A carta parte I

Faltava menos de uma semana para o Natal e a segunda maior preocupação de Ana Clara era se seus pais iam atender o seu pedido de ganhar um notebook de presente. A primeira preocupação era o que vestir na ceia da casa dos avós, mas disso ela podia tratar na véspera.
A noite estava quente e abafada, quente demais até para aquela época do ano. Ela fechou as janelas, ligou o ar condicionado e ficou escrevendo na cama, um hábito antigo. Até que Morpheu apareceu para a sua visita noturna e ela adormeceu em meio a lindos sonhos.

Clarice mal havia se deitado na sua esteira rústica quando o terremoto começou. Pequenos terremotos eram comuns desde a passagem catastrófica de Nibiru pelo centro do sistema solar, por isso ela nem se abalou. O seu corpo inteiro doía pelo esforço de ajudar a cavar mais galerias para ampliar a caverna onde há várias décadas morava o seu clã. O terremoto ia passar logo, pensou ela tentando adormecer.
Mas não passou logo. Pelo contrário, aumentou de intensidade. Clarice se levantou e viu que terra caia do teto da caverna. Sem pensar duas vezes, saiu correndo para o salão principal e, tateando no escuro, chegou até o lado de fora, quando ouviu um grande estrondo e tudo ficou escuro.

Ana Clara arrumava tristemente as suas coisas numa pequena mala. Nem dava para acreditar que a seis meses atrás ela pensava em ganhar um notebook, comemorar o Natal e a chegada de 2013. Agora ela ficaria satisfeita com um sanduíche de qualquer coisa. Desde a passagem de um planeta errante perto da Terra, a sua vida tinha mudado totalmente. Terremotos, tsunamis e tempestades haviam matado bilhares de pessoas, pelas notícias que haviam chegado no início. Depois as coisas pioraram, não havia mais energia, e seu pai havia saído um dia em busca de comida e não tinha voltado mais. Agora ela se preparava para ir embora com a mãe e um grupo de vizinhos. Iam para o campo, tinha ouvido dizer.
Ela se despediu tristemente do seu quarto. Fechou bem as janelas, arrastou um armário até lá. Tinha esperança de que um dia tudo voltaria ao normal. Levantou o colchão e deixou uma carta envolta num pedaço de plástico. Se ela não voltasse, gostaria que soubessem que um dia ela tinha existido. Fechou a porta em silêncio e saiu rumo ao desconhecido.

Três dias depois do terremoto o conselho de anciãos se reuniu. O sismo havia destruído em poucos minutos mais de 20 anos de trabalho do clã em escavar pacientemente a encosta para fazer cavernas que eles consideravam seguras. Mais da metade dos membros estava morta pelo soterramento ou morreria nos dias seguintes de fome, pois não havia como remover a grande rocha que fechara a entrada da caverna.
Sentada no lado esquerdo, junto com as outras mulheres, Clarice não chorava mais. Tinha esgotado todas as lágrimas e energias nos últimos dias tentando desesperadamente abrir caminho para a caverna. Mas eles toparam com aquela rocha impenetrável. Agora ela estava órfã. Já não tinha mãe, que havia morrido ao dar a luz a ela, e agora também perdera o pai.
O conselho dos anciãos deliberou a noite toda e decidiu que eles voltariam para a cidade. Nem todos foram a favor. Eles ainda se lembravam dos saques, mortes e estupros que aconteceram quando caos se instalou a tantos anos atrás. Clarice não sabia o que era estupro, mas não parecia ser algo bom.
A partida foi marcada para o dia seguinte. Clarice, com as outras mulheres, foi encarregada de fazer a colheita no que havia sobrado da plantação de milho do clã para conseguir provisões para a viagem. O coração de Clarice ficou apertado, mas ela rumaria com os seus rumo ao desconhecido.

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