Jesus e Maria Madalena eram marido e mulher ?

Durante séculos a Igreja Católica reteve para si o monopólio da Bíblia. Isso mudou com a Reforma protestante e a invenção da imprensa, e hoje em dia a Bíblia é o livro mais vendido do mundo.

O resto da história você já conhece: hoje em dia, qualquer um com uma Bíblia na mão e uma ideia maluca na cabeça escreve um livro ou publica um site com a sua nova e revolucionária teoria sobre o cristianismo. Geralmente o enredo é o mesmo: a Igreja Católica escondeu a verdade desde os primórdios e só o autor, depois de exaustivas pesquisas, sabe a verdade que mudará a forma como nós vemos o cristianismo. Algumas dessas teorias ficam mais famosas que as outras. Hoje vou escrever sobre uma das mais conhecidas, a  teoria de que Jesus e Maria Madalena eram casados. Um dia, quem sabe, eu escreva sobre outras teorias interessantes.

A teoria que Jesus e Maria Madalena tiveram um relacionamento amoroso e até um filho tem como principal apoio um único parágrafo, e incompleto, de um texto apócrifo (que não foi selecionado para entrar na Bíblia “oficial”), o Evangelho de Filipe. O texto é esse:

E a companheira do ( … ) Maria Madalena. ( … amava-a) mais do que (todos) os discípulos (e costumava) beijá-la (frequentemente) em seus ( … ). Os demais (discípulos … ). Eles lhe disseram: “Por que a amas mais do que a todos nós?” O Salvador respondeu dizendo: “Por que não os amo como a ela? Quando um cego e uma pessoa normal estão juntos na escuridão, não são diferentes um do outro. Quando chega a luz, então, aquele que vê verá a luz, e o cego permanecerá na escuridão”.

Geralmente as lacunas são preenchidas dando a entender que Jesus beijava Maria Madalena na boca e que o apóstolos não gostavam muito disso, mas o texto encontrado tem lacunas nessas partes, ou seja, o papiro estava danificado pela passagem dos anos.

Há também um chamado Evangelho de Maria Madalena, mas o texto está incompleto, e só foi lhe foi dado esse nome porque ela é a personagem que mais aparece nele. Nesse Evangelho, Maria Madalena aparece como uma líder inconteste dos apóstolos e tendo uma briga feia com Pedro. É tido como prova cabal da importância de Maria Madalena para o nascente cristianismo, mas o texto está muito truncado. Uma Maria aparece discutindo com Pedro, mas não está claro se é mesmo Maria Madalena. Ela também é apontada como “discípula do Mestre” mas o nome de Jesus não é citado em lugar nenhum.

Essas são as únicas duas fontes mais próximas da época dos acontecimentos que dispomos. Ambas incompletas e cheias de lacunas. O resto é quase tudo invenção para vender livro, ou textos que surgiram muito tempo depois.

Agora, você, meu esperto leitor, minha sagaz leitora, deve imaginar que se há fontes da época, mesmo que aos pedaços, significa que algo aconteceu, certo ? Bem, não necessariamente. Significa que havia pessoas que acreditavam que tinha acontecido alguma coisa. E quem eram as pessoas que escreveram esses textos ?

Eram gnósticos. Gnose é basicamente uma salada de várias crenças, e seus adeptos cresciam como praga nos primeiros anos do cristianismo, tanto que muitos Pais da Igreja tiveram trabalho refutando suas teorias. Os gnósticos pareciam acreditar que Jesus e Maria Madalena eram aéons, emanações vindas diretamente de uma divindade maior. Nesse esquema, Maria Madalena seria Sophia, a Sabedoria (o Evangelho de Filipe se refere assim a ela em alguns trechos) e os dois se encontraram aqui nesse plano terrestre para instruir a humanidade. Bonito, não ?

Mas aí alguém, que seja o próprio Pedro, ou Paulo, que teria “complicado” a mensagem simples de Jesus (há quem diga que o que temos hoje é paulinismo e não cristianismo) ou até o imperador Constantino resolveu dar um fim no “verdadeiro” Jesus gnóstico e sua parceira celestial e jogar tudo para debaixo do tapete, impondo o seu modo de ver as coisas em detrimento do que realmente aconteceu. Bela teoria conspiratória. Ou…

Ou talvez não aconteceu nada disso, e os gnósticos acreditavam numa coisa, e tinham seus textos para provar, e os cristãos primitivos acreditavam em outra coisa e também tinham seus textos para provar, e os segundos ganharam a disputa, enquanto os primeiros foram se apagando até influenciar o maniqueísmo no século III, que depois influenciaria o catarismo no século XIII e levaria à Igreja Católica a criar a Inquisição. A história costuma se repetir com uma insistência irritante, vocês não acham ?

Então, Jesus e Maria Madalena eram marido e mulher ? Não sabemos. E nunca saberemos, a menos que algum texto bombástico esteja escondido no deserto (como em Nag Hammadi) ou em cavernas (como os manuscritos do Mar Morto) ou até na biblioteca do Vaticano, quem sabe.

Sim, é isso mesmo. Nós não sabemos. As fontes que atestam que Jesus e Maria Madalena viviam juntos são poucas, incompletas e ambíguas, porque o cristianismo “passou como um trator” por cima do gnosticismo que apoiava essa interpretação da vida de de Jesus. Isso não significa que as alegações dos “derrotados” sejam verdadeiras só porque eles foram derrotados. É que é sempre mais fácil criticar o grande e ser simpático ao pequeno, não é mesmo ?

