O professor

Quando certa manhã Gregório Silva acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Aí ele acordou de verdade e jurou nunca mais ler Kafka antes de dormir. Era o segundo pesadelo com baratas em uma semana.

Gregório era o que se podia chamar, naqueles tempos, de um intelectual. Depois de uma graduação brilhante em Letras, um mestrado com louvor em Linguística e um doutorado em Literatura Comparada que virou um livro que fez sucesso entre o público inversamente proporcional aos elogios que recebera da crítica, ele esperava que o Estado o recompensasse com um pouco mais do que méritos acadêmicos. Mas as coisas não funcionavam assim naquela época, e os professores universitários ganhavam mal, como ele descobrira. Pelo menos tinha um emprego e gostava dele.

Tomando café para se recuperar do pesadelo, Gregório reparou num pequeno envelope amarelo que havia sido, obviamente, colocado debaixo da porta do seu apartamento. Dentro, num papel também amarelo com leve odor floral, uma única frase, escrita a mão em bela letra cursiva:

“O amor é sede depois de se ter bem bebido”

“Guimarães Rosa” pensou ele na hora. Um belo jeito de começar o dia, com Guimarães Rosa. Quem teria colocado o envelope ? Gregório não tinha tempo para adivinhações, já estava atrasado.

No dia seguinte Gregório acordou radiante. Tinha tido uma ideia brilhante enquanto se barbeava. Ia escrever um artigo provando, de forma definitiva, que Capitu traíra mesmo Bentinho. Enquanto tomava notas freneticamente ele mal reparou em outro envelope amarelo na sua sala. Só o pegou quando estava de saída. Abriu enquanto andava pelo corredor.

“Se eu sei o que é o amor, é por sua causa”.

Essa ele não lembrou de quem era assim, de primeira. Foi só quando estava chegando na faculdade que conseguiu se lembrar.

– Herman Hesse ! disse alto, parando de chofre e batendo a mão na testa.

– O que foi, professor ?

– Nada, nada. E saiu andando, enquanto os alunos comentavam baixinho que aquele professor era meio esquisito mesmo.

Os envelopes amarelos continuaram chegando a semana toda, até no domingo. Gregório não era a pessoa mais curiosa do mundo, mas precisava de uma explicação. Primeiro pensou que poderia ser o porteiro. Talvez ele fosse um colega de Letras que não teve sorte na carreira. Mas não era. O porteiro era só mais um engenheiro civil que não conseguira emprego, coisa comum naquela época.

Gregório chegou a procurar alguns vizinhos de andar para perguntar dos envelopes, mas ninguém acreditou nele. Acharam que era só mais uma excentricidade de um professor recluso e solitário. Talvez fosse só alguma forma sofisticada de bullying – a palavra da moda na época – que ele estava sofrendo. Ia investigar na universidade.

Um mês se passou e os envelopes amarelos com um suave cheiro floral chegaram todos os dias. Com frases de amor cujos autores variavam de Ghoete a Renato Russo – esse ele teve que procurar a autoria na Internet – e a mesma letra cursiva caprichada. Gregório já não aguentava mais e resolveu tomar uma atitude.

Pegou uma sacola plástica, daquelas de supermercado, que ainda não tinham sido proibidas na época, e juntou todos os envelopes. Deu trabalho, alguns tinham ido parar nos lugares mais improváveis. Saiu e foi jogar na lixeira do prédio. Pegou o elevador com uma vizinha do andar de cima, a quem pouco via. Ela usava um suave perfume floral que lhe pareceu estranhamente familiar.

Gregório jogou aquela massa de papel amarelo no lixo e foi trabalhar. Só quando voltou que soube da tragédia. A vizinha do andar de cima tinha se suicidado pulando pela janela. Ao seu lado, uma carta de despedida falando de amores não correspondidos, escrita num papel amarelo com uma bela letra feminina.

Daquele dia em diante Gregório não recebeu mais nenhum envelope. Mas acordava toda noite com a sensação de que uma mão gelada havia tocado no seu pé…

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