos que ainda precisam de evolução, ele cita ousadamente João 14:1 (há muitas moradas na casa do meu Pai) para argumentar que os espíritos evoluem no Plano Astral e não precisam voltar para o Plano Físico para evoluírem. Ele também faz uma polêmica, para dizer o mínimo, associação entre essas esferas de evolução celestial com o purgatório conforme defendido pela Igreja Católica.

O ponto mais nevrálgico do livro é justamente esse. Espíritos enviando mensagens via psicografia afirmando categoricamente que reencarnação não existe ? Heresia, dirão os kardecistas. O purgatório existe ? Protestantes discordam frontalmente. O purgatório é só um estágio para a evolução das almas ? Católicos não concordam. Ou seja, numa tacada só o autor consegue desagradar todo mundo ao mesmo tempo. Se fosse hoje em dia (o livro é de 1994) Prieur seria considerado um troll teológico.

É justamente essa polêmica teoria que é ao mesmo tempo o ponto forte e fraco do livro. O ponte forte porque a teoria é bem construída e embasada em pilares a primeira vista sólidos. Mas fraca porque o autor faz questão de ser o mais ácido possível, criticando abertamente Kardec com frases de efeito, enquanto se auto-louva como o autor da única verdade insofismável.

Veredito final: um livro com uma boa parte histórica e uma polêmica parte argumentativa. Consegue desagradar a gregos e a troianos, mas a argumentação é boa. Nota oito para ele.

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Um comentário sobre “Lido: O mistério do eterno retorno

  1. Boa resenha! mas o livro não me agradou. O autor poderia defender sua teoria sem precisar demolir todas as outras; isso me parece insegurança. Sem contar que acredito na teoria de Kardec, que para mim faz todo o sentido.

    Abraços!

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