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5 comentários sobre “Jesus e Maria Madalena eram marido e mulher ?

  1. e tem gente que lê o código da vinci e acredita que a teoria é verdadeira…

    Mas falando sério, na minha opinião para ler a bíblia é preciso buscar a mensagem e não se fixar nos detalhes, porque aquilo (especialmente o velho testamento) é um novelão de primeira. Há a mensagem, ela é importante e crucial para nossa evolução espiritual, mas está escondida atrás de muitas histórias que chamavam mais a atenção (e ainda chamam)…

  2. Henderson, não precisamos de apócrifos para notar que Jesus era casado mesmo com Maria Madalena. No próprio Evangelho católico vemos claramente alusões a isso:

    – No episódio da unção de perfume que Maria deu em Jesus. Se a pessoa não conhecer o que está lendo, não notará os detalhes decisivos. O tal perfume, como diz o Evangelho, é o nardo, um unguento caríssimo feito à base de uma planta dos HImalaias, trazida pelos mercadores sírios. O nardo, segundo os costumes antiquíssimos judaicos, era usado em duas ocasioes: na celebração do casamento e para embalsamar o defunto. Ora, Jesus ali fala que “não molestassem Maria, pois que ela estava preparando o corpo dele para a sepultura”, já antevendo o que lhe ia acontecer. Somente a mãe ou a esposa poderiam fazer isso! E no livro Cântico dos Cânticos (antigo testamento), o nardo é citado na celebração de casamento, como ritual de união.

    – Se isso não bastar, reflita: Jesus era tido como Rabbi (mestre), e ensinava na tribuna das sinagogas aos sábados. Pergunte a qualquer judeu que você conhecer se alguém solteiro, naquela época, poderia subir à tribuna e fazer exegese da Torah sendo solteiro! Era contra os preceitos da Torah!

    …isso sem contar outros inúmeros indícios…o problema é que quando a Igreja escolheu os Evangelhos que iria reforçar sua teoria, não cuidaram de todos os detalhes, e o poo era tão imbecil e burro que imaginaram que nunca estudariam, pois as massas eram destinadas apenas para servirem como cavalgaduras!

    Enfim, se você quiser ler o que postei a respeito, eis o link:

    http://ebraelshaddai.wordpress.com/2009/01/20/evidencias-do-casamento-de-jesus-e-maria-madalena/

    Abraço!

  3. Eu respeito o seu ponto de vista, Ebrael, mas discordo. Se Jesus fosse casado, isso teria sido citado nos escritos que entraram no canôn de forma direta, afinal nele são citados a sua família.

    De forma alguma o celibato era incomum entre os judeus. Moisés foi celibatário. Os ascetas de Qmurã também o eram. João Batista também. Flavio Josefo e Filon narram celibatários na época de Jesus.

    Jesus nunca cita sua esposa, os seus supostos filhos. Quando na cruz, ele se preocupa com a mãe e com o discípulo que ele amava (João ou, dizem, Lázaro).

    Como você pode ver, há indícios para os dois lados, tanto para apoiar ou refutar a ideia do casamento de Jesus. Eu, particularmente, acho que Jesus nunca se casou, e a menos que tenha algum manuscrito em bom estado perdido no meio de algum deserto, vou continuar acreditando nisso.

    • Henderson, considerando que o cânon oficial foi eleito 4 séculos após os acontecimentos que eles pretendiam avaliar (e eles não possuiam lá grandes historiadores muito isentos), e também sem esquecer que o cânon foi eleito de forma não unânime, 4 livroa entre centenas de relatos, não posso chegar a ter o tal cânon como muito confiável.

      Os celibatários de que você e Flávio Josefo podem estar falando provavelmente são os essênios e nazireus. Jesus não podia ser nem essênio nem nazireu (embora o próprio primo João Batista fosse um essênio), pois em ambos os casos o convívio com “impuros” (prostitutas, cobradores de impostos, etc.) e o hábito de beber vinho e comer carne impura era impensável. Um celibatário ou alguém preso a um voto jamais fazer tais coisas. A comparação, nesse aspecto, entre Jesus e Moisés parece fora de prumo.

  4. Continuo respeitando seus argumentos, mas acho que não há elementos suficientes para bater o martelo nessa afirmação. E, na dúvida, eu prefiro manter o status quo.

    Eu vejo Jesus como um revolucionário. Não um proto-marxista como o viam na Teologia da Libertação, mas alguém que rompeu com as tradições do seu tempo. Ele enfrentou todos os grupos judeus da época. Fariseus, saduceus, zelotes. Até os essênios, já que há indícios que Jesus pronunciou o famoso Sermão da Montanha a poucos quilômetros de Qmurã. Para mim, Jesus não seria casado somente para cumprir as tradições do seu tempo, porque para Ele isso pouco importava.

    Não podemos esquecer também que logo em seguida de Jesus, Paulo também foi celibatário. E ele pregou em sinagogas em metade do império romano e não foi expulso de nenhuma por causa disso.

    Mas eu não acho que o fato de Jesus ter sido casado invalidaria de alguma forma sua mensagem. Se Ele foi homem como nós, que se cansava, comia, bebia, tinha angústia, então poderia ter sido casado também, não haveria problema nisso. Mas eu não creio que Ele tenha sido, pelos motivos que já expus.

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